“Tive a oportunidade de assistir, nestes últimos dias, o filme Pelé – o nascimento de uma lenda, produzido e lançado nos Estados Unidos, em 2016, e que chegou ao Brasil somente em 2017, com direção de Jeff Zimbalist e Michael Zimbalist. O filme recebeu uma série de críticas e, como é de praxe, sempre tem aqueles que gostam e aos que pensam diferente. Este fato, no entanto, pode ser observado para a maioria dos filmes lançados em nível mundial.

Dentre as críticas apontadas, registra-se duas: o filme não se preocupa seriamente com a fidedignidade dos fatos históricos e algumas cenas sobre o futebol foram consideradas sofríveis e inverossímeis. Concordo plenamente.

Não se pretende aqui fazer um julgamento típico de um crítico de cinema, pois, não tenho conhecimento suficiente para tal. Mas, procurei assistir o filme pelo fato de que Pelé é o maior jogador de futebol de todos os tempos, embora tenha alguns argentinos que dizem que foi o Maradona, e pelo fato de Dico, apelido familiar do Pelé, ter residido na nossa querida Bauru durante parte de sua infância e adolescência.

O filme inicia com o fato de que Pelé iria participar da Copa do Mundo de 1958 como o mais jovem atleta de todas as copas até então. Em seguida a cena é retro-temporalmente transferida para “Bauru, Brasil, oito anos antes”. A partir daí o filme passa a ter como cenário a Bauru dos anos 1950. Neste momento o meu coração acelerou. Expressou forte em mim o meu bauruismo, termo sobejamente defendido e vivenciado pelo saudoso professor Hélcio Pupo Ribeiro, para designar a paixão por Bauru.

Senti uma forte emoção, pois a dileta Bauru é citada no filme de Pelé por várias vezes e por muitos minutos a trama transcorreu, hipoteticamente, em suas ruas de terra e casas que se assemelhavam a favela. Creio que aqui o filme não foi muito fiel à história. Mas não me importei com a imprecisão. Chama a atenção o filme sequer citar o nascimento de Pelé na cidade de Três Corações.

Pelé trabalhava engraxando sapatos nas ruas; Dondinho, seu pai, se ocupava com serviços de manutenção e dona Celeste, sua mãe, era empregada doméstica.

O gosto maior da garotada de Bauru, segundo o filme, era jogar pelada nas ruas de terra. Dondinho e amigos ouviam pelo rádio a final da Copa de 1950, no bar do Joca; Pelé e amigos buscavam um cantinho para também acompanhar o jogo. Final de noventa minutos, Uruguai 2 x 1 Brasil, jogo este que ficou conhecido como Maracanaço, pela desolação dos brasileiros, e que teve o goleiro Barbosa “crucificado”. O futebol da seleção canarinho foi muito criticado.
Em seguida, surge novamente o nome de Bauru com destaque. Havia uma chamada no jornal local de que haveria em nossa cidade a Copa da Juventude de Bauru. Aqui senti novamente uma grande turbação. A cidade querida voltando a ser lembrada explicitamente no filme. O time de Dico se inscreveu na Copa.

Destaque dado ao jogo do time de Pelé (molecada pobre) contra o time dos garotos mais abastados. Estes, todos paramentados com uniformes e chuteiras nos trinques; já, o time de Pelé, acostumado a jogar sem chuteiras, vestia um uniforme todo improvisado. Neste ponto, outra incoerência do filme: o placar do campinho era escrito em inglês, Kings x Shoeless Ones (Reis x Descalços).

Pelé arrebentou no jogo, embora tenha sido derrotado. Ali estava Waldemar de Brito, olheiro do Santos Futebol Clube, impressionado com o jogo do garoto Dico, e acabou por leva-lo para a Vila Belmiro. A partir daí, todos conhecem a história deste fenômeno muito bem.

Em seguida, a película reporta a convocação e a participação do rei do futebol na Copa do Mundo de 1958, na Suécia, onde o garoto “arrebentou” ao substituir a Mazzola no time de Vicente Feola. Foi manchete no mundo todo.

Durante muito tempo ouve-se falar na Cidade Sem Limites de que ela deveria implantar um museu do Rei do Futebol, se apropriando da história de seu ex-morador ilustre. Afinal, Pelé e sua família viveram em Bauru, aqui jogou suas peladas, chegando a integrar a equipe do Bauru Atlético Clube, o Baquinho (embora o filme não faça menção). Aqui também frequentou a escola. Alguns falam que Pelé nunca deu muita bola para a cidade. Outros afirmam o contrário.

O filme cita Pelé como produtor associado, colocando Bauru em destaque, de um lado e, de outro, sequer registrou seu nascimento em terras mineiras.

A cidade já perdeu a casa onde ele morou, o colégio onde estudou e o estádio onde jogou. Apesar disso, creio que Bauru mereceria investir nesta questão, pois isto poderia fazer incrementar o turismo na cidade. Apesar de imensas perdas materiais, ainda é possível, com Edson Arantes do Nascimento vivo, trabalhar para a concretização deste sonho de muitos bauruenses, ou seja, perpetuar a memória do Pelé de Bauru. Ainda estão vivos vários colegas de Pelé, principalmente do Baquinho.

Seria um fato pródigo para alimentar o bauruismo de tantas pessoas. A cidade merece, pois, Pelé é de Bauru.”

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