Em nova coluna do professor Archimedes Raia Jr., o assunto debatido é a leitura. Afinal, é possível não gostar de livros? Confira o texto:

A edição de 17 de janeiro último da revista Veja traz a matéria “O que eles têm em comum com Trump” que causa perplexidade. O artigo enfoca quais livros Lula e Bolsonaro, dois candidatos que estão liderando as pesquisas à corrida presidencial brasileira, e o presidente americano, estão lendo no momento. As jornalistas Sofia Fernandes e Laryssa Borges foram de um oportunismo, no sentido positivo da palavra, extraordinário.

O artigo cita frase de Bolsonaro: “Há três, quatro anos eu não tenho tempo para falar em livro”; e o comentário de Lula: “Não consigo ler muitas páginas por dia, dá sono. Quanto mais bobagem, melhor para mim. Eu quero é limpar a cabeça”. Mas, quem pensa que são somente os líderes brasileiros que não gostam de se dedicar à leitura de livros, se engana. O autor de Fogo e Fúria, Michael Wolff, que escreveu a biografia não autorizada de Donald Trump, aponta que o presidente americano “não tem simpatia por livros nem por coisa alguma que contenha muitas letras”. As três manifestações são de doer o mais profundo da alma. Como isto pode ser possível?

O gosto pela leitura herdei de meu avô materno, José Ribeiro, um português que migrou sozinho para o Brasil aos 10 anos e aqui cresceu, evoluiu, se tornando um cidadão extremamente culto e respeitado. Lia com um prazer contagiante os livros de autores os mais importantes nacionais e estrangeiros de sua época. Seu filho Hélcio Ribeiro e meu tio, que já havia em seu DNA o gosto pela leitura transmitido pelo pai, devorava livros sobre artes e música, de maneira geral, a mim representou uma escola. Inclusive o deleite de muito ler e escrever.

Sempre gostei de ler e escrever. Quando migrei para a carreira docente universitária, este regalo se avolumou.

Tenho uma biblioteca razoável, não só de livros técnico-científicos, mas também sobre temas como política, biografias de grandes personagens, história, fatos importantes do mundo, religiosos etc. Costumo ler simultaneamente de dois a três livros; assim, de acordo como o ânimo e espírito, em dado momento, leio um ou outro.
Que atividade maravilhosa a leitura, principalmente de livros! Não consigo ficar longe deles. É como se eles fisicamente fizessem parte de mim.

“Nem todos os leitores são líderes, mas todos os líderes precisam ser leitores.” Esta frase é atribuída ao juiz de profissão Harry S. Truman, ex-presidente dos Estados Unidos (1945-53). Esta frase sintetiza a importância da leitura na vida de um cidadão evoluído, esclarecido, culto.

Segundo o World Cities Cultural Forum, Buenos Aires, com 2,8 milhões de habitantes, é a cidade com maior número de livrarias por habitantes no mundo, contando com 734 livrarias, ou seja, 25 livrarias para cada grupo de cem mil habitantes. Por sua vez, São Paulo tem 390 livrarias (3,5 livrarias/100 mil habitantes), de acordo com a Associação Nacional de Livrarias.

Estes dados escancaram a nossa ignorância mais explícita. Esse problema de falta de leitura se origina logo na infância e torna-se mais grave com a chegada da vida adulta. Muitos líderes, principalmente políticos, administradores, empresários, que possuem a responsabilidade por tomar decisões e por conduzir equipes, simplesmente não gostam de livros.

Os benefícios da leitura propiciam, além da função da transmissão cultural e tecnológica, a promoção do desenvolvimento cognitivo de forma mais generalizada. Na educação, o professor Keith Stanovich, da Universidade de Toronto, descreve um fenômeno observado de como novos leitores adquirem as habilidades de leitura: sucesso precoce nas habilidades de leitura, em geral, conduz a sucessos posteriores na leitura enquanto o leitor cresce; por outro lado, a falha na aprendizagem de leitura antes da terceira ou quarta série pode ser um indicativo de problemas ao longo da vida para se aprender novas habilidades.

Nos dias atuais, a falta de gosto pela leitura, de maneira geral, principalmente de livros, parece se acentuar.

Neste sentido, Daniela Panteliades, gerente de marketing da startup AppProva, afirma que os alunos da geração Z, também conhecidos como nativos digitais, demonstraram estar ficando mais distantes do hábito da leitura. A partir do dinamismo e modernidade produzidos por novas tecnologias, eles têm buscado informações mais rápidas e acessíveis, o que poderia levar muitos deles a interpretar que ler seja perda de tempo.

O educador, diante deste fato, precisa continuar atuando com o objetivo de provar o contrário, afinal, a leitura nunca ficará ultrapassada e continua sendo uma importante ferramenta na educação de crianças, jovens e adultos.

Enfim, se nossos líderes políticos (e outros) se declaram neófitos na arte de ler livros, o que se esperar “dos mortais”, aqueles que não são considerados como “vossas excelências”? Qual seria o preparo intelectual, cultural, sociológico, tecnológico dos candidatos a candidatos a presidente da república? O que eles realmente são sem as toneladas de “maquiagem” produzidas pelos marqueteiros que elegem nossos governantes? Talvez isto ajude a explicar a vala de obscurantismo que o país se encontra e que o presidente dos EUA parece querer seguir por caminhos afins.

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