Passadas as festas de fim de ano, eu me sentia muito cansado, cai na cama e adormeci profundamente. Decorridas algumas horas, toca a campainha. Para minha surpresa, sem avisar, chegou em casa Thomas, um amigo que conheci em Las Vegas, também um entusiasta pela segurança no trânsito e o ambiente urbano.

Após colocar a conversa em dia, Thomas queria conhecer Bauru, a qual eu tinha recomendado muito quando estive em sua casa, na “cidade do entretenimento”. Saímos de carro e logo peguei a avenida Comendador Martha, em sentido à praça Portugal. Ele gostou muito das árvores da avenida, com canteiros centrais muito bem cuidados, até no horário de pico, o fluxo por lá é light.

Ele tinha ouvido falar do estacionamento regulamentado da cidade e queria ver de perto. Fomos então para a área central de Bauru. Passando pela avenida Rodrigues Alves ele comentou: “o asfalto da via parece um tapete, todo sinalizado”. Chamou-lhe a atenção o fato de que em todos os cruzamentos da avenida havia semáforos e faixas para pedestres e, estes os usavam de maneira exemplar, pois só atravessavam quando sinalizava verde para eles.

Complementou: “todos obedecem ao semáforo e às faixas! Ainda não vi ninguém dirigindo e falando no celular! O que dizer, então, das vias com semáforos sincronizados em onda verde!”.

Fomos conhecer o calçadão da Batista, que ele também tinha ouvido falar em conversas que tivemos em sua casa. Ficou encantado, pois o achou bem cuidado e limpo, vasos de plantas verdes e viçosas. Ao estacionarmos na Área Azul, já havia um funcionário oferecendo o talão. Thom comentou: “como vocês conseguem manter um sistema deste de forma tão eficiente?”.

Na quadra seguinte, encontramos um rapaz de meia idade, alto, forte e braço todo tatuado, que dialogava educadamente com o agente azulzinho de trânsito. O homem disse ao agente que parou o carro e foi procurar um funcionário para adquirir o talão. Quando voltou, havia sido autuado pela falta do mesmo. Ponderou educadamente com o agente do órgão gestor, que entendeu e aceitou a justificativa. O rapaz foi embora sorridente.

Thomas lembrou que, em Las Vegas, o transporte coletivo é bom, tanto o ônibus quanto o monotrilho, que percorre alguns pontos estratégicos da cidade, embora a preferência dos seus moradores seja pelos carrões e grandes caminhonetes. Por volta das 18 horas, ele me falou: “quero fazer uma viagem de ônibus até o Estádio do Noroeste”, time do coração dos bauruenses e que ele havia ouvido falar por obra do nosso amigo comum, o Reynaldo Grillo, lá de New Jersey.

“Que legal que os bauruenses deixam os carros em casa e fazem as viagens por transporte coletivo!”, exclamou o amigo. “Fiquei impressionado”, comentou Thom. “Ônibus novos, com ar condicionado, os mais jovens cedem os lugares para os idosos, os pontos de ônibus são cobertos, com bancos…”.

Descemos próximo ao estádio e esperamos cerca de 10 minutos apenas para retornarmos ao centro da cidade. Ao lá chegarmos, o gringo quis conhecer de perto algumas de nossas praças: Rui Barbosa, Rodrigues de Abreu, Washington Luis, Machado de Melo… “Uma beleza, muito bem cuidadas! E as calçadas então, sem buracos e bem arborizadas!”, disse o gringo. Em frente ao colégio São José, nenhuma fila dupla. “A estação da Machado de Melo é de uma lindeza sem par e, apesar do tempo, é muito bem conservada”. Os casarões tombados do centro possuem conservação “tipo Europa”, nos trinques.

Pegamos o carro de volta para casa. Novamente, o americano deixou a sua impressão: “como os motoristas dirigem bem, respeitam os pedestres nas faixas, não estacionam nas esquinas pintadas de amarelo, dão sempre sinal de seta quando mudam de direção!” Foi além, sorridente: “reparei que os viadutos da cidade também são muito bem conservados, deve haver manutenção constante, não é?”.

De repente, Nick, meu cão, me cutucou com o focinho, querendo dizer: “tá na hora, companheiro”. Bastante sonolento, percebi que havia vivenciado um sonho. Uma realidade especial, pois protagonizei um sonho pelo qual trabalho e espero a sua concretização há muito tempo. Meio que misto de surpreso e indignado, me levantei. Logo exclamei: “I have a dream”.

“I Have a Dream”? Tradicionalmente, este termo se refere ao fato que, em 1963, a luta do reverendo Martin Luther King Jr. alcançou o ápice, ao liderar a “Marcha sobre Washington”, que reuniu 250 mil pessoas. King Jr. proclamou seu importante discurso intitulado “I Have a Dream” (Eu tenho um sonho), no qual descreve uma sociedade onde negros e brancos pudessem viver harmoniosamente, lado a lado. Martin Luther King recebeu o “Prêmio Nobel da Paz”, em 1964 e morreu assassinado, em 1968, aos 50 anos, em Memphis, Tennessee.

Não sou o Martin, nem sou digno de “desatar suas sandálias”, mas igualmente tenho um sonho, e como gostaria que ele se tornasse realidade! Será este sonho irrealizável? Uma utopia? Talvez para o reverendo King também fosse o seu sonho irrealizável, porém ele acreditou até o fim.

Sonho um dia ver motoristas, motociclistas, pedestres, idosos, adultos e crianças, pessoas com deficiências, convivendo harmonicamente, respeitando, não só as leis de trânsito, como vivendo a regra de ouro: cada pessoa deve tratar as outras como gostaria que ela própria fosse tratada. Que pudessem dar preferência de passagem ao outro, não fechar o carro ao lado, respeitar os limites de velocidade, não beber quando for dirigir e nem falar ao celular… Com taxas de morbimortalidade baixíssimas.

E, tal como cantam torcidas de times que estão em desvantagem no placar, eu grito: “eu acredito, eu acredito”.

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