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O Social Bauru contou uma vez a história de como o voluntariado faz bem para as pessoas. Citamos lá um exemplo em específico que ocorre na cidade, que é o “Esquadrão do Bem”, que se ramificou para o “Esquadrão da Noite”. O segundo é um projeto que distribui aos moradores de rua marmitas com refeições.

Inspirada e tocada por esse projeto que acontece em território bauruense, a jornalista de 34 anos, Glauciana Nunes, decidiu tornar isso uma “Corrente do Bem”. Ela e sua família se mudaram de Bauru para São José do Rio Preto há poucos meses e levaram com eles a ideia. “Não sei porque decidi engatar o projeto agora, no caos de uma mudança, só sei que ouvi meu coração”, conta a jornalista.

Quem ficou sabendo da iniciativa e mais do que aprovou foi Felipe Marin, idealizador do “Esquadrão da Noite” em Bauru. A ideia é exatamente essa, que todos nós sejamos elos de uma corrente. Seja quem doa, quem faz e quem entrega. Um sem o outro não funciona. E é muito legal saber que novas pessoas estão se inspirando na gente”, diz gratificado.

Glauciana explicou com detalhes como surgiu a inspiração, qual o sentimento e como foi o processo para que o “Corrente do Bem” desse certo. A entrevista você confere abaixo:

Como você ficou sabendo do trabalho do “Esquadrão da Noite”?
Glauciana: Fiquei sabendo pelo perfil do Facebook de um amigo, o Sandro Paveloski, que foi meu primeiro editor, quando trabalhei na Alto Astral. Sempre acompanho suas postagens e comecei a ver o trabalho que ele tem feito junto ao Esquadrão da Noite, na entrega de marmitas para moradores de rua de Bauru.

Você pensou muito até tomar esta decisão de também seguir com esta campanha?
Glauciana: Acho que o processo todo durou cerca de uns quatro meses, desde que vi a primeira postagem das imagens das marmitas do Esquadrão da Noite. Meu coração estava sendo preparado. E aí, quando nos mudamos para São José do Rio Preto, essa missão bateu muito forte, não sei ao certo. E na nossa primeira semana na cidade nova, eu e meu marido encaramos o desafio da missão. Não sei explicar o porquê de ser agora, justamente no caos da mudança para uma nova cidade. Só sei que ouvi meu coração e começamos a fazer.

Além de você, quem mais participou da ação em Rio Preto?
Glauciana: Eu e meu marido, Eduardo, que sempre embarca em meus sonhos e projetos, estamos cozinhando em nossa casa. Eu abri a ideia no meu perfil do Facebook e conseguimos doações em dinheiro de amigos de várias cidades. E também conseguimos uma doação de alimento de uma amiga nova que fiz em Rio Preto.

Foram quantas quentinhas que vocês entregaram?
Glauciana: Na primeira semana entregamos 12. Nessa semana já conseguimos aumentar este número para 20, a meta da próxima é chegar em 30. Para isso, precisamos comprar duas panelas grandes, uma de pressão, pro feijão, e outra pro arroz. Nas próximas semanas, investiremos na terceira, que seria pra carne. Estamos nos virando com os utensílios que temos e tem sido difícil cozinhar em maior quantidade nas panelas normais da casa. Aos poucos, com as doações, vamos melhorando e deixando este trabalho cada vez mais substancial.

O que sentiu ao entregar?
Glauciana: Na primeira semana foram sensações difíceis de lidar. Primeiro, porque deu muita ansiedade sobre o que cozinhar, como fazer, em que quantidade. Era a primeira vez. Quanto colocamos em cada marmita? Onde vamos entregar? Será que encontraremos as pessoas? As marmitas vão faltar? Vão sobrar? Será que eles serão receptivos conosco? Não conhecíamos direito a cidade. Nunca tínhamos andado pelo centro, o reduto maior dos moradores de rua.

Voltei pra casa com uma sensação muito ruim. Achei, confesso, que eu estaria mais feliz. No entanto, não dá pra ser feliz vendo pessoas jogadas na rua, enroladas em sacos plásticos. Não dá pra estar feliz vendo uns fumando pedra na praça, o outro desmaiado pelo excesso de drogas. Não dá pra ser feliz vendo uma senhora, abraçada a sua sacola, provavelmente tudo o que ela tem na vida, sem nem conseguir falar comigo, apenas esboçando um sorriso. Não, não dá pra ser feliz. Mas eu e Eduardo tínhamos que fazer algo. Reclamar da política no nosso país pelo Facebook, sentados na cadeira não dá mais para nós. É preciso fazer na prática. Mesmo sem saber como, mesmo sem saber se a comida ficaria boa, mesmo sem saber onde estão essas pessoas, mesmo sem saber como seríamos recebidos. Nós fizemos! E isso é o mais importante.

Aí, nesta semana, fizemos a segunda leva. Já sem a ansiedade da primeira vez, sem o medo, sem expectativas. E fomos. Foi mais fácil cozinhar, foi mais rápido. Às 20h já estávamos na rua entregando. E entregamos as 20 marmitas nas mãos de 20 pessoas, diretamente. Conseguimos olhar nos olhos, conversar, sentir as pessoas, ouvir alguns lamentos, apertar suas mãos. Foi outra experiência, e, aí sim, eu me senti feliz. E me senti bem, por estar dando algo além de comida. É claro que comida é fundamental, pois sem ela a gente simplesmente morre. Sem alimento não dá pra fazer nada. Mas, também precisamos de alimento para alma. E essas pessoas são muito carentes disso também. Então, ir sem medo, olhar nos olhos dela, perguntar o nome, conversar um pouco, dar um aperto de mão. Isso foi muito legal.

Pretende continuar com esta ação aí na sua cidade?
Glauciana: Sim, nós vamos continuar! Não posso prever o futuro, mas sentimos no coração que devemos continuar. Por enquanto, é oferecer marmitas que podemos cozinhar. Pessoas estão aparecendo para ajudar, com doações em dinheiro, outras oferecendo alimentos, outras dando contatos de gente bacana em Rio Preto, que pode auxiliar. Enfim, a rede do bem está se formando. Sei que esta ação pode se transformar em algo maior.

Dar marmitas para quem tem fome é legal, a gente faz um pouquinho, mas eu quero mais, e sei que podemos atuar de formas mais amplas. Por exemplo, quem sabe eu não consigo inspirar pessoas a fazerem o mesmo nas suas cidades, como o Sandro Paveloski e o Esquadrão da Noite nos inspiraram? Quem sabe eu não consigo entrar em alguma esfera maior, em algum projeto mais amplo de políticas públicas para melhorar a vida e a dignidade dos moradores de rua? Cozinhar e entregar marmitas foi a primeira ideia. Era o que podíamos fazer com uma semana na cidade nova. Era preciso circular a energia. Sabemos que nossos mentores espirituais nos colocarão no caminho certo para fazer ainda mais. O trabalho só está começando!

Imagino que, quando você voltou para a sua casa, muita coisa passou pela sua cabeça, né… sobre o momento vivido lá.
Glauciana: Passaram, sim. Uma sensação de estar fazendo o que tem de ser feito. Eu sei o que tenho que fazer. Não estou neste mundo a passeio. Não vim aqui para apenas crescer, fazer uma boa faculdade, entrar em um emprego promissor, fazer carreira, ganhar dinheiro, casar, comprar casa própria, ter um carro bonito, ter filhos e ir vivendo, viajando uma vez por ano. Não. Isso também pode ser feito, mas eu estou aqui no mundo para fazer a diferença para outros irmãos. Preciso trabalhar para a minha evolução, em primeiro lugar, e depois para a deles. Ou é tudo junto e misturado, sei lá. A medida que fico ali, grávida de 6 meses, com a barriga no fogão cozinhando para moradores de rua, eu reflito sobre coisas sobre a minha própria família. Eu ensino a meus dois filhos mais velhos que precisamos fazer algo no mundo. A Terra é um planeta em transição. Vivemos tempos duros, mas vamos nos tornar um planeta de regeneração. No entanto, este planeta ainda não está feito. O mundo está acabando. De verdade, o velho mundo está acabando. E a gente é que precisa fazer o novo mundo. Está nas nossas mãos. Eu, meu marido, meus filhos de 9 e 6 anos, o que está na minha barriga. A missão é de todos nós! O que não dá é pra ir vivendo a vida apenas cuidando dos nossos interesses pessoais. É preciso fazer. A missão é urgente!

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