Títulos famosos ao redor do mundo, superproduções e artistas consagrados. Talvez você esteja pensando que tudo isso esteja presente somente em Hollywood, mas a realidade também é nossa.

“A trajetória brasileira é rica, com filmes e nomes canônicos. Não dá pra pensar cinema brasileiro sem passar por Glauber Rocha, Humberto Mauro, Joaquim Pedro e Nelson Pereira dos Santos. Foram cineastas que transformaram o subdesenvolvimento do país (que sempre refletiu de alguma forma sobre a cultura e a arte) em forma, em inventividade”, afirma Álvaro André Zeini Cruz, professor do curso de Audiovisual da FIB.
Segundo o profissional, o cinema brasileiro “tem problemas e virtudes e isso varia conforme o encaramos, seja como indústria ou arte”. Confira a entrevista completa:

Como é o momento atual? Há de se comemorar?
Álvaro: Há os que são extremamente pessimistas e os que são absolutamente deslumbrados com o cinema brasileiro atual. Considero não estar nem numa ponta nem em outra. Acredito que o cinema nacional tem problemas e virtudes e isso varia conforme o encaramos, seja como indústria ou arte. Dentro de um cinema cujas preocupações maiores são artísticas, estéticas, houve, nos últimos anos, uma preocupação excessiva em ser aceito por uma parcela da crítica e pelo circuito de festivais. Isso já foi constatado até por essa mesma crítica, a jovem crítica (hoje não tão jovem) que se instaurou na internet desde o final dos anos 1990, sobretudo a partir do surgimento da revista Contracampo. É um cinema que, com raras exceções, não atinge um grande público e fica restrito às salas de cinema de arte nas capitais. Na outra ponta está a Globo Filmes com uma produção mais atenta ao grande público, mas que, por conta disso, na maioria das vezes, acaba contaminada por uma estética menos cinematográfica e mais televisiva. Conquista público, mas muitos dos filmes são esteticamente mais pobres até do que a novela das nove. O desafio é equilibrar-se entre essas duas vertentes. Agora, considerando que na era Collor a produção cinematográfica foi praticamente extinta, há que se comemorar, com certeza. Antes ter um cinema, com problemas e potencias, do que não ter cinema algum.

O cinema brasileiro não começou no ‘Cinema Novo’, mas você acha que foi neste momento que tudo mudou? Foi um período de transição?
Álvaro: O cinema novo tem um dado importante: ao ser legitimado pelo público europeu, acabou acolhido por uma elite cultural brasileira. Sem dúvida, foi e ainda é o maior estrondo do nosso cinema. Mas há outros momentos importantes, como o ciclo de Cataguases, a Vera Cruz, as pornochanchadas, as chanchadas da Atlântida. Me tomo como exemplo: quando falam em cinema nacional, uma das primeiras coisas que me vem à cabeça é a cena em que Oscarito interpreta Romeu e Grande Otelo, Julieta, no filme “Carnaval de fogo”, de Watson Macedo.

Para um jovem do interior que sonha em trabalhar com cinema no Brasil, o que você pode dizer?
Álvaro: Que há facilidades que não existiam até pouco tempo. Quando eu entrei na graduação, em 2006, o digital ainda engatinhava, não se sabia ao certo se ele alcançaria a qualidade da película. Não havia youtube! Hoje, com as câmeras DSLR, o fácil acesso aos programas de edição, a internet, ficou bem mais começar a produzir. Então o que eu posso dizer é, arregacem as mangas e produzam. Mas o conselho primordial que dou aos meus alunos é: vejam filmes. Hoje, as telas são muitas e, consequentemente, os olhares também. Mas os olhares mais afinados, que se destacam com um novo ângulo, uma percepção diferente, um cuidado na composição, esses vão sendo talhados conforme veem outros filmes, conforme vão adquirindo repertório. Para quem quer trabalhar com cinema, educar o olhar é essencial. E esse é um exercício permanente.

O bauruense Rafael Botta é ator, produtor , diretor de filmes e grande amante do cinema nacional
O bauruense Rafael Botta é ator, produtor e diretor de filmes no país

No último domingo (19), foi comemorado o Dia do Cinema Brasileiro e o Social Bauru aproveitou a data para pedir algumas dicas de filmes nacionais a alguns moradores da cidade. Confira as dicas:

 

Rafael BottaRafael Botta
Minha indicação é o filme “Tatuagem”, de Hilton Lacerda. Um filme genial que quebra tabus e passa por cima do moralismo imposto por um cinema cada vez mais careta. Em pleno esgotamento político do Golpe Militar em 78, o filme retrata o romance entre um soldado de 18 anos com um agitador cultural, dono de um cabaré anarquista. “Tatuagem” convence com ótimo elenco, como o ator Irandhir Santos e o então iniciante (e brilhante!) Jesuíta Barbosa. A trilha sonora, espetáculo á parte, fica por conta de Johnny Hooker e DJ Dolores. Imperdível.

 

ana carolinaAna Carolina Alves
Minha indicação é o “Auto da Compadecida” (1999) que, na minha opinião, é um dos melhores filmes brasileiros já produzidos. O filme é uma comédia dramática dirigida por Guel Arraes e com roteiro de Adriana Falcão. Eu gosto muito da obra do Suassuna, então ver aquilo materializado além da minha imaginação foi lindo. Amo o jeito que eles mostram o nordeste, com os cenários e as roupas de chita e também toda a teatralidade do filme. Sem contar também que Fernanda Montenegro de Nossa Senhora é a melhor coisa do mundo!

 

Evandro SouzaEvandro Souza
“Insolação” (2009), dirigido por Felipe Hirsch e Daniela Thomas e livremente baseado um contos russos do século 19. O filme narra o cotidiano confuso e incerto de personagens que vagam por uma cidade quase desértica buscando compreender seus próprios sentimentos. É o tipo de filme para amar ou odiar. Nele, as imagens e a arquitetura concreta e modernista de Brasília falam muito mais que qualquer diálogo. Para mim, um dos mais ousados (e lindos) filmes nacionais, já que o cinema-arte é uma área quase inexplorada no país. Mudou completamente a maneira como enxergo a força que uma imagem pode ter.

 

David CallejaDavid Calleja
Escolhi o filme “Durval Discos” (2002), dirigido por Anna Muylaert. Não é nenhum filme extraordinário, mas tem um roteiro muito original. A maioria das cenas se passa na rua Teodoro Sampaio, rua que sempre visito quando estou em São Paulo, talvez por isso, pela identificação com a paisagem urbana. O filme segue num cotidiano de uma kija (loja) de discos e acaba em cenas surreais. Se você gosta de discos, vinil, é altamente recomendado.

 

 

barbaraBárbara Paro Giovani
Minha indicação é o filme “Dona da História” (2004), dirigido por Daniel Filho. O filme é bobinho, mas também muito fofo e bonito. A protagonista da história é Carolina, interpretada por Débora Falabella em um primeiro momento e depois pela sensacional Marieta Severo. O elenco ainda conta com Rodrigo Santoro e Antônio Fagundes, ambos como Luiz Cláudio. O filme fala sobre a passagem do tempo e o questionamento de suas escolas. É uma reflexão bem bonita, com uma execução fofinha e leve. A química da Débora Falabella com o Rodrigo Santoro é outra coisa que me chama muito a atenção.

 

Philipe HalleyPhilipe Halley
Arte, beleza e coragem. Essas três palavras ajudam a traduzir essa obra prima do cinema brasileiro. “Corações Sujos” (2011), de Vicente Amorim, baseado na obra de Fernando Morais. O filme revela uma história intrigante, curiosa e extremamente interessante. Com uma mescla de atores nipônicos e brasileiros, o realismo passado pelas interpretações e a ousadia em fazer um filme quase todo em japonês são dos maiores méritos do longa. Um dos melhores filmes nacionais dos últimos tempos! Recomendo!

 

Mikael CorreaMikael Corrêa
Indico o filme “Que horas ela volta?” (2015)
Sob a direção de Anna Muylaert, que também roteirizou o filme, e com atuações fantásticas de Regina Casé (Val) e Camila Márdila (Jéssica), o filme conta uma história ao mesmo tempo complexa, pelos problemas que aborda, mas também muito simples, por ser tão próxima da realidade da maioria dos brasileiros. A relação “harmoniosa” entre a empregada doméstica (Val), e a família empregadora que aparentemente é bem sólida, se torna frágil como uma louça de cerâmica importada, quando sua filha (Jéssica) chega para dividir o mesmo espaço, morando na mesma casa. O conflito nos faz refletir sobre as questões delicadas como determinismo social, amor materno, preconceito e exploração. Tudo na obra significa algo, desde o enquadramento, até a locação, passando pelos figurinos, até um simples conjunto de xícaras de café. Nada é a toa. É um prato cheio para analistas mais criteriosos, mas ao mesmo tempo fácil para olhares mais descompromissados. Quando terminei de assistir o filme senti orgulho do cinema nacional. É muito bom ver histórias com temas tão espinhosos sendo contadas de maneira tão sensível. Se o papel do cinema é sensibilizar, com certeza esse é um bom representante do nosso cinema mundo afora.

 

Alana GomesAlana Gomes
Um dos meus filmes nacionais favoritos é o “Que horas ela volta?”. O filme é lindo e nos faz refletir sobre como o nosso país é desigual e muitas vezes naturalizamos isso. O desconforto provocado ao assisti-lo nos coloca a pensar sobre o retrato social de forma mais crítica além de nos emocionar com a história e os dramas entre mãe e filha, que são as personagens principais.

 

 

Renan QuinhoneiroRenan Quinhoneiro
“Central do Brasil” (1998), com roteiro de Marcos Bernstein e João Emanuel Carneiro, baseado em história do diretor Walter Salles. É um clássico do cinema nacional reconhecido internacionalmente e que marcou minha infância. Um filme neo-realista que exercita nossa empatia retratando as pessoas pobres e marginalizadas de uma forma que mostra sua dignidade, afeto e solidariedade apesar de toda adversidade. Um fato interessante sobre o filme é que Vinícius de Oliveira, o garoto que encenou Josué e conquistou o Brasil na época, até então não era ator e sim um engraxate descoberto pelo diretor Walter Salles aos 9 anos de idade no aeroporto do Rio de Janeiro.

 

julia gonçalvesJulia Gonçalves
Indico “Lisbela e o Prisioneiro” (2003), dirigido por Guel Arraes. Vi quando era muito nova e mostrou uma cultura que meu pai sempre falava do nordeste, mas eu nunca tinha visto – mesmo que de forma “hollywodiana”. E é legal ter uma historia de romance e aventura naturalmente brasileira, com nossa realidade e não a de outro pais. Além disso, tem uma trilha sonora brasileira maravilhosa e ótimos atores!

 

 

Matheus NacliMatheus Nacli
“Indico “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, porque é um clássico brasileiro que gosto muito. Fiquei impressionado e satisfeito com o enredo, a fotografia, as atuações (principalmente de Othon Bastos), a direção do conceituado Glauber Rocha, a bela trilha sonora. É um filme marco do nosso país, um filme belo, contundente que merece todas as honras.”

 

 

Fernando LabancaFernando Labanca
Destaco “O Palhaço”, filme dirigido, escrito e protagonizado por Selton Mello. É uma obra encantadora, que encontra poesia na simplicidade, que diz muito sem precisar dizer, são nos olhares e no afeto existente entre cada personagem que a trama segue. Seu humor ingênuo, o emocionante final e a delicada trilha sonora também me marcaram bastante.

 

 

yaraYara Lombardi
Uma boa pedida é “Paraísos Artificiais” (2012)! Dirigido por Marcos Prado e produzido por José Padilha. Acho que é um filme que mostra uma realidade alternativa, mas, ao mesmo tempo, uma história de vida bem comum no cotidiano brasileiro. O filme mostra o mundo das drogas, mas foca mais nos efeitos. Foca tanto nos efeitos e na sensação, quanto nas consequências desses atos. Os cenários são de matar também. Mas cuidado ao assistir ao lado dos pais!

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