Domingo, lá em casa era tradição. Logo após o almoço, o programa era ir até a videolocadora do bairro e passar horas decidindo o que locar. Muitas vezes, a demora era pelo puro prazer de caminhar entre as prateleiras e observar cada capa de DVD. Com o tempo, as possibilidades que a tecnologia me ofereceram foram tomando espaço, não só aos domingos, como em qualquer momento em que me propunha assistir a um filme. Sem que eu percebesse, o número de videolocadoras na cidade foi diminuindo. E, em todas as cidades do interior, o fato parece se repetir.

Foi somente depois de um aviso que percebi a transição cultural pela qual estamos passando. Em meio a tantas outras informações da minha linha do tempo no Facebook aparece uma postagem: “infelizmente, após 24 anos no Jardim América, teremos que fechar nossa loja”. Foi-se. Foi-se a época em que o acontecimento da semana era passar na locadora. Foi-se o tempo de alugar VHS, depois DVD e depois Blu-ray.

Hoje, apesar da facilidade, contaremos história como: “lembra quando a gente ia na locadora?”. E ela vão ficar na memória como um tempo bom. Aqui em Bauru, a última grande videolocadora de Bauru será fechada no próximo sábado, dia 27 de janeiro. Para Cristina Yurie Masuyama Shibukawa, dona da Video Express desde 1992, e de um acervo de mais de 8.500 títulos, gerenciar uma videolocadora durante 25 anos foi gratificante.

“Para mim foi a minha vida até hoje, foi muito prazeroso e realmente muito bom! Com a locadora vieram os funcionários, cada um que trabalhou lá tem um cantinho especial no meu coração. Foi uma aventura emocionante, muitos [funcionários], ainda são meus amigos. Alguns se tornaram madrinhas dos meus filhos, uma ficou em minha casa morando como se fosse minha filha e hoje já é casada e os seus filhos são como meus. Algumas foram para longe, mas ainda mantém contato e sempre que vem para Bauru vem nos visitar. A maioria trabalhava enquanto estudava na escola ou na faculdade. Hoje em dia, já são profissionais de sucesso e tenho orgulho de ter trabalhado com elas, pois elas dizem que aprenderam muito na locadora, foi como uma escola e como uma família, e tudo isso é muito gratificante para mim como pessoa”, revela.

Uma das funcionárias citadas por Cristina é a Roberta Del Col. Ela começou a trabalhar na videolocadora com 14 anos e saiu aos 21, quando casou. O marido foi um amor encontrado em meio às prateleiras de filmes. “Eu conheci meu marido na locadora, ele era cliente e um belo dia chegou lá e me chamou pra sair. Ele até pediu pro Marcio (dono da locadora) pra eu sair mais cedo. Saí com ele, a gente se conheceu foi bem legal, ele ia me buscar todos os dias na porta da videolocadora. A gente começou a namorar e em uma semana a gente namorou, na outra a gente noivou, na outra casou, na outra eu engravidei e em nove meses eu levava minha filha lá”, relembra.

 

Histórias para fazer um filme

Se tem uma coisa que fez as videolocadoras sobreviverem até hoje foram histórias. Eu, você e todos os bauruenses que aproveitaram essa fase, cada um tem a sua história. Por isso, pedi para algumas pessoas relembrarem acontecimentos que marcaram a época em que alugavam filmes. Confira:

“A videolocadora foi meu primeiro e melhor emprego, fiquei muito tempo lá. Eu ia na locadora dia e noite e era bem legal porque ninguém tinha videocassete, então a gente ia fazer sessão pipoca pra assistir os filmes e, depois, poder indicar. A gente se divertia bastante lá, assistia a bastantes filmes e torcia para sempre sobrar um lançamento porque a maioria das vezes os filmes estavam alugados. Tem muita coisa que eu levo até hoje, a gente conhecia todos os clientes e a família de todos os clientes.” – Roberta Del Col

“Na época da videolocadora meus filhos eram pequenos e alugávamos filme toda semana. Era um evento irmos juntos escolher os filmes. Cada um poderia escolher um de sua preferência e assistíamos todos juntos. Houve um tempo em que a locadora confeccionou umas carteirinhas para as crianças e elas poderiam alugar filmes gratuitamente todo dia do mês referente ao dia do seu aniversário. Eles amavam isso. Teve dias em que chegaram a ir sozinhos até a locadora pra pegar seus filmes. Sinto falta, sim, de ver os cartazes dos lançamentos, conhecer outros filmes, apesar da facilidade da internet.” – Celi Nunes de Aguiar Cavalieri

“Existem muitas histórias, mas acho que é melhor as mais felizes ou as mais engraçadas. Tem a do filme Titanic que compramos várias e várias cópias e mesmo assim não dava conta. O Titanic foi uma febre tanto nos cinemas quanto nas locadoras, todo mundo já tinha visto no cinema, mas queria alugar para assistir novamente. Tem as datas comemorativas de Dia das Crianças e Halloween. Os funcionários se fantasiavam e vinham trabalhar e as clientes adoravam o clima festivo da locadora, principalmente as crianças.” – Cristina Yurie Masuyama Shibukawa

Para guardar na história

A nostalgia é algo que vive dentro de mim, eu adoro comprar coisas antigas, desde roupas até objetos. Se você é como eu, agora tem a oportunidade de comprar algo que, em pouco tempo, irá parar de fabricar. A Video Express vai fazer um saldão, colocando mais de 5.000 filmes, entre DVD e Blu-ray, à venda. Para acompanhar as datas e a lista de título acesse a página no Facebook: www.facebook.com/feiraovideoexpress.

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