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Foto: Isabela Ribeiro

Você já imaginou passar alguns meses na região Norte do país? Foi exatamente isso o que a estudante de jornalismo, Isabela Ribeiro, fez há alguns meses. A jovem de Bauru encarou o desafio de gravar um documentário sobre as comunidades ribeirinhas do Pará e Amapá e viveu uma das experiências mais emocionantes até agora.

Lá, Isabela pode ver de frente um pouco mais desta cultura e tão diferente da nossa e aprender ainda mais com o dia a dia das famílias que visitou. “Os povos ribeirinhos são os mais ricos do mundo. Tudo o que eles precisam, eles têm em volta: alimentação, água, qualidade de vida, alegria e o ar mais puro do mundo”, afirma.

Confira o bate-papo:

Como funcionava o seu projeto?
Isabela: Eu estou no último ano de jornalismo e vou usar estas filmagens no meu TCC. O meu projeto na faculdade é sobre educação nas comunidades ribeirinhas do Pará e do Amapá. Eu entrevistei a secretária de políticas públicas em educação no estado do Amapá, algumas professoras ribeirinhas e algumas crianças que estudam nas escolas nos rios, além de merendeiras para entender melhor como funciona tudo isso. Com essas imagens que eu tenho, eu vou fazer um documentário para mostrar como é a realidade dessas escolas nos rios e as necessidades que eles têm.

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Foto: Isabela Ribeiro

E como surgiu a ideia? Sempre foi um sonho seu?
Isabela: Então, este projeto não foi uma ideia minha, mas foi um convite que recebi de um amigo meu que também estava na equipe, o Eduardo Guimarães, que aceitou o convite de fazer a mídia desse projeto. Já eu fiquei responsável por fazer um documentário e as fotos. O convite surgiu de um pastor que, apesar de hoje morar em Curitiba, tem uma ligação muito forte com o Norte. E ele estava conversando com uma pedagoga, que trabalha há mais de 30 anos com crianças e professores. Ele fez o convite para ela ir para o Norte e treinar professores para o trabalho com crianças.

E você passou por quais lugares lá?
Isabela: Bom, a viagem aconteceu do dia 3 de julho até o dia 13 de julho. Lá, começamos o trabalho na Casa das Nações que é uma igreja fundada só para crianças e adolescentes que tem um trabalho missionário. Essa casa oferece cursos na área de esportes e cultura, além de incentivar o trabalho missionário. É um trabalho bem legal! Depois, fomos para o Afuá que é uma cidade ribeirinha do Pará, que é conhecida como ‘Veneza Marajoara’. É uma cidade linda. Lá não tem, como costumamos ver na tevê, uma casas envolta dos rios, mas a cidade é construída em palafitas e as têm como se fosse uma ponte de madeira. Eles vivem lá, enquanto a maré sobe e desce. Neste local, trabalhamos com um ministério que se chama MEAP (Missão Evangélica de Apoio aos Pescadores) que atende as comunidades ribeirinhas que vivem mais distantes de Afuá.

Quais as dificuldades que encontrou lá? Foi muito mais difícil do que você imaginava?
Isabela: Não que tenha sido uma dificuldade, mas tivemos que comer da comida que eles comem. E foi muito bom porque elas eram muito gostosas. Mas todos esses dias a gente comeu um frango que a gente tinha levado, camarão, açaí, farinha de tapioca e às vezes tinha macarrão, que a gente também tinha levado. Comemos isso em todas as refeições, porque é isso que eles comem. Era muito gostosa e eles fazem muito bem, mas era muito diferente porque eles usavam a água do rio e pescavam na hora. Sem contar que para armazenar eles colocavam muito sal porque eles não tinham geladeira. E ah, eu também comi carne do bicho-preguiça em uma das casas em que eu visitei. Lá eles comem macaco, tatu, jacaré… E eles também não têm energia elétrica durante o dia, somente das 18h às 00h, porque a energia é a óleo e muito cara.

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Foto: Isabela Ribeiro

Foi uma surpresa para você?
Isabela: Na verdade, eu já tinha ido para o Norte uma vez. Eu sou muito apaixonada pelo Norte: as pessoas, a cultura e as comidas, principalmente! (risos). E eu fiquei muito feliz em poder voltar neste projeto. Era um sonho poder voltar e eu ainda tenho vontade de ir lá outras vezes. Eu tenho o sonho de poder mudar alguma coisa na realidade dessas pessoas, que é bem difícil. A estrutura do Norte é bem diferente da nossa e bem chocante para nós. Por exemplo, em 2010, em Belém, que é a capital do Pará, o esgoto era a céu aberto em todos os lugares que eu fui. E eu sempre quis trabalhar com educação no meu TCC porque é algo que mexe comigo e poder descobrir a realidade dessas comunidades ribeirinhas foi muito bom. Não só a educação escolar, mas educação de vida. Eu fiquei muito chocada, inclusive. Algumas escolas lá só têm um professor nas comunidades. Então, todos os alunos estão na mesma sala juntos: de um lado ficam os que já sabem ler e escrever e do outro os que ainda não sabem. Teve até uma menina ribeirinha que reclamou comigo que ela já está no quinto ano, mas que só aprende as coisas do terceiro. Além desses problemas das escolas, a realidade deles é muito diferente. As meninas, por exemplo, são mães muito jovens. Eu conversei com uma que tem 14 anos, está no segundo casamento e abortou duas vezes porque o útero dela não estava preparado. Ela até se prevenia, mas o médico falou para ela que não precisava. Isso foi uma das coisas que mais me chocou. E é bem comum você ver a infância roubada. Depois dos oito anos, você vê que a menina começa a se vestir diferente, tem uma sexualidade aflorada e com 14 anos já está casando. Isso é comum lá e eu fiquei muito chocada.

E tudo o que você viveu lá te mudou de alguma forma?
Isabela: Não só mudou como reafirmou tudo o que eu gosto. Se eu pudesse, viveria de fazer documentários de povos diferentes e conhecer uma outra cultura e uma outra forma de viver. Eu amo isso e amo a diversidade que a gente tem no Brasil. Quando eu estava chegando com o avião lá no Amapá e eu estava sobrevoando a Floresta Amazônica, eu consegui ver bem de perto todas as casas e a floresta enorme com os pássaros. Naquele momento, eu tive um sentimento de que primeiro Deus é maravilhoso por ter criado tudo isso. Para mim, tudo isso é a criação Dele. E o segundo pensamento é que os povos ribeirinhos são os mais ricos do mundo. Tudo o que eles precisam, eles têm em volta: alimentação, água, qualidade de vida, alegria e o ar mais puro do mundo. É um lugar muito bom para se viver. Valeu muito a pena e eu espero voltar para lá mais vezes. Eu saí da viagem com o sentimento de querer ser a resposta para este povo e de querer ajudar a melhorar a educação deles.

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