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O tempo foi curto – um pouco mais de um mês – mas as transformações na vida de Fernanda Pires serão para a vida toda. Pelo menos é o que ela afirma. Tantas coisas que viveu e tantas coisas que trouxe para cá de volta fizeram com que ela começasse a olhar o dia a dia de um jeito totalmente diferente; totalmente novo.

“As pessoas aqui reclamam demais, não sabem o que as dificuldades que eles passam. E, mesmo com tudo isso, eles estão sempre pensando no outro. Eles me ensinaram muito”.

As festas quase todos os dias, o amor pelas crianças e professores, a dificuldade em se acostumar com a comida local e a bondade do indiano – Fernanda relembrou de tudo isso e muito mais nesse bate-papo com o Social Bauru. Que tal deixar o preconceito e medo de lado e ir de cabeça em algo totalmente novo? Fernanda, pelo menos, amou a experiência. Confira a entrevista:

SB: Você ficou um mês e meio lá, mas a sensação é que foi mais que isso, né?
Sim! (risos) Com certeza.

SB: E por que você escolheu a Índia?
É que eu trabalho na AIESEC, fundação sem fins lucrativos que promove intercâmbio e eu sempre tive muito contato com as pessoas que já viajaram para fora. E sempre ouvi muitas histórias e as que mais encantavam eram as da Índia. Não só coisas boas, os desafios também. Tudo o que eles falavam me chamavam muita atenção, principalmente a diversidade cultural. Até pensava em outros países mas a Índia sempre foi a minha primeira opção.

SB: E onde você morou na Índia?
Em Nova Deli, onde eu fazia trabalho voluntário de segunda a sexta. Nos finais de semana eu aproveitava para viajar para outras cidades. Elas nem eram tão próximas, ficavam umas oito horas de Nova Deli, mas era a oportunidade que eu tinha.

SB: Como foi o trabalho voluntário que você fez na Índia?
Lá eu dava aula de inglês e matemática básica para crianças de 3 a adolescentes de 13 anos. Era bem diversificado! E o legal é que lá eles não separam em salas de aula por idade e sim por conhecimento. Então tinha criança e adolescente na mesma sala. As crianças menores sentavam na frente e lá no fundo os adolescentes. Eu ficava em uma sala com mais uma brasileira que também era voluntária, além da professora da escola.

SB: Você sentia que os alunos eram bem interessados?
Sim, demais! As professoras ficavam até surpresas porque a gente entrava na sala e eles já vinham atrás querendo aprender.

SB: E quais os problemas que você teve na viagem?
Ah, com a comida que era muito apimentada. O tempero deles já é diferente e eles ainda colocam bastante pimenta. E diferentemente do que as pessoas pensam, lá a gente não comia no chão. Até porque eu vivia em Deli que é a capital da Índia. Mas o costume de comer no chão tem só em poucos lugares, o comum é comer com a mão. É uma coisa normal. Por exemplo, quando eu ia jantar na casa de alguém, tinham os talheres, mas quando eu comia na escola era com a mão. Mas o problema da comida é que eles têm o tempero que se chama Masala que não me agradou muito e não agrada estrangeiro. É muito forte e eles ainda colocam a pimenta. Eu tentei experimentar muita coisa, mas tinha comida que eu não conseguia nem engolir de tão apimentada que estava! E as crianças de três anos na escola comiam normalmente! Mas eu não conseguia. Por isso, acabei optando pelo fast food. A comida de lá é muito barata, mas, ao mesmo tempo, é muito diferente.

SB: Tiveram outros problemas, além da comida?
Ah, a língua. A língua oficial é o hindi, mas eles também falam inglês. O problema é o sotaque que é muito diferente! É uma coisa doida! No começo, eu tive muitos problemas com isso porque não conseguia entender. E, apesar de muita gente falar o inglês, tinha gente que não falava. Alguns professores da própria escola que eu era voluntária não falavam. Agora pensa: eu tinha que ensinar inglês para criança que só falava hindi que tinha aula com professor que só falava hindi. Foi complicado! Eu tinha que ficar na mímica. Mas com o tempo eu fui aprendendo a me virar. E, além da língua, a falta de higiene de lá também é complicada.

SB: Realmente tem muita sujeira como falam?
É que para eles é uma coisa normal. Por exemplo, lugar que oferecia comida, o funcionária mexia om dinheiro e com alimento sem proteção. São os hábitos dele. Mas no começo eu assustei bastante. Assim que cheguei não conseguia comer com a mão, mas depois eu já tinha me acostumado! (risos). Eu tinha que me inserir na cultura deles.

SB: E na rua você viu muita sujeira?
Então, na verdade, eu sentia um cheiro muito forte. É tudo muito poluído… quem reclama de São Paulo não tem noção de como é lá! Então é um cheiro de poluição com muita comida na rua, muito típico de lá. Mas com o tempo a gente vai acostumando.

SB: De um modo geral, deu para aproveitar bastante?
Muito! Lá, eles são muito festeiros e alegres. Baladas têm quase todos os dias em prédios, onde cada andar é um lugar diferente. E estrangeiro não paga, então era melhor ainda. A diferença é que lá acaba cedo, uma hora da manhã e a festa estava acabando. bem diferente daqui.

SB: E o que você sentiu dos indianos?
Nossa, eles são muito bondosos. Sempre calmos, querendo ajudar e eles não pensam que estão fazendo muito. Para eles, é normal agir assim. Isso me impressionou.

SB: O que você sentiu da religião?
Eles são bem religiosos e rezam várias vezes ao dia. Mas, o mais legal, é a tolerância com outras religiões. Não existe preconceito lá. Tanto que eu fui visitar um templo de todas as religiões, que não tem nem imagem, nada. E todos se respeitam lá.

SB: O que você mais sente falta de lá?
Ah, da minha rotina. Eu sinto falta de cada coisa da minha rotina de lá. Porque eu não estava a passeio, tinha uma rotina lá. Então eu sinto falta das pessoas que eu conheci lá, de pegar o ônibus que eu pegava, da casa que eu morava, de ir até a escola, das crianças que eu dava aula… tanto que eu nem consegui me despedir delas. Eles nem ficaram sabendo que era o meu último dia porque estava muito difícil para mim. Eu sinto muita falta. Lá, todo mundo quer te ajudar de alguma forma, até os professores convidam os alunos para ir jantar na casa deles. Foi uma experiência muito boa, principalmente pelas pessoas que eu tinha ao meu lado. As pessoas me falavam muito do choque cultural que eu teria quando chegasse lá, mas foi ao contrário. O choque veio quando eu voltei para cá.
Lá, cada dia era uma coisa nova, uma descoberta e aqui não.

SB: O desafio é encontrar o novo aqui, né?
Nossa, com certeza!

SB: O que mais mudou em você nesse tempo?
Quanto mais você se desafia e tenta fazer coisas diferentes como essa, mais você quer se desafiar. Fui lá, fiz isso e agora a minha vontade é de fazer uma coisa maior. Acho que agora eu sou muito mais corajosa.

E você não que, por eles serem mais pobres, passarem mais dificuldades e serem mais bondosos, você não voltou com outro olhar?
Sim, com certeza. As pessoas aqui reclamam demais, não sabem o que as dificuldades que eles passam. E, mesmo com tudo isso, eles estão sempre pensando no outro. Eles me ensinaram muito.

SB: E você pensa no próximo intercâmbio?
Sim, agora eu quero ir para o Egito!

SB: Você gosta de lugares exóticos, hein!
Pois é! (risos) Mas o legal é você se desafiar.

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