No belo e raro poema “Neologismo”, Manuel Bandeira presenteia-nos com o verso: “Inventei, por exemplo, o verbo Teadorar, intransitivo”. O verbo do poeta enorme não exige complemento, o homem que sonhava se ir para Pasárgada, fala de um verbo que adora sem ser adorado, uma amor não correspondido como o da Lixeratura de Luiz Vitor Martinello, “Apaixonei-me por mim mesmo e não fui correspondido”, sou fã incondicional dos dois escribas!

Em meus tempos de infância, conheci a artéria mais importante do mundo, Rua Batista de Carvalho, uma passarela de ídolos, sonhos e viagens! A Batista começa na Estação Ferroviária e termina no muro do Cemitério da Saudade! No entanto, para mim, a Batista começava na Estação de Trem e terminava no coreto da Praça Ruy Barbosa!

Aos domingos, à noite, existe dia mais triste? Minha mãe me levava à Praça da Catedral para ver a Banda, quiçá a de que Chico Buarque falou, tocar, os músicos ficavam imponentes e intangíveis naquele círculo de concreto azul e branco, tocavam marchas, tocavam músicas brasileiras, tocavam os jacarés para suas tocas, não sem antes, esses crocodilianos receberem pipocas e mais pipocas de crianças como eu, que compravam também um balão de gás, a bexiga, que ia embora no primeiro vacilo encontrar as estrelas que contemplavam a Batista de Carvalho.

Ao término da melodia da banda, minha mãe eu passeávamos pela Batista, parávamos em frente à vitrina ou vitrine da Óptica Tâmbara, agora era hora de cineminha, a loja dos Tâmbaras exibia slides com histórias infantis, entristecia-me muito ver o Negrinho do Pastoreio ou a Menina que vendia fósforos, já estava triste sem minha bexiga, os jacarés e a banda, agora mais triste com a surra que o Negrinho levava do capataz, passávamos em frente à Pizzaria Fátima, víamos os parquímetros, estacionamentos modernos da Sem Limites, uma vez vi o jogador Toninho Guerreiro, às vezes comíamos um cachorro-quente Pantera! como era feliz e triste o paradoxo Batista de Carvalho!

Semanalmente, geralmente, às segundas ou terças, minha mãe ia à minha casa e levava-me às Lojas Americanas, a festa era completa quando tinha cachorro-quente, waffle com sorvete e um “hominho” do Zorro ou do Sargento Garcia, como a Batista era linda!

Tempos depois, cresci, fiz dezesseis, dezessete e, com um grupo de amigos, frequentava a rua de baixo da Rodrigues Alves em busca de paqueras, em dar o primeiro beijo, sorrir para alguém, mostrar a minha calça nova da Zoomp, minha camiseta Ellus ou o tênis novo Rainha ou Topper! Ficávamos encostados em carros alheios e víamos as moças entrarem e saírem das Americanas, éramos metidos a Tony Manero, Danny, éramos Travoltas nos embalos de sexta à tarde nos tempos da Batista!

Como era divertido e feliz adentrar as Americanas e ver o novo disco dos Bee Gees ou do Michael Jackson e quando havia dinheiro para o cachorro-quente e um Sonho de Valsa, felicidade completa!

João Batista de Carvalho era um mineiro que veio para Bauru, tinha uma venda nessa rua, que, à época se chamava Rua dos Esquecidos, após a morte do comerciante, a artéria recebeu seu nome: Batista de Carvalho!

Hoje, aliás há vinte e quatro anos, a Batista é um calçadão, uma pena, feia, triste, suja, sem paqueras, cachorro-quente, trens, jacarés, balões de gás, banda, a Batista vive pelo neologismo: “Batistar”, mas é mais intransitiva que o “Teadorar” de Bandeira! Batistar, que já foi de ligação, unia a todos, transitivo direto, o contato era único, indireto, o contato aconteceria, hoje, é intransitivo, não tem complemento, não tem objetos, não tem sujeitos, tristemente a Batista vai acabar no cemitério!

Professor Sinuhe Daniel Preto, com saudades de “Batistar”!

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