A maioria de nós chegava de outros lugares para fazer a tão sonhada faculdade de Jornalismo na UNESP. Morávamos em pensões e repúblicas. Aprendemos a lavar roupa e cozinhar, a respeitar o espaço do outro, a dividir contas, a brigar e fazer as pazes, a reunir os que ficavam na cidade aos finais de semana para almoçar uma macarronada e amenizar um pouco a saudade de casa.

Se não fossem os poucos computadores do Laboratório da faculdade, a relação com a internet seria de paixão platônica. Trocar e-mails e acessar portais de notícia só em revezamento com a fila ansiosa de colegas que se dividiam entre os mesozóicos PCs.

Aliás, nesse tempo, o texto jornalístico era treinado em barulhentas teclas de máquinas de escrever. CTRL+Z atendia por corretivo líquido ou lápis borracha: o primeiro transformava o texto em borrão e o segundo quase sempre rasgava as frágeis folhas de papel jornal. E que dó ver perdido aquele trabalhão que começava nas pautas dentro do campus, na transcrição das entrevistas gravadas com gente daqui, quando sempre se aprendia algo novo sobre a cidade.

Todos tinham ao menos uma peça de roupa manchada de líquido revelador. Não, não era só baixar as fotos da máquina pro PC… Entrava-se na sala escura do Lab de Fotografia e, passo a passo, a imagem surgia no papel graças a uma mistura de mágica e química. As fotos, em sua maioria, retratavam cenas e espaços da cidade. A praça Rui Barbosa e os personagens da Rodrigues Alves eram nosso foco favorito.

Quase ninguém tinha carro. Nem dinheiro. Mas a diversão era garantida por mentes criativas, efervescentes, libertas de preguiça ou medo: minha turma chegou a brincar de mímica no teatro a céu aberto do Vitória Régia. À noite. Juntávamos as moedas e as reuniões de república ganhavam status de festa. A gente curtia os bares da Duque madrugada a dentro, “batistava” nas tardes de sábado em busca de um CD novo, de um livro no sebo ou de compras charmosas em um brechó do centro.

As caronas pra faculdade eram concorridas e todo mundo confiava na sorte do acaso. Economizar um passe de ônibus fazia diferença. Por passe, leia-se pequenas moedinhas de plástico marrom marcadas com o logo da ECCB. Foi em longas caminhadas a pé que a gente descobriu Bauru, de um ponto a outro da Nações Unidas. E andando em suas ruas, assistindo os filmes no cinema do Centro, trabalhando no comércio pra pagar as contas, indo a festas no BTC, vivendo a cidade… a gente descobria a vida adulta.

Enquanto Bauru crescia, os nossos progressos também se materializavam: fosse pelas concorridas oportunidades de estágio, ou pela temida contagem regressiva para a entrega do TCC. Em pouco tempo, o diploma, os primeiros empregos. E a depender de onde a chance surgisse, vinha a decisão de abraçar Bauru de vez ou deixá-la.

Muita gente fez da cidade seu lugar no mundo, criou raízes e floriu no calor daqui. Outros tantos partiram pra viver a profissão e a vida em outras bandas (e eu creio que se lembrem com saudade daqueles anos tão marcantes). Alguns – como eu – foram e voltaram. Para todos nós, Bauru sempre terá uma aura mágica. É como a lembrança boa daquele lugar onde se passava as férias de infância. O sabor do melhor doce do mundo, que só a vó da gente sabia fazer. A música que embalou o primeiro amor. Um perfume que traz de volta boas sensações quanto a gente reconhece. Aquela amizade que, de perto ou de longe, a gente sabe sempre presente. A cidade que sabe acolher tem vocação especial para ser cenário de momentos decisivos em tantas histórias de vida. Que assim permaneça.

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