No último dia 21, Catia Oliveira voltou para Bauru com um título inédito, para ela e para o Brasil! A mesatenista paralímpica foi a primeira brasileira a alcançar a final de Mundial Paralímpico e a ganhar a medalha de prata.

A atleta da Associação Nova Era de Tênis de Mesa de Bauru representou a Seleção Brasileira no Mundial Paralímpico de tênis de mesa. O campeonato foi realizado na Eslovênia, entre os dias 15 e 21 de outubro.

Depois de derrotar a terceira do mundo, a russa Nadejda Pushpasheva, e a número dois do mundo, a italiana Giada Rossi, Catia disputou o ouro com a primeira do mundo, a sul coreana Su Yeon Seo. Apesar da derrota, a brasileira conta que está muito feliz com o título e que a vitória é dedicada ao pai.

“Meu pai faleceu no mesmo dia em que eu ganhei, então vou dedicar a vitória para ele. Eu sei que ele está lá em cima olhando por mim, porque ele era o meu maior incentivador. Essa medalha é pra ele”, diz Catia.

Catia Oliveira com a medalha de prata do Mundial Paralímpico de Tênis de Mesa (Foto: Roberto Castro)

Além deste título, a mesatenista já conquistou muitos outros. Nós do Social Bauru fomos conversar com ela para conhecer mais sobre a história da Catia. Confira!

– Como é ganhar o Mundial Paralímpico?

Rapaz! É uma emoção muito grande, não tem nem como falar, é muito forte, porque é um campeonato importante para os atletas. E é o meu primeiro mundial com uma medalha inédita para o Brasil.

Eu consegui chegar na final e queria ganhar ouro, mas tem que ter calma, porque tudo tem a sua hora. Mas é uma emoção muito grande chegar na final e ganhar prata.

– Você disse que queria o ouro, mas ficou com a prata. O que achou do resultado?

Eu trabalhei muito forte para ganhar o ouro, mas lógico que eu sei que tinham atletas muito boas. Na final, eu não joguei muito bem, não consegui concentrar como nos outros jogos e a coreana é coreana, é a primeira do mundo, ela é muito forte.

Mas estou muito feliz e agora vou trabalhar, porque a próxima eu quero trazer ouro para o Brasil, para Bauru e para minha cidade Cerqueira César.

– É muito legal sair de Bauru, chegar na Eslovênia e conseguir um título inédito para o Brasil, né?

Muito! Eu considero muito Bauru, mas eu cito minha cidade porque ela é menor, tem 25 mil habitantes. Então eu saí de uma cidade que mal tem gente e hoje estou mundo afora. Não tem o que falar, é uma felicidade muito grande!

– E há quanto tempo está em Bauru?

Eu jogo por Bauru desde 2014. Depois tive que mudar pra Brasília, fiquei um ano lá e, no final de 2016, voltei pra Bauru, então estou aqui há dois anos. E pretendo ficar, não quero sair daqui não. Espero levar o nome da cidade para muitos outros lugares e, com certeza, para o lugar mais alto: a medalha de ouro.

– O resultado não foi à toa, você se preparou muito, certo? Como foi? Além dos treinos se preparou de outra forma?

Olha, me preparei bem e o treinamento foi bem forte. A Taina [quem acompanha a Catia na entrevista] até brinca “ou a Catia está dormindo, ou treinando, ou comendo”.

Dois meses atrás, eu me dedicava 100%, além de treinar de segunda a sábado, eu fazia academia, fisioterapia, acompanhamento com psicólogo, nutricionista.

Você tem que abrir mão de muitas coisas, então eu deixava de ver a minha família, porque eu não aguentava. Eu ficava muito cansada, e quando você é atleta, o descanso é muito importante.

Eu saía do treino e só queria ficar deitada, então foi uma preparação muito forte e o resultado está aí! Quando a gente trabalha firme e forte, o resultado vem.

Catia e Adilson Toledo, treinador e presidente da Nova Era

– E vale a pena?

Olha, tem dia que você fala “gente não aguento mais, o que eu estou fazendo aqui?”, mas quando você vai para o campeonato, tem esse resultado e pega uma medalha na mão… Como vale a pena, a sensação é maravilhosa!

Eu falo que a sensação que você tem quando você ganha é muito boa! Tem gente que fala “nossa, ser atleta é fácil, né?” Quando você está jogando, com certeza é fácil, a preparação é que é muito difícil, mas depois a recompensa vem com a felicidade!

– O esporte é a sua profissão. Você acredita que também tem que ser uma paixão?

Sim, você tem que gostar. Tem gente que quer fazer um esporte, mas não aguenta. É uma profissão, mas você tem que amar, porque você abre a mão de muitas coisas. Muitas vezes eu tinha aniversário de amigos que eu não pude ir, porque estava treinando ou estava cansada e precisava descansar. Mas eu amo viu, eu amo mesmo.

– O que o tênis de mesa representa pra você?

Tudo! O tênis de mesa realizou o meu sonho de defender o nosso país, que infelizmente não consegui com o futebol. O tênis de mesa me proporcionou isso.

Eu jogava o futebol antes do acidente. Eu sofri um acidente de carro, eu estava dormindo no banco de trás, o carro bateu na traseira de outro e, como eu estava dormindo, deu chicote, eu quebrei a cervical e fiquei na cadeira de rodas. Eu sofri o acidente de manhã e fui convocada para me apresentar para a Seleção à tarde.

– Então ser profissional no esporte vem com você há muito tempo. Com a notícia de que não poderia mais andar, como foi voltar para o esporte?

No começo, foi muito difícil, porque eu era ativa e não pude fazer o que eu mais amava que era jogar futebol. Mas eu consegui superar, fiz tratamentos, eu fui para o Sarah, centro de reabilitação que ensina as pessoas a viverem em uma cadeira de rodas, porque você precisa ter vida.

Quando eu fui pro Sarah, vi uma criança que não tinha nem quatro anos subindo pelas paredes e feliz. Eu pensei “poxa Catia, você está com 16 anos, já fez muita coisa na vida e está reclamando?”, foi quando mudei a minha cabeça e pensei “tô viva”.

A partir daí, eu comecei a trabalhar, mas eu sempre fui apaixonada por esporte e queria muito voltar. Em 2013, eu fui a uma feira de inclusão e tinha um stand com uma mesa de tênis de mesa e um atleta que tinha várias Paralimpíadas. Eu falei: quero tênis de mesa, porque eu só preciso de uma mesa e qualquer pessoa joga comigo, não preciso de um cadeirante do outro lado.

Fui para o meu primeiro campeonato e, no primeiro jogo, acendeu a chama de novo. Eu falei “quero ser atleta de novo e quero ir pro Rio”, porque estava perto das Olimpíadas.

Em 2014, entrei em contato com Bauru, me chamaram para morar aqui, larguei tudo na minha cidade e vim. A seleção começou a vir atrás de mim e em 2014 fui para o segundo campeonato internacional, na Costa Rica, e mudou a minha vida. Eu fui campeã e de 20ª do mundo, fui para a 10ª do mundo. Consegui ser campeã do Pan-Americano e consegui ir para as Olimpíadas, foi aí que meu sonho começou.

– De lá pra cá, ganhou muitos títulos?

Sim e tenho muitos títulos importantes. Fui campeã em 2015 do Parapan-Americano, quando eu consegui a classificação direta para as Paralimpíadas. Ganhei uma etapa do Circuito Mundial e fui campeã. O principal título é ser segunda do mundo.

– Já pensou em desistir?

Olha, sim! Na verdade, não desistir, mas tem dia que não vai e você pensa “será?”.

Um exemplo foi em 2015, quando eu fui para o Parapan. Eu fui campeã e estava toda feliz com a classificação para a Paralimpíadas, nesse dia, descobri uma grave lesão no ombro que era cirúrgica e a chance de perder as Paralimpíadas era muito grande.

Aí você pensa “poxa, será mesmo? Será que vale a pena tudo isso que você está fazendo?”, mas eu amo fazer isso e é a minha vida, então logo passou e não quero mais desistir do esporte.

– Além da medalha de prata no Mundial Paralímpico, tem algum outro momento marcante na carreira?

Tem um jogo que eu não esqueço, foi a primeira vez que eu ganhei da terceira do mundo, uma russa. Foi em 2015, na Eslováquia. Eu estava perdendo de 2X0, consegui buscar o 2×2 e, no final, virei 3×2 e ganhei. E uma música marcou muito esse momento, até hoje, quando eu escuto ela vem o campeonato inteiro na minha cabeça. Era uma música da dupla Fiduma e Jeca, chama “É hoje que eu chego amanhã”.

Quando eu estou em campeonato, eu tenho alguns rituais e um dos principais é escutar uma música. Não escuto apenas uma, mas para concentrar é uma específica: “Sonhar”, do MC Gui. Faltando 20 minutos para entrar no jogo, eu só escuto ela para concentrar.

– Para quem quer começar em um esporte, qual a sua dica?

Se você tem vontade, venha conhecer, sem compromisso. Principalmente quem tem deficiência, a gente acha que a vida acaba, eu fui assim. Quando sofri o acidente, eu só mexia o olho e ninguém falava que eu ia ser atleta.

Então se você tem um sonho, vá atrás! Não tô falando só do esporte, mas de todo o tipo de sonho. Vá atrás! Todo dia você tem que pular um obstáculo, mas, quando você passa, é incrível.

E quem quiser conhecer o tênis de mesa é só vir aqui na Nova Era. Eu vou estar aqui para apresentar e mostrar como esse esporte é maravilhoso!

Para acompanhar a atleta, siga-a no Instagram: catiaoliveira_oficial

A Associação Nova Era de Tênis de Mesa de Bauru fica na Rua Wenceslau Braz, número 12-69 (em frente ao Estádio Noroeste)

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