Desde os meus nove anos, ainda quando morava em São José do Rio Preto, lembro de um amigo de sala que sempre contava sobre suas aventuras numa cidade que tinha nome de lanche. Anos depois, fui entender o porquê das viagens constantes a Bauru. Hoje em dia, 15 anos depois, por acaso do destino, a cidade é o cenário dos nossos encontros.

O motivo de Diego Gama visitar Bauru é que ele morou na cidade até os dois anos de idade e sempre retorna para visitar os avós. “Desde que me mudei [de Bauru], vou várias vezes ao ano passar um tempo com minha família, que ainda vive na cidade. Acredito que, por isso, a cidade me traga uma sensação de conforto, de casa”, conta.

Mesmo morando longe, as influências da família bauruense foram fundamentais para a carreira de Diego como profissional. Sua avó e sua tia sempre foram ligadas à produção de doces até artesanatos e a habilidade com trabalhos manuais está presente em todos os trabalhos da marca diegogama.

“A Família Querino é essencial para meu desenvolvimento artístico. Meu avô é trompetista e tocou na banda da Polícia Militar e em diversas outras, além de estar em atividade até hoje. Minha avó e minha tia sempre foram muito ligadas em diversos tipo de trabalhos manuais. Desde artesanatos à chocolates artesanais. Lembro delas fazendo à mão todas as decorações e doces dos meus aniversários. Além disso, minha avó, Ana Querino, é atriz. Com certeza devo a eles meu apreço pelo trabalho manual, que é extremamente presente em minhas peças, assim como à apreciação que possuo por diversas expressões culturais”, explica Diego Gama.

O jovem se formou pela Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, em 2015. Durante o curso, Diego desenvolveu um trabalho que utilizava materiais como silicone industrial, poliuretano e fibra de vidro para a produção de vestimentas. “O resultado foi muito satisfatório para mim e recebi um feedback muito positivo. Então acredito que aí começou minha vontade de seguir meu próprio caminho”, diz.

Depois de trabalhar três anos como assistente da Fernanda Yamamoto, estilista que participa do calendário do São Paulo Fashion Week há algum tempo, ele decidiu que era hora de começar a trilhar o próprio caminho. Foi quando surgiu o projeto como Brechó Replay na Casa de Criadores, espaço que coloca novos estilistas em contato com o mercado.

A parceria resultou no desfile de abertura da 41ª edição da Casa de Criadores com a primeira coleção da marca diegogama. Segundo o estilista, a experiência foi absurda: “fiz um trabalho em parceria com o Brechó Replay em que criamos um desfile-manifesto e um documentário que aborda a questão do pertencimento negro. Sendo um estilista negro e pertencente à comunidade LGBT em posição de destaque, entendo que tenho uma responsabilidade de dar voz às pessoas que não têm espaço assim como falar sobre o que nós passamos e a importância que existe de ocuparmos lugares como este que venho ocupando. O desfile também contou com a participação de artistas incríveis cujo trabalho eu amo, como Rincon Sapiência, Tássia Reis, Linn da Quebrada e MC Soffia”, conta Diego Gama.

A marca vem ganhando cada vez mais visibilidade, uma vez que as peças diegogama vem sendo usadas por cantores e artistas em programas de televisão da rede aberta. Em convergência com a postura da marca em dar visibilidade à comunidade LGBT, a cantora transexual Linn da Quebrada se apresentou no programa “Amor & Sexo”, da Rede Globo, usando um macacão diegogama. Outra aparição na emissora, foi da MC Soffia, no programa “Conversa com Bial”, usando um conjunto do estilista.

Ter pessoas que representam diferentes grupos da sociedade usando a diegogama, é uma responsabilidade que Diego acredita ter como profissional: “algo que sempre tive em mente abrindo uma marca, é que eu quero que minhas peças tragam consigo uma ideia de inclusão. Até por isso eu a posiciono enquanto uma marca agênera, uma vez que vejo que o gênero é atribuído às pessoas e não aos objetos. Faço questão de apoiar e trabalhar com artistas que questionem gênero, questões raciais, sexualidade e todos esses assuntos que precisam ser falados para que exista alguma mudança. Então me sinto extremamente grato de vestir drag queens, pessoas LGBT, negras… enfim, pessoas que representem uma luta da qual eu faço parte”, explica.

Para o futuro, Diego Gama pretende continuar desenvolvendo um trabalho profissional que seja fiel às suas lutas e verdades, sempre lembrando de suas origens e do tempo que passou em Bauru. “Eu realmente amo a cidade. Acho que a cidade oferece uma qualidade de vida muito boa para os moradores (pelo menos pelas minhas experiências) e vejo uma cena cultural bem ativa. Algo que é extremamente importante”.

Confira o desfile completo

Serviço
Facebook: www.facebook.com/y.diegogama
Instagram: www.instagram.com/y.diegogama

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