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O que muitas pessoas poderiam achar que seria um desastre, a bauruense Amanda Corrêa encarou como a grande sorte de sua vida! Depois de passar por uma seleção que durou duas semanas, com provas todos os dias, e vencer 200 pessoas, Amanda conseguiu um emprego para trabalhar em um cruzeiro. Foram muitos dias dividindo uma cabine, apertada, encarando uma rotina pra lá de atribulada, perrengues e, claro, a oportunidade de conhecer diversos países ao redor do mundo, como Itália, França, Argentina e Uruguai, entre outros.

Nessa entrevista, Amanda conta um pouco de sua rotina como tripulante, os desafios da profissão e relembra o dia que achou que sua vida estava por um fio. “Pensei na minha família e achei que nunca mais iria vê-los”.

Confira o bate-papo:

Como você começou a trabalhar em cruzeiros?
Amanda: Eu sou técnica em turismo e me formei pelo Senac aqui em Bauru. Aí, trabalhei como guia de turismo em Campos do Jordão, durante quatro anos. Mas um dia eu tive uma atitude louca: viajei e fui para Santo André tentar um emprego na CVC. Fui sem conhecer ninguém! (risos). Eu me formei e fui para lá deixar um currículo, mas para trabalhar como guia de turismo. Nunca passou pela minha cabeça que eu iria trabalhar em um cruzeiro. Depois de duas semanas, eles entraram em contato e perguntaram se eu queria participar de uma seleção para trabalhar em navios. Como eu estava formada e tinha bastante experiência – trabalho como guia desde 2005 – eles gostaram muito do meu currículo. Eu nunca tinha pensado que iria trabalhar lá, nunca nem tinha viajado em um navio, mas resolvi tentar.

E aí você passou nessa entrevista?
Amanda: Sim, mas não foi tão simples. Eu estava em Campos do Jordão e já viajei no dia seguinte para São Paulo fazer a entrevista. Mas pensei que chegaria lá e só iria ter que falar com o supervisor. Mas tinha muita gente! Umas 200 pessoas e só seis vagas para trabalhar na temporada brasileira. E eu participei de várias etapas – umas duas semanas com provas e entrevistas todos os dias. Mas quando eu vi tudo o que podia acontecer comigo, o dinheiro que eu ia receber e a experiência que eu ia ter em ser uma tripulante, nem liguei para mais nada. Era uma oportunidade muito diferente de tudo o que eu já tinha vivido. Aí eu passei e embarquei logo em seguida.

O que você fez no navio?
Amanda: Eu comecei trabalhando como assistente de excursão. Eu trabalhava dentro de uma agência de turismo que ficava dentro do navio e vendia alguns passeios para os passageiros. Cada destino que a gente chegava, a gente ajudava os passageiros com os passeios. Então, eu tinha que conhecer muito bem cada passeio que a gente oferecia. Por um ano eu fiz esse trabalho na temporada brasileira, passando por Ilhabela, Búzios, Santos… e depois fui convidada para ir ao Nordeste, onde eu fiquei sete meses. Lá, eu passei por Fernando de Noronha, Maceió, Recife, Salvador e Fortaleza. Só depois que eu fiz África e Europa. O único roteiro que eu não fiz foi Caribe, o resto eu participei de todos.

Como foi a sensação de entrar no navio e ver que você tinha conseguido o emprego?
Amanda: Nossa, foi muito emocionante. Ainda mais que eu sou daqui de Bauru, do interior, de uma família humilde… pensava: ‘agora, chegou a minha vez!’. Foi uma oportunidade muito boa. Fiquei muito feliz!

Como que funciona: você trabalha quanto tempo e depois tira quantos meses de férias?
Amanda: Depende muito do cargo que você vai exercer. Eu era do ‘staff’, que são as pessoas que trabalham nas excursões, lojas, na animação do navio e os bailarinos. Essa pessoas ficam trabalhando, mais ou menos, sete meses. O pessoal da recepção fica entre sete a oito meses a bordo. Os camareiros e garçons ficam nove meses. Então, cada departamento é de um jeito. E as férias também dependem do cargo que você está exercendo e a temporada que está fazendo. Eu já fiquei cinco meses em casa, mas também já tive que voltar depois de uma semana por causa de um imprevisto. Mas é uma vida muito louca! (risos). Cada dia você está em um lugar diferente, com pessoa de diversas etnias. Sem contar que a gente tinha que lidar com público – o que não é fácil. Às vezes, quando tinha alguma excursão, a gente tinha que acordar às 5h para começar a organizar tudo, olhar o passaporte de todos os passageiros, além de controlar a saída e entrada deles. Era bem corrido.

Você, que trabalhou com várias nacionalidades, sente que o povo brasileiro é diferente mesmo?
Amanda: Sim, muito diferente. O europeu é mais organizado. Por exemplo: eles chegavam para comprar algum passeio e já sabiam exatamente quais lugares eles iam conhecer. Diferentemente do brasileiro, que só de ficar no navio já está bom! (risos). Nós somos mais animados mesmo, a nossa cultura é diferente. Tanto que os próprios animadores da companhia que eu trabalhava eram brasileiros.

São quantos tripulantes em um navio?
Amanda: São de 800 a 1.000 tripulantes em um navio do porte como o que eu trabalhei. O navio é dividido em vários andares, que vão, muitas vezes, até o 13°. Tudo dividido em vários setores, como cabines, salões de festas, casino, balada, bar e restaurante. Já a parte de baixo, são só dos tripulantes, que ficam em dois setores, muitas vezes. Imagina acomodar todas essas pessoas em um espaço tão pequeno!

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E você dividia a cabine com mais pessoas?
Amanda: ‘Staff’, geralmente, mora sozinho ou divide a cabine com mais alguma pessoa do mesmo departamento. Mas era muito divertido. A gente sempre organizava festas de cada nacionalidade, festa da independência de cada país com bandeira e hino nacional, comemorávamos todos os aniversários… nós éramos uma família. Existia um comitê que organizava todos esses eventos e arrecadava o dinheiro, entre os tripulantes, para fazermos essas festas e decidir quem ia ficar responsável por qual parte do evento. Todo mundo participava. Sem contar que também tínhamos um bar só nosso, que era onde a gente relaxava.

Relacionamento é proibido?
Amanda: Entre os tripulantes não, mas com passageiro sim. Se pegar, é demitido. Assim como drogas e bebidas. Uma vez por mês os tripulantes passam por um teste para ver se está usando algum tipo de droga.

E você viu muita gente ser pega nesse teste?
Amanda: Sim, muitas pessoas e de todos os setores.

Você viveu algum acidente durante esse tempo?
Amanda: Não, o que aconteceu foi um alarme falso que disparou. No navio, a gente passa por treinamentos todos os dias, porque nós temos que saber como salvar a vida dos passageiros caso alguma coisa aconteça. Então, chega até ser exaustivo, porque são treinamentos intensos e o tempo todo. E um alarme de incêndio, por exemplo, toca em vários níveis, porque existem etapas. A primeira é uma buzina leve, depois todo mundo sobe para outro andar, depois toca um som mais alto e assim por diante. Um dia, eu estava dormindo, sozinha na cabine, e umas 4 horas da manhã eu ouvi um alarme. Mas o que eu ouvi já era o último sinal, ou seja, eu já tinha que estar lá em cima. Acordei desesperada e fui tentar acender a luz, quando percebi que a energia estava cortada. Nossa, entrei em desespero! Coloquei uma roupa por cima da camisola que estava vestindo e saí no corredor, batendo nas portas e chamando os outros tripulantes. Aí, fomos todos tentar sair, quando percebemos que a porta estava trancada. Eu achei que iria morrer. Neste momento, pensei na minha família e achei que nunca mais iria vê-los. Depois de um tempo, veio um outro tripulante e disse que tinha sido alarme falso e que todos podiam voltar para as cabines. Mas ninguém acreditou e ficamos ali ainda por mais tempo até percebermos que estava tudo bem mesmo. No dia seguinte, já comprei uma lanterna e fiquei dormindo com ela ao meu lado por muito tempo.

E por que você resolveu parar de trabalhar no cruzeiro?
Amanda: Porque eu já estava cansada de ter essa vida e queria criar ‘raiz’. Eu queria voltar a estudar, queria ter contato com outras pessoas, queria ter mais espaço, comer outra comida… o mais difícil nesse período foi eu me acostumar com a comida. No navio, cada setor tem a sua comida e como são várias nacionalidades, ficava difícil preservar uma só. O arroz, por exemplo, era uma massa e o feijão era doce. Então eu sentia falta de tudo isso. Agora, aqui em Bauru, estou estudando novamente; estou fazendo faculdades de Relações Internacionais. Mas tudo valeu muito a pena.

Você se sente uma pessoa de sorte?
Amanda: Sim! Tudo o que eu vivi foi muito incrível. Eu conheci muitos países, muitas culturas e conheci muitas pessoas. Foi uma experiência muito boa.

E conhecendo o mundo todo, dá para sentir prazer em Bauru?
Amanda: Sim! É claro que para a minha profissão aqui não tem muita oportunidade, mas eu fiquei muito feliz de voltar e ver como a cidade cresceu. Eu gosto muito daqui.

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