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Foto: Divulgação

Você, com certeza, já passou pelas ruas de Bauru e viu algum tipo de intervenção, seja pichação, graffiti ou lambe-lambe. E foi para discutir esse tipo de arte e a proibição dela, que as estudantes do curso de Jornalismo da Unesp produziram o documentário Lata Estrala.

“Espero que mais e mais pessoas assistam e debatam em suas casas, nos bares, nas salas de aula, na rua e em todo lugar como a arte é importante e libertadora no nosso cotidiano. Como pode ser poética e política, ao mesmo tempo, e como a existência dela marca um pouco da nossa própria existência, mostrando como pensamos sobre determinado tema”, diz Keytyane Medeiros, uma das estudantes.

O Social Bauru conversou com ela e soube mais sobre esse projeto. Confira:

Qual o tema do documentário?
Keytyane: O documentário A Lata Estrala trata das intervenções urbanas visuais na cidade de Bauru. Procuramos entender qual a cena artística local, envolvendo graffiti, pichação e lambe-lambe.

Por que vocês decidiram fazer esse documentário?
Keytyane: A nossa proposta é debater a cena das intervenções artísticas da cidade, quem são os personagens que produzem e por que começaram, qual a importância das intervenções como graffiti e pichação numa cidade do tamanho de Bauru. Debater, ainda, a ocupação do espaço público através da arte, a existência social e cultural de agentes criativos da cidade e como ela influencia a vida das pessoas que passam por muros coloridos ou rabiscados. Enfim, procuramos identificar o que torna os muros de Bauru um espaço de interação entre transeuntes e artistas, como a arte urbana se consolida no outro que a recebe e a percebe, além de conhecer quem faz e como se faz essas intervenções, sejam poéticas ou políticas em Bauru.

E como surgiu a ideia?
Keytyane: A ideia surgiu durante uma disciplina na faculdade (UNESP). Precisávamos escrever um roteiro audiovisual para um documentário de dez ou 15 minutos e como sabíamos que no semestre seguinte iríamos de fato produzir um documentário maior para a disciplina Telejornalismo II, resolvemos escrever sobre algo que estivesse ao nosso alcance e que fosse social e culturalmente relevante para a cidade, quando fosse realizado. Então, a ideia vem sido gerida, estudada, modificada desde novembro de 2014, até começarmos a gravar, em março de 2015.

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Foto: Divulgação

Quantas pessoas estão envolvidas?
Keytyane: Somos um grupo de quatro mulheres, todas estudantes de Jornalismo da Unesp: Amanda Fonseca, Keytyane Medeiros, Lívia Lago e Marina Moia (única moradora de Bauru).

Quanto tempo demorou, entre gravação e finalização?
Keytyane: Entre gravação e finalização foram aproximadamente dois meses, nos quais numa mesma semana chegamos a realizar três ou quatro entrevistas e ainda saíamos para captar imagens. Tínhamos uma preocupação estética muito grande com as cores que iriam permear o documentário, pois falamos muito de intervenções como obras de arte, então precisávamos aproveitar os dias de sol e céu aberto para captar imagens na rua em tonalidades vibrantes, fortes. Ao todo, levamos duas semanas para editar, agora, no final de abril, e o resto foi gasto em gravações.

Tiveram alguma dificuldade durante esse tempo?
Keytyane: Algumas. Além da preocupação com as cores e aproveitar os dias abertos (nem todos estavam assim), também foi um pouco complicado entrar em contato com pichadores, já que a atividade deles é ilegal e obviamente, eles não se expõem. Então entramos em contato com três ou quatro, até que um topasse falar conosco e contasse um pouco sobre o que faz. Acredito que não falar com os pichadores prejudicaria muito o nosso trabalho, pois teríamos um universo mais uniforme para trabalhar já que o graffiti e o lambe-lambe são mais socialmente aceitos que a pichação, que tem sempre tons escuros e se autorreferencia com frequência. A nossa proposta era discutir as intervenções urbanas mais visíveis na cidade, fossem elas mais ou menos controversas. Fora isso, todas as outras entrevistas e gravações foram bastante acessíveis.

Quem são os personagens do documentário e por que escolheram falar com essas pessoas?
Keytyane: Ao todo, são dez personagens de diferentes áreas. Conversamos com quatro grafiteiros -um deles também é sócio de uma loja especializada em tintas para graffiti e em arte urbana em Bauru -, com dois pichadores, com dois professores especializados em arte e intervenções no espaço urbano, um professor de arquitetura e urbanismo que também é membro do Conselho de Planejamento Urbano de Bauru, o dono de uma página no Facebook que divulga fotos que a população tira de graffitis, pichações, frases, estêncil, etc… também com o vereador Raul Aparecido do PV de Bauru, que fez o projeto de lei que proíbe e pune pichação em Bauru e ‘regulariza’ o graffiti.

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Foto: Divulgação

O que acharam do resultado final?
Keytyane: Gostamos muito! Estavámos muito ansiosas e preocupadas. Queríamos fazer alguma coisa que fosse importante par a Bauru, que problematizasse a questão da intervenção urbana sem ser chato, cansativo e que ainda contemplasse nossas expectativas e as expectativas das pessoas que colaboraram com a gente, ou seja, um pequeno desafio! (risos). Mas quando finalizamos e vimos que conseguimos cumprir o que nos propomos a fazer e que o retorno dos nossos amigos, professores e dos artistas tem sido bastante positivo, então estamos muito felizes e orgulhosas.

Qual a postura de vocês sobre esse tema? E o que acham da cidade proibir o graffiti?
Keytyane: Particularmente, sempre me interessei e estudei bastante sobre graffiti- pelo menos há quatro ou cinco anos – tanto quanto arte urbana quanto como manifestação política e cultural nas cidades, já que o graffiti nasceu no Hip Hop dos anos 80. Acredito que não é possível discutir cidadania sem discutir cultura, acesso à arte e o direito à cidade. Cultura e política caminham junto, seja de maneira explícita ou implícita. Assim, penso que proibir o graffiti, além de um erro estético absurdo é também uma atitude política bastante perigosa, de silenciamento das vozes controversas, conflituantes e distintas que existem na cidade. Gosto muito do conceito de ‘Ver a cidade’/’Veracidade’ que surgiu em intervenções na cidade de São Paulo, porque observar as manifestações artísticas de uma cidade é observar como seus moradores ocupam esse espaço, o que pensam, como vivem, como se sentem diante do que acontece no mundo. Eu me preocupo bastante, sempre que ouço rumores de proibição ou apagamento de intervenções urbanas, sejam vinculadas a tinta, ao graffiti, seja proibindo perfomances musicais ou cênicas.

E qual o objetivo do trabalho? O que esperam atingir com esse documentário finalizado?
Keytyane: Com o trabalho finalizado, espero que mais e mais pessoas assistam e debatam em suas casas, nos bares, nas salas de aula, na rua e em todo lugar como a arte é importante e libertadora no nosso cotidiano. Como pode ser poética e política e ao mesmo tempo como a existência dela marca um pouco da nossa própria existência, mostrando como pensamos sobre determinado tema. Espero que as pessoas discutam como um graffiti sobre aborto pode levar a um debate sobre a necessidade do aborto, por exemplo, ou como uma frase seguida de um coração escrito ‘+ amor por favor’ nos lembra o quanto precisamos ser gratos pelas pessoas que estão ao nosso lado. Enfim, espero que as pessoas se apropriem das discussões do documentário e ampliem elas (SIC) de acordo com o que pensam sobre intervenções urbanas.

Confira o Lata Estrala:

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