Durante a minha infância e adolescência vivi na região central da cidade, mais precisamente na rua Manoel Bento Cruz, entre as ruas Antônio Alves e Gustavo Maciel e depois, na esquina com a rua 13 de Maio. Neste período, que correspondeu aos anos de 1960 a 1980, era comum que os garotos da região, apaixonados por futebol, procurassem locais para as suas peladas. Assim ocorreu em um terreno existente na esquina das ruas Rio Branco e Manoel B. Cruz, vizinho às residências do Ruizinho Pagano, do Jadus Manga, do Claudemir e Cláudio Mesquiati, Chico Monteiro, entre outros.

Às vezes, na falta de um campo para a prática, jogávamos futebol sobre os paralelepípedos da rua Manoel Bento Cruz.

Não havia empecilhos para um bom e animado joguinho. Não sem provocar alguns inevitáveis acidentes nas casas dos vizinhos, Carlos Alberto Martins, Chico e Roberto Canedo, Alceu Pereira, Dr. Nicola Grabriele, Dr. Antonio Gabriel Atta, Jaques Pontes e Tibúrcio Vilaça. A bola teimava em atingir os vasos de plantas, as vidraças, as paredes dos vizinhos. Houve um dia em que jogávamos bola em frente de casa, na quadra 8 da Manoel Bento Cruz, quando o Luis Carlos Valle acertou a bola na fiação elétrica e saiu faísca e fogo para todo e qualquer lado.

Não precisa dizer que sumimos todos instantaneamente. Em poucos segundos não havia mais nenhum indício de que ali transcorria uma animada pelada de futebol. Não saímos de nossas casas por bons dias de medo das consequências. Mas, estes eram os divertimentos dos garotos daquela época que, além do futebol, brincavam de pega-pega, jogo de bets, esconde-esconde etc.

Eu e o Valle, apaixonados pelo futebol, gostávamos mesmo de reunir a turma e jogar um futebolzinho nas dependências da antiga Escola Guedes de Azevedo que, desde os anos 1930, fundada pelos irmãos Guedes, era o destino escolar de muitos bauruenses e pessoas da região. Ocupava cerca de 75% do quarteirão localizado no quadrilátero Manoel B. Cruz, Araújo Leite, Cap. João Antônio e Antônio Alves. Havia uma quadra de basquete e futsal em uma das esquinas e um espaço de terra no centro da propriedade. Havia treinos de basquete na quadra e dentre os praticantes estava a Jaci Guedes, a nossa campeã sul-americana, dos jogos pan-americanos e medalha de bronze no mundial.

A escola era uma referência na cidade. O prédio principal dava frente para a rua Antônio Alves e se estendia ao longo da fachada da rua Cap. João Antônio. Ali juntávamos o grupo, que além de mim, o Valle, também contava com o Edmilson Queiróz Dias, o Zezé Ribeiro, os irmãos Enio e Teresa Vicelli, o Bombonatto, o Osvaldo Azenha, além de outros. Aliás, a Teresa foi a primeira mulher que vi jogar futebol, e jogava muito bem.

Além de acompanhar o movimento de entrada e saída de alunos, os garotos moradores na região, faziam de tudo para conseguir uma autorização para ocupar os espaços desportivos do Colégio. Mas nem sempre era fácil. Aí, não restava alternativa a não ser pular o muro ou aproveitar que algum vizinho saísse e usávamos a residência para acessar o Colégio. Na maioria das vezes, éramos descobertos em poucos minutos e um funcionário do Colégio nos convidava a nos retirar, não sem antes ouvir muitas lamúrias por parte dos atletas.

Enfim, o Guedão era uma referência para toda a região central da cidade e, respeitado por todos, também porque tínhamos familiares que ali haviam concluído os seus estudos. Bons tempos esses!

Quis o destino que o Colégio vendesse o imóvel, que seria destinado à construção de um enorme e moderno empreendimento, o Shopping Maksoud Plaza, que além do shopping center, deveria contar com torres de escritórios e hotel. Isto seria de bom alvitre para a cidade. Sua construção começou no início dos anos 1990, em área de 10 mil metros quadrados. No entanto, o esqueleto da construção, em uma área nobilíssima, contendo 4 pisos inferiores e fundação para a estrutura acima do piso térreo, está paralisada há mais de 25 anos.

Desde então, há somente um tapume que isola a calçada e o interior da construção, que além de muito feio – parece um elefante branco – deixa de cumprir a função social da propriedade. Ficamos sem o Guedes de Azevedo e sem o Shopping Maksoud. Que pena! Ainda assim, o Guedão continua habitando a nossa gostosa e saudável memória dos tempos de infância e adolescência e a de muitos outros bauruenses.

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