Cores vibrantes e nariz de madeira formam um rosto muito conhecido por quem anda pelas ruas de Bauru. O personagem lembra o Pinóquio, mas o pai não é o Gepeto, mas o bauruense e grafiteiro Gabriel Hune.

Autodidata, Gabriel começou a fazer os primeiros rabiscos ainda quando criança. “Eu tinha um caderno com pautas que eu ficava desenhando com caneta mesmo. Eu também rabiscava a parede da minha casa, o chão (risos)”, relembra.

Apesar da formação em Geografia, Gabriel sempre levou a arte consigo, desenhando aqui e ali. Até que em 2011, durante um evento entre Brasil e Chile, aqui mesmo em Bauru, ele transformou o grafite em profissão e estilo de vida.

Entre tantas mudanças que o antigo hobby trouxe para Hune, a namorada foi uma delas. “Foi por meio da arte que eu conheci minha namorada, a Caroline Rohwedder. Ela também é artista e fotógrafa e a gente até fala que foi a arte que nos uniu”, conta.

Os bauruenses que admiram os grafites do Gabriel pelos muros da cidade, também podem ter um pouquinho da arte dele em casa. O artista também pinta telas e faz gravuras em quadros com o seu personagem. E quem quiser um quadrinho do Hune é só chamá-lo no Instagram ou Facebook.

Foto: arquivo pessoal

Conheça mais sobre Gabriel Hune:

– Ser grafiteiro é uma profissão para você? Consegue ganhar dinheiro com isso?

Sim, é uma profissão e um estilo de vida. Eu tenho outro trabalho, mas dá pra ganhar dinheiro com o grafite sim. No período da tarde eu dou oficinas de caligrafia artística, cartoon e histórias em quadrinhos na Fundação Casa.

Mas é difícil fazer a comercialização do trabalho, porque muitas vezes as pessoas acham caro. Elas têm receio de pagar 200 reais na nossa arte. A dificuldade é essa não valorização dos artistas, a gente tem que sair do nosso próprio país para fazer alguma exposição, algum trabalho em conjunto para sermos valorizados. Por conta disso, é difícil viver de arte no Brasil.

– Você é um artista, quais outros tipos de arte você faz além do grafite?

Eu pinto telas. Comecei pintando telas antes mesmo de ir pra rua, em 2011. Eu sou autodidata, mas depois que comecei, eu fiz alguns cursos de Design Gráfico de pequena duração. Eu comecei a pintar telas graças a um evento de grafite aqui em Bauru entre Brasil e Chile. No último dia, os grafiteiros fizeram na tela o que eles tinham feito na parede. Eu achei isso muito incrível, porque pra mim os grafites só estavam nos muros. Eu achava que o spray só dava pra usar na parede, foi aí que eu comecei. No outro dia, eu já comprei uma tela, um pincel e três tintas a óleo, comecei e não parei mais.

– Então você começou na tela, quanto tempo levou até grafitar os muros?

Olha, demorou mais ou menos uns dois anos até eu ir pra rua, porque eu queria achar algo que fosse meu, alguma característica minha. Queria algo que marcasse, que a pessoa batesse o olho e falasse “nossa aquele trampo é do Gabriel”. Tanto que hoje eu nem preciso mais assinar meus trabalhos.

Quando eu comecei a fazer o grafite nas ruas de Bauru, eu senti muita dificuldade, porque não tinha muitas pessoas fazendo isso e, muitas vezes, elas viajavam e não tinham tempo para ensinar. Aprendi muito na prática, comecei com os rolinhos mesmo até ganhar confiança no meu traço e partir para o spray.

– E como foi desenvolver essa característica?

Ela é mista: ao mesmo tempo que é um personagem, é um estilo também. Eu comecei me baseando em um estilo chamado cartoon, depois ele foi desmistificando, se transformando e agora eu to partindo mais para o estilo minimalista com geometrias e um pouco de abstrato.

Os estilos que me influenciam desde o início são o cartoon, pop surrealismo, minimalismo, neoplasticismo e o abstrato.

– Apesar de estar indo para o minimalismo, você ainda mantem essa característica que dá para reconhecer né?

Sim, eu consigo manter essa característica que é o nariz em formato de madeira. No começo não era para ser, mas todo mundo chamava de Pinóquio e eu pensei “ah beleza, é um Pinóquio”. Depois de um certo tempo pesquisando, eu parei para refletir: “o Gepeto tem o próprio personagem, porque eu também não posso ter o meu próprio Pinóquio, a minha própria criação, meu próprio filho?”.

– Não era pra ser o Pinóquio, então o que você pensava no começo?

Eu queria algo abstrato, mas quando eu tentava pintar, eu não conseguia dar muita ênfase nem muita forma para aquilo. Fui treinando, rabiscando, até que saiu esse personagem. Hoje em dia, eu consigo abstrair o meu personagem com formas geométricas, formas reta e linhas.

– As cores também são muito marcantes, elas têm alguma representatividade?

Todos os artistas têm seu estilo e a cor que marca o seu personagem. Os Gêmeos, por exemplo, tem o amarelo como cor marcante. Eu pesquisei e não achei nada em cinza, aí pensei “bom acho que a minha cor é o cinza”. Gosto muito de azul também, então sempre estou colocando o cinza e, agora, o azul nos meus personagens.

Com o passar do tempo, estou tentando deixar ele mais enxuto, com menos coisas e menos cores, porque eu passei a estudar o minimalismo. Além disso, meus amigos são formados em Design e eles me influenciaram a fazer cursos, então meus trabalhos estão tomando uma característica gráfica também.

“Transmuto”, xilogravura, n 1/10, 32×42 cm. (Foto: Instagram: @gabrielhune)

– Sabe quantos grafites têm nos muros de Bauru?

Nossa, não sei. Eu não parei pra contar, além disso, é efêmero logicamente, eu posso fazer um grafite hoje e amanhã podem apagar. Já apagaram uma grande parte dos meus desenhos, mas agora vou retomar e colocar mais na rua.

– Como é ver que um grafite seu foi apagado?

Ah, é uma sensação estranha, porque querendo ou não é uma parte de você. Você colocou aquilo na rua, não é mais seu, mas é uma parte sua que está na rua. Então quando apagam um desenho é uma parte sua que apagam também.

– Além de se expressar, o que quer propor para as pessoas com os grafites?

Uma reflexão, porque todos os dias as pessoas acordam de manhã e é a mesma rotina. Muitas vezes, elas precisam de uma cor na vida delas. Elas estão indo para o trabalho emburradas ou estão voltando para casa tristes. Querendo ou não um amarelo, um cinza ou um azul faz a diferença, mesmo ela tendo o conhecimento daquilo ou não.

Teve uma vez que uma pessoa viu meu grafite na rua e me mandou mensagem no Instagram falando “legal sua pintura, trouxe mais alegria pro meu dia. Eu não entendo nada, mas gostei”.

– E precisa entender?

Não precisa. Não precisa entender, só precisa sentir.

– Gabriel, você começou sua carreira há pouco tempo, sempre gostou de arte?

Eu desenho desde criança. Eu me lembro que tinha caderno com pautas e eu ficava rabiscando, com caneta mesmo. Eu também rabiscava a parede da minha casa, o chão (risos).

Eu não tinha o conhecimento do que a arte poderia proporcionar na vida de uma pessoa. Quando eu estava na escola, eu desenhava na aula de arte, era minha aula preferida, mas nunca tinha pensado em seguir um campo artístico e eu não tinha ninguém para me instruir, eu só desenhava.

Foto: arquivo pessoal

Minha formação é Geografia e eu gosto muito. Lembro que um dia eu estava na faculdade e pensei “nossa eu desenhava tanto, gostava de desenhar, porque não segui esse caminho?”. Não me arrependo de ter feito Geografia, claro, já trabalhei como professor na rede estadual de ensino durante quatro anos, mas eu tive esse pensamento.

Até que um dia eu estava indo para minha casa e vi no caderno do Sesc sobre o encontro de grafite entre Brasil e Chile de Arte Urbana. Eu fui, participei das oficinas, vi eles pintarem a parede do Teatro Municipal e de noite eu participava dos workshops, foi quando tudo começou.

– As pessoas ainda não entendem o grafite, você acha que Bauru tem esse preconceito?

É misto ainda, tem uma grande maioria que gosta e tem uma grande maioria que não gosta. Quando a gente está na rua pintando, sempre passa alguém, buzina, desce do carro, fica perguntando, tira foto, fala parabéns… Mas também tem pessoas que passam, xingam, chamam a polícia, mesmo o muro sendo autorizado.

Teve uma vez que estávamos pintando um muro sem autorização, chegou um policial e perguntou o responsável pela arte. Meu amigo respondeu, o policial pegou o número do telefone e disse pra ir na casa dele pintar o muro também.

– Tem alguma obra ou algum momento na carreira te marcou?

Foi quando eu tive algumas fotos dos meus grafites publicados em páginas estrangeiras de grafite no Instagram.
Recentemente eu também participei de duas exposições coletivas, uma na França e outra em Lisboa.

Imperatriz: 30×40 cm, técnica mista sobre tela. França/Paris. (Foto: Instagram @gabrielhune)

– Bacana! E você está fazendo gravuras também, certo? Quais os planos futuros?

Eu fiz um curso de serigrafia com o Gastão Debreix, artista de Bauru, gostei muito e retomei agora. Minha intenção é ir para novos caminhos e com a serigrafia e participar de feiras.

Depois de tanto papo… 

A conversa com o Gabriel rendeu essa entrevista inteira, mas, antes de finalizar, o artista ainda disse uma frase de autoria própria e que carrega consigo para a vida: “O sonho e o amor é o que nos mantêm vivos e felizes para sempre” (Gabriel Hune).

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