Bauruenses contam como é trabalhar em cruzeiros

Fazer um cruzeiro é uma boa opção para quem quer viajar de forma diferente e conhecer diversos lugares. Este tipo de viagem tem se tornado cada vez mais comum, mas como será que é ter o navio como um espaço de trabalho e, por pelo menos seis meses, a sua casa?

Ser tripulante de um navio é a escolha de muitas pessoas que desejam guardar dinheiro e ainda conhecer o mundo. Apesar das coisas boas que esse tipo de trabalho pode oferecer, há muitos pontos a serem pensados antes de embarcar, literalmente, nessa aventura.

Apesar de pouco comum, alguns bauruenses já passaram pela experiência de trabalhar em cruzeiros aqui no Brasil e em outros países. Se você nunca tinha pensado nos navios como uma oportunidade de emprego, mas ficou curioso para saber como é, nós fomos conversar com os bauruenses que já foram, ou serão, tripulantes.

Amanda Correa

“Eu trabalhei de 2008 a 2014, em uma companhia que fretava navios do exterior e trazia para o Brasil nas temporadas de verão. Eu trabalhava entre seis a nove meses dentro de excursões e nas agências de viagem dos navios. Quando eu peguei uma temporada no nordeste, fiquei nove meses diretos e foi bem puxado e exaustivo. Mas foi um grande aprendizado. Eu voltei em 2014, queria criar raízes, terminar minha faculdade, ter meu próprio negócio e colocar em prática tudo o que eu aprendi. Eu ganhei muito dinheiro, consegui comprar minha casa, pude investir em viagens, mas tive que fazer muita economia também. Tive qualidade de vida, conheci muitos lugares, pude investir em intercâmbio, então, isso para mim foi muito válido. Mas, claro, eu vi amigos que ganhavam o mesmo que eu não faziam nem metade das coisas que eu fiz. Então vai de pessoa para pessoa. A vida a bordo é interessante, mas não é glamourosa para ninguém. Lá a gente vive as regras daquele mundo. Ninguém está lá para brincar, tem muito trabalho envolvido. O que menos tem é tempo livre. É tanta hierarquia a bordo que a pessoa tem que ter muita resiliência e resistência para continuar. Eu acho que precisa ter pés no chão: a pessoa precisa saber exatamente o que ela vai fazer, quanto vai ganhar e se vai dar para ‘fazer dinheiro’. Eu não volto de forma alguma a fazer cruzeiros porque tenho outros objetivos aqui. Tudo o que aprendi nesta experiência foi muito gratificante. Mas para mim não vale mais a pena. Para quem nunca foi, aconselho a ir: caia no mundo e vá viver uma forma diferente. É uma forma de sabermos sobre a realidade do mundo. O mundo não é um mar de rosas. Você vai sofrer, sentir na pele o que é ter um chefe que te persegue, vai encontrar pessoas incríveis, pessoas difíceis de lidar e vai aprender a viver. O navio ensina muita coisa, mesmo. Para quem me pergunta eu sempre gosto de falar a realidade: vai ser legal, mas tem que estar preparado”.

Julian Primo

“Eu estou trabalhando em cruzeiro há mais de um mês. O navio no qual estou embarcado é o TUI Discovery, da Thomson Cruises. Neste momento, ele faz quatro itinerários de uma semana, sempre partindo de Palma de Mallorca (Espanha) e cobre uma boa parte do Mediterrâneo passando por cidades como Barcelona e Ibiza (Espanha), Gibraltar (UK), Livorno e Napoli (Itália), Lisboa (Portugal), Ajaccio (França) e outras. Minha função a bordo é Solo Guitarist Entertainment, basicamente faço parte do time de entretenimento do navio. Faço apresentações diárias de voz e violão em diversas áreas do navio, beira da piscina, bar, pub, café, etc. Desde meus quinze anos de idade eu dizia que gostaria de morar no exterior. Quando cheguei em Bauru para fazer o curso de Sistemas de Informação na Unesp, o plano era me formar e tentar algum intercâmbio e buscar uma alternativa de vida no exterior. Os planos foram mudando, mas o sonho se manteve forte, mesmo enquanto eu vivia um ótimo momento com a banda 12 Cordas. Após realizar muitas conquistas com a banda, senti que o momento de satisfazer aquele sonho pessoal de tanto tempo tinha chegado, não havia como esperar o tempo perfeito chegar, foi preciso fazer uma escolha antes que a idade e os laços do tempo não mais me permitissem ir atrás de tal aventura. A experiência do cruzeiro é o primeiro passo em direção ao objetivo final que é viver no exterior. Eu tive o cuidado de pesquisar muito sobre a vida como um tripulante de navio – leia-se curiosidade e ansiedade (risos) – portanto não tive tantas surpresas. Algo que eu não tinha noção é como os costumes alimentares são tão diferentes de cultura para cultura. Com certeza tive problemas em me adaptar com a língua. O fato de estar num navio de uma companhia britânica, a língua oficial é o inglês. Grande parte dos cargos superiores são de britânicos, já os tripulantes são filipinos, indianos, samoanos, jamaicanos e poloneses. Cada um tem um sotaque regional, apesar de estarem falando inglês. Há momentos em que não dá pra entender uma palavra sequer, mas com o tempo o entendimento vai melhorando e você se acostuma. Fora isto acredito que o fato de não ter um dia de folga, e sim horas de folga também é desafiador. A melhor surpresa que tive são as pessoas com quem você convive a bordo. Elas são, na grande maioria, muito receptivas, compreensivas, empáticas e acabam se tornando amigos muito próximos em pouco tempo. Tive uma grata surpresa com a qualidade musical das performances ao vivo dos músicos e dos artistas dos shows da broadway. Uma feliz surpresa é o que se pode fazer numa cidade totalmente desconhecida em poucas horas, a pé, e gastando muito pouco. É uma experiência sensacional poder andar pelas cidades sem um roteiro turístico engessado e conhecer um pouco do dia a dia de cada nação. Sim, vale muito a pena! Apesar do desgaste mental, por estar longe, é uma experiência única que te põe como cidadão do mundo como nenhuma outra. Permite que eu faça o que eu mais amo que é ser músico e ainda viajar, ganhando dinheiro por isto. Bem simples”.

Bruno Murcia

“Eu trabalho em cruzeiros há quatro anos. comecei na companhia Royal Caribbean e hoje estou na Holland America Line. As rotas variam de acordo com o navio e com a temporada. A última rota que fiz foi a do Mar Mediterrâneo (Itália, França, Espanha, Portugal e outros países da Europa). Mas até hoje, ao todo, foram 86 países e incontáveis cidades em todos os continentes. Eu tomei essa decisão, porque na época eu compreendi que trabalhar no Brasil era algo que não iria satisfazer minhas necessidades e trabalhar em cruzeiro poderia ser um grande desafio. A minha função é Night Audit Officer e eu sou responsável por todo o expediente noturno do navio, desde a navegação até a parte financeira. Para valer a pena, financeiramente, depende da posição a bordo. O interessante é que você pode fazer seleções internas e mudar de cargo e salário. O trabalho não é algo tranquilo, a bordo todo dia é segunda-feira. Temos que manter sempre o atendimento e serviços em um alto padrão de qualidade. Trabalhamos com 54 nacionalidades diferentes e por isso hoje falo seis linguas. Temos festas a bordo e muitas atividades para o tripulante, mas o foco sempre será o passageiro. Penso em trabalhar em terra, mas não no Brasil. Moro em Portugal há um ano e gostaria de trabalhar em terra, mas na Europa. Se no futuro a situação do Brasil melhorar, quem sabe eu não volto. Não posso descartar que alguma possível boa oferta de trabalho e novos desafios possam aparecer por aqui futuramente”.

André Alcantara

“Eu trabalhei em cruzeiros de 2011 a 2016 e cada vez que eu ia, ficava seis meses. Faz dois anos que eu não vou. Faz falta, é uma experiência muito forte para quem está lá, o nível de volume de acontecimento do seu dia é muito grande. Você conhece muitas pessoas, muitos lugares e está sempre em movimento. Você dorme em Santos e acorda em Búzios, por exemplo. Então é diferente e quando chega em terra, voltar para a realidade é um pouco difícil e faz falta. Por isso eu vou de novo este mês para trabalhar sete meses no navio. A rota é de um mês na Europa, fazendo França, Itália e Portugal. Além das ilhas. O navio já tem o intinerário pronto e, geralmente, o navio repete essas rotas. A princípio eu consegui entrar sozinho, pelo meu trabalho e por indicações. A primeira temporada foi maravilhosa e o que mais me impactou foi a questão das amizades. Eu cheguei e achei que ia ser um lugar competitivo, mas foi maravilhoso, pelo menos aquele ano, as pessoas me acolheram muito bem. Existe um sentimento de altruísmo de início porque todo mundo sabe que você está lá pela primeira vez, então elas me ajudaram. Eu sou músico, então eu trabalho como músico no navio também. Toco guitarra e violão e a maioria dos contratos que eu fiz foi para tocar sozinho, tipo acústico. Mas teve temporada que eu fui quebrando galho para a banda e já até fiz um musical. Dessa vez eu estou indo para tocar na banda. O que não quer dizer que eu não possa tocar sozinho para cobrir uma pessoa que fique doente. Eu decidi embarcar porque já trabalhava com música em Bauru há um tempo, há quase 10 anos, e é sempre uma correria para chegar no fim do mês. Eu sempre estive envolvido com música e quando surgiu a oportunidade, a primeira coisa que eu pensei foi financeiramente. Eu adoro viajar, desde pequeno, minha família sempre foi muito aventureira, e era isso que eu queria. Ai eu comecei a ver que era uma vida que eu tinha chance de conhecer os países de uma forma mais acessível para mim, porque eu não teria a disposição de tempo e dinheiro se fosse de outra forma. Não vou pregar que é mil maravilhas, é uma vida diferente. Você tem o compromisso, a responsabilidade, tem horário, uniformes, são companhias grandes e eles vão cobrar isso. Quem vai achando que é tudo bom acaba desistindo, porque não se encaixa. Mas é muito trabalho. Você pode se divertir? Claro que sim, mas você também vai ter muito trabalho. Começar a trabalhar, pode ser fácil e pode ser difícil, mas tem muita gente que acham que é um mundo imaginário e impossível de alcançar. A tendência é ser um trabalho rotativo, porque as pessoas não trabalham por muito tempo, então eles sempre estão precisando de pessoas dispostas a viver este tipo de vida. Dá pra ganhar dinheiro, você tem que ter cabeça. O salário é em dólar ou euro, o valor é bom, dá para pagar as contas e ainda guardar. Na questão de desapego, é necessário ser um pouco mais solto e ter menos raízes. Eu indico para todo mundo, porque é uma experiência muito rica, principalmente para quem está na idade de procurar uma profissão. Eu brinco muito que o Brasil é uma ilha, nós temos a nossa cultura, e não olhamos o mundo afora. De certa forma, trabalhar em cruzeiros ajuda a crescer como pessoa e enrique muito. Eu super recomendo”.

Thayla Teodoro

“Eu vou embarcar no próximo dia 26 e a rota será Itália, França, Espanha, Portugal, Argentina ,Uruguai, Marrocos e costa brasileira. Eu comecei o processo de seleção com as agências no começo deste ano. A minha função será Bar Attendant Lounges, vou ser garçonete de bebidas. O que me motivou a ir trabalhar em navios foi a possibilidade de crescer em carreira internacional, conhecer vários países e conviver com diversas culturas, e claro o pagamento em dólar! (risos). Eu estou ansiosa e muito positiva sobre essa experiência. Quando fiz faculdade (Unesp Assis), morei longe, mas nada comparado a isso. Minha mãe esta com coração apertado, mas feliz pela oportunidade conquistada. Sim, é a minha primeira vez em um navio, eu nunca sequer entrei em um! Sou formada em Hotelaria e trabalho no meio de alimentos , bebidas e eventos há muitos anos, mas somente no Brasil. O processo seletivo é extenso, requer investimento financeiro e muito controle emocional. O primeiro passo é ter passaporte e conhecimento de pelo menos o inglês (dependendo do cargo é necessário ter mais de duas línguas sem contar espanhol). Em seguida, procurar uma agência de trabalho a bordo ou aplicar nos sites das companhias com currículo em inglês. Na sequência, seguem as entrevistas via Skype e, caso seja aprovado, o candidato precisa tomar vacinas, fazer exames, cursos específicos para tripulantes, tirar visto quando necessário e aguardar a data e as instruções de embarque. Alguns desses gastos são reembolsados pela companhia, outros são investimentos pessoais. A expectativa é aproveitar ao máximo essa experiência, aprender novos idiomas e melhorar a fluência nos que já tenho. Futuramente, quero aplicar para cargos mais altos em futuros contratos”.

Saiba mais

Pesquisar sobre o assunto é um bom jeito de saber como tudo acontece dentro de um navio. Além disso, conversar com pessoas que já passaram por essa experiência é fundamental para tirar as dúvidas e conhecer os bastidores de verdade. Por isso, a dica da Thayla Teodoro é participar do grupo Crew Life no Facebook. O espaço é voltado para pessoas que já trabalharam, trabalham ou querem trabalhar em cruzeiros. Dessa forma, todos podem tirar dúvidas, conversar e trocar histórias.

Com o intuito de mostrar para as pessoas o dia a dia de quem trabalha em um navio, André Alcantara resolveu criar a página “Um Alcantara Vagamundo“, onde coloca fotos e vídeos sobre a nova temporada de trabalho no cruzeiro.

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