Se por um lado os cursinhos populares ajudam alunos pré-vestibulandos de baixa renda a ter uma oportunidade na universidade pública, por outro, eles também provocam grandes mudanças na vida de universitários que ocupam o lugar de professores nas salas dos cursinhos.

Somente na Unesp em Bauru, são três cursinhos populares destinados a alunos que fizeram o ensino médio em escolas públicas: o Primeiro de Maio, da Faculdade de Engenharia de Bauru (FEB); o cursinho Ferradura, da Faculdade de Ciências (FC) e o Principia, da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (FAAC).

Depois de quatro anos participando das atividades do Principia, Rodrigo Molina, hoje coordenador discente do cursinho, já foi secretário e professor de matemática e conta que dar aulas foi um grande desafio: “eu tinha dificuldade em falar em público, então no começo fiquei muito nervoso, mas os alunos foram bem compreensivos nas minhas primeiras aulas e depois você vai acostumando e cria uma desenvoltura para poder falar na frente do pessoal”.

Falar para uma sala cheia de alunos é uma responsabilidade que requer organização, por isso buscar novos jeitos de ensinar e estudar previamente o assunto apresentado nas aulas é uma forma de estar preparado para os desafios da profissão. Tamiris Volcean é professora de gramática e literatura no cursinho Ferradura e, apesar de ter experiência, há sempre uma certa ansiedade.

“Independentemente de quantos anos estejamos à frente de uma sala, a ansiedade ressurge a cada nova turma. Todo início de ano é um novo recomeço; difícil e cheio de surpresas! Cada turma exige uma postura, metodologia e didática diferentes, por isso, nunca devemos nos acomodar”, conta Tamiris.

Além da responsabilidade, ter contato com alunos que trazem consigo diferentes histórias de vida desenvolvem um novo jeito de os universitários olharem o mundo. “Conheci mundos completamente distintos do meu. Pude perceber como nós, estudantes das universidades públicas, somos privilegiados, o que só faz crescer nossa dívida social. Dar aula no Cursinho Ferradura é um abrir de olhos para a meritocracia, que tanto falamos e a maioria pouco sente os efeitos nocivos na pele. Posso dizer que a escolha de participar do projeto mudou minha vida e a forma de pensar sobre diversos assuntos, sem dúvidas. Faço sempre analogia ao sentimento descrito por quem viajou o mundo todo. O caso é que nem precisei sair de Bauru e, depois de mais de 200 alunos no histórico, consigo sentir a sensação de conhecer duas centenas de lugares distintos. Cada aluno é um mundo”, relata Tamiris.

Para Rodrigo estar no cursinho traz a sensação de dever cumprido: “sinto que estou fazendo a minha parte como cidadão tentando mudar a educação no Brasil colocando a mão na massa e, como aluno de uma universidade pública, sinto estar devolvendo um pouco de investimento que o governo faz na gente para sociedade e para a comunidade local”, conta.

Rodrigo estuda engenharia elétrica na Unesp e dá aulas de matemática no cursinho Principia
Rodrigo estuda engenharia elétrica na Unesp e dá aulas de matemática no cursinho Principia

Ser professor nos cursinhos populares durante a faculdade também influencia os universitários profissionalmente, já que é uma experiência que pode se tornar uma opção alternativa e, até mesmo, levá-los a seguir uma carreira como educador.

Pode parecer estranho ocupar dois lugares distintos na sala de aula ao mesmo tempo, mas os alunos da universidade e, também, professores dos cursinhos contam que a relação com os alunos é muito boa apesar da pouca diferença de idade.

Para Camila Harms, aluna de psicologia e professora de inglês do cursinho Ferradura a idade parecida é um ponto favorável: “acho que a proximidade de idade ajudou, pois eles se sentiam abertos a conversar sobre diversos assuntos, não só sobre o conteúdo da aula”, explica e Rodrigo completa: “a relação é muito legal, ela é um pouco mais descontraída, não é tão formal, mas não deixa de ser séria nos momentos necessários. No meu caso, eu sou sete anos mais velho que a maioria da galera, não é muita diferença e é bem legal porque a gente tem um diálogo bem aberto com os alunos”.

Apesar de boa, a proximidade de idade pode levar a algumas situações, por isso é preciso estipular limites dentro da sala de aula. Segundo Tamiris, o professor pode ser amigo dos alunos desde que não influencie o trabalho no ambiente de aprendizagem.

“O cursinho preza o relacionamento horizontal, ou seja, sem aquela tradicional hierarquia rígida das salas de aula. O processo de ensino-aprendizagem é uma via de mão dupla. O aluno aprende comigo, eu aprendo com o aluno. Aliás, aprendo muito! Por isso, durante as aulas, costumo incitar o diálogo, fazendo-os falar e expressar suas opiniões. Para que eu me faça entendida, preciso me aproximar da realidade daqueles que me escutam, por isso, tento, ao máximo, saber dos assuntos que conversam, dos filmes que assistem e dos hobbies mais populares. Assim, consigo quebrar o gelo e abrir o canal para os desabafos, conhecendo-os individualmente e não apenas como um nome na lista”, aponta Tamiris.

Além dos professores voluntário, alguns cursinhos populares da Unesp em Bauru, como o Primeiro de Maio, contam com o apoio do Sistema de Ensino Poliedro que fornece o material didático gratuitamente.

“Para milhares de jovens brasileiros, entrar em uma universidade é a chance de ampliar horizontes e possibilidades profissionais. Por isso, o Sistema Poliedro tem orgulho de ajudar esses cursos com materiais, métodos e tecnologias, além de contribuir positivamente com a sociedade por meio do apoio ao desenvolvimento do potencial desses jovens”, afirma Altamar Carvalho, gestor educacional do Sistema de Ensino Poliedro.

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