Joyce, Gael, Mariana e Fernanda são os idealizadores da Alunte, em Bauru
Joyce, Gael, Mariana e Fernanda são os idealizadores da Alunte, em Bauru

Quais são os ingredientes necessários para fomentar a cultura na cidade? Alunte responde: quatro jovens artistas e uma casa. Foi com esse objetivo que Joyce Rodrigues, Fernanda Diniz, Gael Gramaccio e Mariana Schoenwetter decidiram transformar a casa 211 da Rua Voluntários da Pátria em espaço dedicado à trocas, vivências e experiências culturais.

A Casa Alunte é uma república onde vivem quatro artistas bauruenses (três atores e uma poetiza/MC) que decidiram dividir o espaço onde moram em um local de incentivo à cultura, aberto para que os bauruenses pudessem divulgar o seu trabalho sem nenhuma burocracia. Democrático, a Alunte agrega todos os públicos, desde universitários que vão em festas de repúblicas a pessoas que gostam de algo mais artísticos, além de promover eventos acessíveis.

Atualmente a casa tem três eventos: o Alunge Lounge, o Cervejarte e o Cinaria, com entradas até R$3, um valor simbólico para cobrir os gastos, já que muitas vezes o dinheiro para realizar os projetos saem do bolso dos artistas. Além disso, o bazar, aberto todos os dias, oferece roupas, livros, acessórios, entre outros, que ajuda a movimentar a casa financeiramente.

Eventos culturais da Casa Alunte
O primeiro evento realizado pela casa foi o evento multiartístico, Alunte Lounge, que tem a proposta de agregar todos os tipos de arte e divulgar artistas bauruenses de todos os tipos: quem trabalha com produção audiovisual, discotecagem, performance, exposição. A portaria custa R$3 e conta com diferentes movimentos artísticos, sendo realizado a cada dois meses.

Já o Cerverjarte é uma espécie de cervejada, onde cada um leva a sua bebida. Apesar de ser uma festa, o evento não perde o cunho artístico, maior propósito da Alunte. Por isso, apresenta um tipo de arte por edição, trazendo algo mais específico. No último Cervejarte, a arte contemplada foi a cultura do Hip Hop com um live painting, com quatro grafiteiros de Bauru, além de body art: “precisamos desmistificar essa coisa do Hip Hop ser algo relacionado à criminalidade e aos fatores pejorativos da periferia e mostrar que periferia e arte andam juntos desde sempre”, explica Mariana. A entrada é de R$2 e o evento é realizado às quartas-feiras.

O Cinaria acontece toda quinta-feira e apresenta um filme de curadoria da casa. O evento é gratuito e são vendidos pipoca e chá no local.

Além disso, os moradores têm planos de desenvolver outras atividades como oficinas e workshops: “nós temos o projeto de fazer parcerias para desenvolver outras atividades que envolva literatura, produção literária, poesia, entre outros”, conta Mari.

Para saber um pouco mais da história da Casa Alunte e quais os planos para o futuro confira o bate-papo que tivemos com eles:

– Como se conheceram?
Joyce – “Nos conhecemos estudando teatro em 2012. A gente começou a fazer teatro juntos no Teatro Municipal e, depois de um ano, fundamos o grupo de teatro Maquinaria. A Mari não fazia teatro com a gente, mas nos conhecemos por causa do meio. Depois transformamos o grupo de teatro no coletivo artístico que é como funciona hoje”.

– O Alunte surgiu como uma república. Como foi o processo de transformar a casa em espaço cultural?

Fernanda – “Eu e o Gael nos mudamos para cá com dois estudantes da Unesp. Depois que eles foram embora a gente convidou a Isabele (outra participante do Maquinaria) e a Joice para virem morar aqui. Como já tínhamos o Maquinaria, pensamos ‘agora é a hora’! A gente tem um espaço então vamos movimentar a casa e começar com os projetos. Então idealizamos esta casa cultural”.

Joyce – “Já era uma ideia antiga. A partir do momento que a gente fez um grupo de teatro, a gente já queria ter um lugar para movimentar e exercer o que a gente queria fazer, mas a oportunidade só surgiu depois de quatro anos, quando a gente já não era um grupo de teatro e sim um coletivo. Agora a Mari veio para cá recentemente, há uns dois meses, e também trouxe um outro nicho que a gente não conhecia tanto, que é o do Hip Hop, então nos juntamos cada um trazendo sua bagagem e estamos tentando movimentar a casa da forma mais cultural possível”.

– O objetivo de vocês não é o lucrar com os eventos?
Fernanda – “Não. O que a gente cobra é para cobrir os gastos, porque a gente põe do nosso bolso, não fomos atrás de edital da prefeitura, a gente decide fazer o evento e cada um contribui com a ‘vaquinha’. Por ser um valor baixo, cobre somente os gastos.

Mariana – “Um dos fatores que a gente tem de querer fazer bastante coisa, ter bastante ideia, de querer movimentar a casa o máximo possível é a gente conseguir ter um giro para pagar os artistas sempre deixando tudo acessível. Não queremos cair na mesmice de começar com um projeto bom e de repente ter que encarecer coisas, elitizar e gourmetizar pra poder cobrir gastos; esse é um dos pontos que a gente mais baste e é no que a gente mais sofre por ser artista: ‘como fazer pra pagar os artistas sem virar um comércio’. Normalmente, os espaços que a gente costuma frequentar acabam tendo que encarecer os preços para se manter e isso é muito triste, porque a gente não vê nenhum apoio externo, ainda mais com a PL202 que proíbe as festas em república e quaisquer outras expressões de festejo público que não seja em ambientes com CNPJ. Isso é um tiro em nossas caras como artistas independentes”.

– Ter movimento na casa, com mais pessoas frequentando e vocês morando aqui, é um problema?
Gael – “A gente teve que organizar para se acostumar, não é simplesmente uma casa. Ainda estamos em um processo de organização interna muito forte para gerir o lugar”.

Mariana – “Eu acho legal porque funciona como um exercício de perspectiva e desapego”.

Joyce – “Eu penso que a euforia que a gente teve pra fazer isso passou por cima de pensar em qualquer consequência. Você viver coletivamente, apesar da individualidade de cada um, tem uns perrengues, mas no final tem que respirar e passar por cima de tudo. Você tem que organizar um evento inteiro, mas também tem que fazer o almoço, arrumar o quarto, pagar as contas então é uma coisa que a gente está aprendendo na raça, mas é um aprendizado e tem sido bom para todo mundo. Temos que quebrar a individualidade porque a proposta de ter uma casa aberta nos sujeita a qualquer coisa, então é um exercício diário.”

– Como vocês enxergam a cultura na cidade?
Mariana – “Há sete anos eu vivo a cultura Hip Hop e todas as suas diásporas. Dentro do meu elemento (conhecimento), sou poeta e MC, e no meu recorte vejo essas questões enfraquecidas em Bauru, isso na minha perspectiva, para o meu tipo de posicionamento. Muito provavelmente pela falta de estímulo e apoio do próprio governo da cidade. Por exemplo, dentro da literatura bauruense, nós, poetas marginais, não tínhamos espaço. Começamos a ter, há aproximadamente três anos, por conta da nossa própria insistência em abrir esse diálogo com a literatura local e, ao abrir, vimos que funciona e isso só reforça o que já disse: falta diálogo e estímulo. Eu sinto que a arte em Bauru, na qual a Secretaria da Cultura investe, não é a arte underground, a arte da paixão, sabe… A arte independente, do ‘nós por nós’, do ‘faça você mesmo’, ‘eu te ajudo aqui você me ajuda ali’, esse tipo de arte não é valorizada como deveria na nossa cidade porque ela é completamente marginalizada pela mídia, no sentido negativo, de forma que não é vista como arte e não tem o valor que merece. Dentro da nossa conjuntura política ter um espaço como a Alunte é resistência pura porque nós somos isso, somos pobres, sonhadores e artistas. Eu vejo a arte independente em Bauru dessa forma: resistência e a Secretaria da Cultura e toda a gestão da cidade deveria ver isso também”.

Fernanda – “O que eu mais penso é que o espaço é o problema da cultura, não que não tenha espaço, porque tem! O problema é: será que esse espaço é acessível para as pessoas? A gente tem um Teatro Municipal gigante que não é aproveitado como deveria ser, então, se existe um problema na cultura na cidade, talvez seja a acessibilidade”.

– O que esperam do projeto e o que esperam conquistar?
Joyce – “Sinceramente, eu espero que tenha cada vez mais pessoas fazendo mais coisas, é o propósito da casa, dar espaço para que as pessoas façam coisas. Para mim, é um objetivo a gente chegar no final do ano e poder ver mais 10 bandas novas, mais 20 artistas plásticos e fomentar o negócio. Para a casa, especificamente, expandir cada vez mais, ter uma programação mais firme e consolidar o espaço”.

Fernanda – “Pela questão da casa, que os artistas locais se sintam acolhidos, que eles saibam que tem um espaço para eles e que eles podem vir aqui. As pessoas identificaram esse local como uma abertura para se apresentar sem burocracia. Eu acho que esse espaço é interessante ter abertura para o artista novo, porque a gente quer que ele apresente o trabalho que está surgindo na cidade”.

Gael – “Eu espero que a gente consiga se manter; queremos resistir e continuar existindo. Além de evoluir o que já estamos fazendo, é conseguir fazer, continuar e permanecer”.

– Tem planos de mudar de casa quando o projeto crescer?
Fernanda – “Nós temos um apego com a casa, mas sabemos que não tem quintal e ela é pequena. Por enquanto, o público não é grande e mantém o projeto como algo mais intimista, pequeno mesmo, porém, se ganhar grandes proporções, será necessário e isso não é ruim.”

Gael – “Se precisar mudar, vamos mudar, mas sempre com a mesma proposta: fomentar a arte”.

Serviço

Casa Alunte – Voluntários da Pátria, 211, Alto Higienópolis
Para ficar por dentro dos eventos curta a página no Facebook: www.facebook.com/casaalunte

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