2018 é um ano de comemoração para a colônia do Japão no Brasil. Neste ano, a imigração japonesa para o país completa 110 anos.

O Brasil é o país com a maior colônia japonesa fora do próprio Japão, e isso é refletido diretamente em nosso cotidiano. A cultura japonesa está presente na vida dos brasileiros desde a culinária até os esportes e a música!

E em Bauru não é diferente! Ao andar pelas ruas da cidade, podemos encontrar pelo menos uma referência à cultura japonesa. Mas você sabe como a história dos japoneses em Bauru começou?

Primeiras colônias japonesas

O marco inicial da vinda de famílias japonesas para a região de Bauru, segundo a “Edição Comemorativa do Centenário da Imigração Japonesa” feita pela Nipo-Bauru, aconteceu em 1914, com o Sr. Massaki Kuwana, que se fixou na zona rural, denominada Fazenda Brasília. No ano seguinte, chegou à cidade o Sr. Isosshiti Sawao, abrindo um hotel em frente à estação ferroviária.

Em seguida, o Sr. Jitsutaro Yanagui pisou em terras bauruenses e se estabeleceu no ramo de mercearia, fazendo com que assim, sucessivamente, o pequeno município de Bauru recebesse seus primeiros imigrantes japoneses.

Conta-se que em 1923 já existiam em Bauru 23 famílias de origem japonesa, sendo originárias da ilha de Okinawa, e que com as técnicas trazidas da terra natal, cultivavam legumes e hortaliças.

Em janeiro de 1927, foi instalado o Primeiro Consulado Japonês em Bauru, tendo como Cônsul Sr. Tetsusuke Tarama. No ano de 1993, totalizavam 116 famílias, e no Bairro Tibiriçá havia duas comunidades japoneses onde habitavam 17 famílias.

A partir daí, consolidou-se a cultura japonesa em Bauru como conhecemos.

Japão na culinária

Ainda que a culinária japonesa fosse vista com outros olhos no passado, essa gastronomia caiu no gosto brasileiro ao longo dos anos. Quem confirma isso é Marcelo Uchida, dono no restaurante japonês em Bauru, o Kameo.

“Antigamente as pessoas tinham preconceito por considerar que a culinária japonesa se limitava apenas a peixe cru e de alto custo. Realmente a matéria-prima é cara, manter a qualidade e o frescor de cada prato também, mas o brasileiro foi aprendendo que o sabor dos pratos, além de ser saudável, é algo viciante, como muitos clientes meus dizem”, conta.

Marcelo é neto de imigrante e sempre foi ligado a cultura japonesa e explica que as duas culturas têm se fundido na forma de criar os pratos no restaurante, como a inserção do cream cheese em muitas comidas.

“Os japoneses mais tradicionais talvez digam que é um crime com a culinária milenar, mas a presença do cream cheese foi inserida e muito bem aceita entre os brasileiros”.

Ainda que Marcelo tente se manter tradicional, os sushis doces com banana, morango e avelã fazem o maior sucesso no restaurante. Ele ainda conta que os campeões de venda entre os brasileiros são os temakis e hot rolls.

O dono do restaurante ainda conta que é ativamente ligado ao Clube Nipo de Bauru e está sempre presente nos eventos que acontecem, sendo que cada vez mais, a presença de brasileiros nesses locais é notada.

“A gente observa cada vez mais a presença de brasileiros. Isso mostra que a cultura é forte e cativante para a população bauruense”.

Ainda assim, para apreciar a culinária japonesa, não é necessário sair de casa! A comida oriental pode estar presente na mesa dos brasileiros diariamente como um bom arroz com feijão.

Japão na mesa

Os produtos orientais são cada vez mais buscados pelos brasileiros, reforçando a mistura entre as duas culturas a cada dia!

A loja Ikebana em Bauru, vende produtos orientais, e percebe a procura constante de brasileiros e descendentes de japoneses por ingredientes para preparar em casa os pratos orientais, como os famosos sushi, yakissoba, shimeji, rolinho primavera, guioza, missoshiro e muitos outros.

“Hoje em dia, o público não-descendente está consumindo muito bem os alimentos orientais, podemos observar que cada vez mais temos novos restaurantes e/ou delivery de comida oriental na cidade”, explicam os proprietários da Ikebana.

A família, dona da loja, é formada por descendentes de japoneses e tenta sempre manter vivas as tradições do Japão que vieram de seus ancestrais.

“Temos uma relação muito tranquila com a cultura; muitos costumes ainda permanecem vivos por conta das tradições que os pais ainda carregam, porém alguns costumes infelizmente acabam se perdendo por conta do dia a dia, por conta da forma de criação atual”.

Mas se engana quem pensa que as influências japonesas ficam só no ramo da gastronomia!

Japão e a música

O taiko é uma arte instrumental japonesa que está presente em Bauru nos tradicionais festivais que acontecem todos os anos. Para entender melhor essa arte, o grupo de wadaiko bauruense explica:

“O wadaiko está incluso dentro da arte de percussão, e se refere aos tradicionais tambores japoneses (atualmente conhecidos como taiko), juntamente com a maneira de tocá-los”.

O grupo de Bauru conta como essa arte instrumental chegou aqui no interior paulista!

“Em 2003, o professor Yukihisa Oda, do grupo Japan Marvelous, veio ao Brasil, para expandir um pouco mais desta arte milenar em nosso país. Antes disso, já existiam os grupos de Bon Odori, Eisá (Taiko de Okinawa) e alguns poucos de kumi-daiko (tais como Tangue Setsuko do estilo Sukeroku, Setsuo Kinoshita e Godaiko). Indo além da proposta original, Oda-sensei não se limitou a ensinar poucos grupos específicos. Ele fomentou e incentivou a criação e desenvolvimento de dezenas de grupos por todo o Brasil”.

E completa.

“De forma simbólica podemos dizer que o taiko no Brasil ‘surgiu’ certamente aí, com a vinda do professor Yukihisa Oda, pois foi a partir deste momento que o taiko virou uma febre entre jovens, adultos e crianças, mas vale lembrar que já haviam alguns pequenos grupos se formando. Foi nessa época também, que o grupo Muguenkyo Bauru wadaiko foi criado, através do apoio do senhor Shozo Nakamine e o clube cultural Nipo Brasileiro de Bauru”, contam os integrantes.

É a partir dos eventos, cursos e encontros como os que acontecem com o taiko que a cultura japonesa é propagada, mantendo a cultura viva, conquistando tanto os mais idosos quanto os mais jovens!

O wadaiko utiliza diversas palavras e expressões em japonês ao longo dos treinos, fazendo com que os praticantes aprendam as sentenças na língua oriental, mesmo que sejam frases simples.

“O wadaiko (taiko) une as pessoas! Não importa a idade de quem os pratica”, enfatiza.

E quando o assunto é Japão e Brasil, o taiko também não ficou fora de uma união entre as duas culturas. Com o passar dos anos, cada grupo de wadaiko desenvolveu um estilo próprio, tanto na técnica quanto na criatividade e expressividade.

“Nós do grupo Muguenkyo, por exemplo, estamos sempre em busca de inovar. Já criamos músicas com dança, saxofone, tecido, violino… quebrando um pouco do padrão tradicional do taiko!”, conta.

Memórias do passado

O Sr. Shozo Nakamine é atual presente do Nipo de Bauru, e veio do Japão com apenas 10 anos, em 1957. Ele recorda a sua chegada ao Brasil com nostalgia.

“Em 1958 eu vim para Bauru em uma fazenda. No ano seguinte, nós fomos para Jundiaí, porque lá tinha muito cultivo de hortifruti, e aqui em Bauru não tinha. Ficamos por 4 anos, aí nós voltamos para Bauru de novo, e criamos bicho da seda, comprados terras em Tibiriçá e permanecemos lá”, ele relembra

Quando o Sr. Shozo e sua família chegaram ao Brasil, houve muita briga entre os filhos e o pai da família do atual presidente da Nipo.

“Há 50, 60 anos, nós vivíamos bem no Japão, tinha energia elétrica e tudo, e quando a gente veio para cá, na fazenda, não tinha energia, era lamparina e a gente sofreu muito até acostumar”.

Agora, estabelecido em Bauru com sua família, o Sr. Shozo não quer mais morar no Japão, indo à terra natal apenas para visitar alguns parentes durante poucos meses.

“Eu prefiro morar no Brasil, primeiro porque eu tenho família e casa aqui. No Japão eu vou só para conhecer, mas morar mesmo, eu prefiro o Brasil, porque o país tem um clima bom, tem tudo!”.

E ainda brinca:

“[No Brasil] Não tem terremoto!”.

Tudo isso confirma que, seja no passado ou no presente, a cultura brasileira e japonesa andam de braços dados há mais de 100 anos!

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