Abrir uma página de livro é embarcar em um mundo completamente diferente, viajar para lugares inusitados, épocas passadas e possíveis futuros. Contudo, ao longo da leitura, poucas vezes paramos para pensar como foi o processo criativo daquele escritor.

Como é ser escritor? Quais as dificuldades encontradas no caminho até a publicação? A literatura nacional impõe barreiras para os escritores? É isso e mais um pouco que alguns autores e autoras bauruenses contaram para o Social Bauru.

Mariana Basílio é bauruense e já possui três livros publicados, mesmo assim, a autora enfrenta dificuldades diárias dentro do universo da literatura.

“É difícil num país como o Brasil sobreviver ‘apenas’ sendo escritora ou escritor. Sou formada em Pedagogia e tenho mestrado em Educação. Trabalho como escritora, tradutora, revisora e professora”.

A perspectiva de se trabalhar apenas como autor de livros no Brasil é a primeira dificuldade enfrentada e isso é confirmado por outros escritores, como Bruno Sanches.

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Mariana Basílio, autora bauruense

Segundo ele, poucos são os escritores no Brasil que vivem única e exclusivamente do trabalhado de autor, fazendo com que a literatura não passe de um hobby ou uma forma de complemento da renda.

Isso se deve, muitas vezes, porque o público brasileiro em sua grande maioria ainda se interessa pouco pela leitura. Na visão de Bruno, o público que consome leitura é um nicho que não se expande.

“Não somos uma cultura que privilegia formas de cultura, e a literatura ainda é a mais marginalizada das formas de cultura. A literatura em Bauru é criada e consumida exatamente pelas mesmas pessoas, e no fim das contas terminamos apenas ligados a um ciclo, que produz e consome”.

Além dos livros, em meio de comunicação tradicional, a literatura também é encontrada nas colunas de jornais e crônicas, contudo, segundo Mariana, até mesmo essas fontes de leitura estão perdendo espaço e número de leitores.

Mesmo em um meio em que o mercado editorial pode acabar engolindo o autor e a necessidade de indicações muitas vezes dificulta o ingresso do autor no meio literário, ainda existem ponto positivos e grupos de pessoas que conseguiram se sobressair.

Escritores independentes

Nathalia Assis tem publicações literárias de forma independente – uma das alternativas para quem quer tem um livro ou obra publicada.

A bauruense se interessava pela literatura desde criança, e o hábito da escrito veio junto com a paixão pela leitura. Um dos grandes incentivos de Nathalia para seguir o caminho da autopublicação foi a participação de um livro de poemas.

Mas foi no final da faculdade, Nathalia começou a escrever com mais dedicação, além de buscar por grupos de escritores em Bauru, encontrando o Expressão Poética, onde a bauruense encontrou o estímulo para publicar suas obras.

Para ser autor independente, é válido ressaltar a exigência de muito pesquisa, para que a publicação seja de fato efetivada, contudo, a autopublicação “proporciona a autonomia para realizar as escolhas diante da própria escrita”.

Segundo Nathalia, o caminho para a sua publicação independente não foi tão difícil, pois conseguiu boas orientações da editora Canal 6, de Bauru, que publica novos autores.

Ainda assim, é essencial para quem deseja se autopublicar que tenha um revisor dos textos, além de procurar participar de seleções literárias e uma editora que seja condizente à produção, além do registro na Biblioteca Nacional.

Apesar de tudo, Nathalia vê grandes vantagens na completa imersão que um autor ou leitor pode encontrar na literatura.

“A vantagem é imersão na literatura, ler os escritores tão admirados e outros nomes que estão começando e realizam trabalhos incríveis, motivando ainda mais a própria escrita e visão de mundo”

A experiência de se autopublicar não se limita apenas à Nathalia, outro bauruense também embarcou no mundo da autopublicação, o autor Sinuhe LP.

O escritor sempre teve aquele “brilho nos olhos” quando o assunto era literatura, e quando finalmente decidiu embarcar nesse mundo, Sinuhe confessou que foi um salto no escuro, diferente e misterioso, mas que o levou a aprender muito e tomar ainda mais gosto pela escrita.

Seu trabalho de forma independente exige uma força-tarefa diária, que inclui muito contato, entrega e afeto pela criação em dobro!

“O processo torna-se vantajoso porque tenho mais liberdade e tempo para planejar, escrever, reescrever e daí finalmente publicar. A desvantagem está no financiamento, o custo da diagramação e impressão saíram do meu bolso”.

Apesar dos pontos positivos e negativos de uma autopublicação, o autor vê sim na escrita como um oficio, e como um escritor se iniciando na área, Sinuhe acredita que o essencial para essa área é a perseverança, a conquista homeopática e os passos de formiguinha.

Expressão Poética

Nathalia Assis teve grande ajuda em seu caminho de autopublicação do grupo bauruense Expressão Poética, que tem como maior objetivo dar apoio aos iniciantes e também incentivar alunos (tanto crianças quanto jovens) a embarcar na literatura e escrita.

Ana Maria Machado é integrante do Expressão Poética e conta que o grupo surgiu da necessidade em divulgar a poesia dos autores de Bauru.

“Temos que mencionar aqui o nome do fundador oficial do grupo Vagner Fernandes dos Santos que se empenhou muito em reunir alguns poetas em 1999, numa primeira antologia que chamou ‘Vinte poetas bauruenses’. Dos vinte poetas, metade até hoje ainda participa dos nossos eventos e livros”.

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Alguns dos autores da antologia ” Expressão – 18 anos”

Todos os integrantes do Expressão Poética escrevem e já até participaram de algumas das antologias feitas pelo grupo. Ao total foram oito livros escritos coletivamente em 19 anos de organização.

Ana Maria já está há 35 anos no meio autoral, e vê na literatura uma de realização pessoal e felicidade, além de atuar na sociedade como formação de opinião.

“O que acredito é que temos de executar nossa tarefa, e a literatura no caso, tem a vantagem de direcionar mais o cidadão, por ser também um “formador de opinião” e fazer com que as pessoas pensem”

Novas portas para a literatura

As possibilidades para o ingresso à literatura são enormes, e os apoios ao escritor podem vir de todos os lugares. Mesmo com as desvantagens da carreira de autor no Brasil, as novas tecnologias estão agregando facilidade para o mercado autoral, como afirma Mariana Basílio.

“Com a nova realidade trazida pela Internet e as redes sociais, assim como o crescimento das pequenas editoras, o cenário literário atual brasileiro se tornou mais abrangente e aberto aos novos autores”.
Além disso, o hábito da leitura é uma prática que ajuda na hora de adquirir repertório para a produção literária de um autor, fazendo com que o escritor descubra que pode escrever sobre seus interesses e histórias pessoais.
A literatura, para Bruno Sanches, é um caminho para conhecer novos mundos, e a possibilidade de conhecer esses mundos é o que desperta o interesse na literatura e ainda, para Mariana, a vontade de escrever e a percepção da vocação para contar histórias também são essenciais para quem busca seguir o caminho de escritor.

“Escrever, com qualidade e seriedade, não é mar de rosas, é mar de provações”.

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