Jornalista, escritora e muito, mas muito engajada. Tamiris Tinti Volcean é uma apaixonada pelas obras de Rubem Alves e, por isso, os livros sempre fizeram parte de sua trajetória. Mas essa não é a realidade de muitos brasileiros – segundo uma pesquisa do Instituto Pró-Livro e publicada no jornal Gazeta do Povo, os brasileiros lêem cerca de dois livros por ano.

Para mudar essa realidade, a bauruense começou, há quatro anos o projeto Brincar de Ler que, agora, entra em uma nova fase. Nossa equipe conversou com Tamiris para saber mais sobre o novo projeto. Saiba mais:

Quando começou o projeto Brincar de Ler?
Bom, começou em 2014, mas a ideia vem de muito antes. Eu estudava em Ribeirão Preto e, trabalhei em um cursinho comunitário, o PEIC (Projeto Educacional Interdisciplinar Comunitário). Lá, eu dava aulas de literatura para adultos e percebi que eles tinham uma grande dificuldade em desenvolver o hábito da leitura. Aí, quando eu vim para Bauru, eu comecei a dar aulas em um cursinho comunitário daqui e eu notei a mesma dificuldade. Eu notei que estes adultos não tinham tido esse incetivo desde a infância. Ou seja: a leitura vai se construindo, o hábito de ler se constrói. E foi aí que eu notei que eu devia atuar mais na infância para que lá na frente eles possam dizer que tiveram acesso facilitado aos livros. Foi aí que eu comecei a organizar a doação de livros, porque o livro sempre esteve no meu ambiente e, para mim, esse acesso sempre foi facilitado. Assim, comecei a pedir doação aos amigos, enchi o porta-malas do meu carro e fui entregar no Jardim Nicéia.

E como foi?
Então, fiz a primeira entrega em 2014. A ideia era que o livro deixasse de ser uma ferramenta escolar e passasse a ser uma ferramenta lúdica. Por isso fiz a entrega no Dia das Crianças, para que eles vissem que a experiência da leitura também é divertida. Eu embrulhei 4 livros, de acordo com a faixa-etária das crianças, e entreguei. Fiz esta entrega em 2014, 2015, 2016 e, em 2017, eu fiz um intercâmbio, então não realizei o Brincar de Ler. Agora que eu voltei, senti necessidade de mudar o projeto inicial.

Como ele está agora?
Então, eu percebi que só fazer a entrega, não ia dar certo, porque eles rasgavam os livros e não estavam interessados. Eu percebi que, para conquistá-los, eu precisava desenvolver uma atividade com eles. E eu também queria formalizar a ação porque tem muito espaço público que está totalmente sem uso – e é nosso. Por isso, ofereci o Brincar de Ler à Prefeitura e fizemos parceria: agora, a atuação será nas bibliotecas ramais da cidade. Outra mudança é que eu sempre trabalhei sozinha. Na verdade, as pessoas me ajudavam com a doação, mas eu fazia todo o resto sozinha e eu também sempre tive vontade de que esse projeto fosse com mais pessoas. Não quero que seja algo meu – se um dia eu sair de Bauru, o projeto continua na cidade. Quero algo mais permanente.

Então, agora o Brincar de Ler será nas bibliotecas?
Isso, dentro das sete bibliotecas ramais de Bauru. Eu abri para voluntários e incluí o espaço público. E além de desenvolver o hábito da leitura, eu quero que as crianças possam desenvolver a capacidade criativa e o senso crítico que são ferramentas que vão oferecer autonomia pra elas.

E como vai funcionar?
Na verdade, por enquanto, somos em seis pessoas e a ideia é ir, semanalmente, em cada biblioteca da cidade. Quando o grupo estiver maior, espero que todos estejam capacitados para nos dividirmos em pequenos grupos e realizarmos o projeto em todas as bibliotecas simultaneamente. Por isso é tão importante que mais pessoas participem. Pensamos em aplicar oficinas, produções de texto, debates, para que essas crianças e esses jovens comecem a se expressar cada vez mais. E as histórias serão escolhidas a partir da realidade de cada bairro, para que elas possam argumentar e ocupar o lugar de fala no futuro.

E vocês já estão arrecadando livros?
Sim, já estamos. Na verdade, o voluntário pode colaborar em uma, duas ou todas as etapas do projeto. Pode ajudar a arrecadar livros, a embalar os livros, a contar história – o que ela puder fazer.

Hoje você já tem outras pessoas te ajudando, mas você começou sozinha. Você não sentia que estava indo contra a maré?
Ah, sentia sim…

E você não se perguntava por que continuava com o projeto?
Todo dia! (risos). Quando eu comecei, lá no Jardim Nicéia, um menino pegou um tijolo e jogou em mim. Já na primeira vez que eu fui fazer a entrega. Eu não tinha a menor noção de como contar história, de como fazer tudo isso. Mas eu sabia que tinha que começar o projeto, não dava para ficar esperando eu ter experiência. Chorei bastante, mas resolvi tentar mais uma vez. Depois, percebi que eu fui conquistando a confiança e tudo foi mudando. Mas foi muito difícil. E eu sei que a realidade deles é muito dura: tem bairro que não tem nem saneamento básico e eu chego, levando livros. Porém, eu acredito que há diferentes níveis de problemas e temos que atuar dentro de cada nível. Não dá para abraçar todos os problemas. Inclusive, já me falaram: “nossa, mas tem gente que não tem nem comida e você está levando livro?” Ok, isso é um outro nível de problema e, agora, eu estou atuando no nível educacional. É isso o que eu posso oferecer agora. Isso não é mais nem menos importante, é apenas um viés que eu posso trabalhar.

E quem quiser ser voluntário?
Os interessados podem entrar em contato pelo email [email protected] e, em breve, iremos divulgar os pontos de coletas.

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