Quem passa pelo calçadão do centro de Bauru provavelmente já cruzou com Lécio. Toda concentração enquanto dá vida aos azulejos brancos transforma-se em sorrisos para as pessoas que se aproximam. Sentado ao lado de alguns potes de tinta, o artista expõe seu trabalho ao mesmo tempo que o cria. Azulejos com as mais diversas paisagens e quadros de areia em vidro levam ao calçadão um pouco de Lécio e sua história.

Há 18 anos, veio à Bauru para passar as férias na casa da namorada e decidiu ficar. Nunca mais voltou pra São Paulo, sentiu-se acolhido pela cidade. Quando questionado se ainda continua com a mesma namorada que o fez tornar-se bauruense de coração, Lécio não hesita em responder “graças a Deus, firme e forte”. Se conheceram num baile em São Paulo e começaram a namorar.

Trabalhou a vida toda na área de polimento em firmas. Um triste acidente o fez perder toda a visão do lado direito e a partir daí tornou-se artista de rua. Lécio conta sobre as dificuldades em perder a visão, sobre a depressão que enfrentou e sobre a força que teve da família para superar. “Há sempre algo guardado para nós, não podemos desistir”, diz com convicção e brilho nos olhos.

Há mais ou menos seis anos conheceu um rapaz que pintava em azulejos, pediu pra ele que o ensinasse e assim tornou-se artista. Já viajou do norte ao sul do país divulgando seu trabalho. Hoje em dia fica mais em Bauru; os preços subiram, o que dificulta um pouco as viagens. Ao invés de chaveiros, canecas ou imãs de geladeira, costuma guardar como lembrança cada uma das pessoas com as quais cruzou em cada cidade.

Lécio ocupa aquele mesmo lugarzinho – em frente ao McDonald’s do calçadão – todos os dias da semana, o dia todo. De segunda a segunda, principalmente aos domingos que tem a feira. Passa o dia fazendo aquilo que mais ama e dando mais vida ao centro de Bauru.

“Hoje a pintura pra mim serve como terapia, sabe aquilo que você faz com amor? Eu fico o dia todo aqui, não vendo nada, mas fico aqui”. Segue os dias esperando reconhecimento, “é gratificante quando as pessoas param pra olhar meu trabalho”. Ele sonha em ser reconhecido pelo trabalho que faz e nós temos o privilégio de cruzar com a sua arte no centro da cidade.