Com os cabelos penteados, unhas pintadas de vermelho e três anéis dourados decorando o anelar. Foi assim que Maria Odília Carvalho Simonetti recebeu a equipe do Social Bauru em sua casa. Para ela, passar o dia todo arrumada faz parte do dia a dia.

No dia 03 de agosto, a bauruense completa 100 anos de vida. Embora a vaidade seja uma característica que se apresenta desde criança, Odília revela com orgulho: “Nunca fiz uma plástica. Não tenho a vaidade de querer parecer mais nova”. Se fisicamente ela ostenta uma aparência que passa longe de um século de vida, a saúde não deixa para menos.

Quando perguntei se o segredo da longevidade era a alimentação saudável, eis a resposta: “Comida? A que vier eu traço. Eu como de feijoada a canja, eu como de tudo! Nunca fiz regime, nunca tomei um comprimido para dormir, nunca tomei calmante”, conta com bom humor.

Nascida e criada em Bauru, Vóinha – como todos a chamam – teve participação ativa na comunicação da cidade. Esposa de Leônidas Simonetti, primeiro locutor de Bauru, ela relembra dos tempos de Auriverde e da criação da rádio FM, a 94. “Eu comecei a perceber que a AM ia sair do mapa, então propus ficar com a FM. Sempre tive boas ideias”, comemora.

Mas essas são apenas algumas histórias que dona Odilia tem para contar. Confira o bate-papo completo com a bauruense:

– Dona Odília a senhora se lembra de como era a cidade antigamente?

Ô se lembro! Eu morava no centro de Bauru. Sabe onde é o Colégio Guedes de Azevedo, ficou uma partezinha na Antonio Alves, lá acabava Bauru. Não tinha a avenida Getúlio Vargas, a avenida Nossa Senhora de Fátima. Bauru era só aquele miolinho.

– Quando era criança, você costumava brincar na rua?

Naquele tempo a gente brincava na rua. As famílias sentavam nas calçadas à tarde e as crianças ficavam brincando na rua, coisa de criança, e era bem diferente a vida. Mas também, há cem anos né? (risos).

Bauru se desenvolveu muito depois que tivemos um belo de um prefeito aqui, que era bauruense também. O nome dele, falava Nicolinha, acho que devia ter outro nome, porque acho que Nicola era sobrenome. Ele foi um ótimo prefeito, ele projetou Bauru para fora e começou a avenida Nações Unidas e trouxe muito progresso para Bauru, foi um ótimo prefeito.

– Tinha algum lugar que você gostava mais de passear em Bauru?

Não tinha muito onde fazer passeios não. As moças costumavam passear na Batista e na 1° de Agosto. Da praça principal de Bauru até uns dois, três quarteirões, a gente ficava passeando. Fazia footing, era footing que falava antigamente (risos).

– E no centro, tinham muitas lojas como hoje em dia?

Não. Naquela época tinham dois cinemas, um lugar onde a gente podia tomar um lanchinho com o namorado. Ali era o footing.

Os rapazes ficavam no meio da rua e as moças ficavam passeando. Ô tempo bom! Bauru não tinha muito onde ir, mas tinha bons bailes. No Automóvel Clube, por exemplo, era bom, eu frequentei uns dez anos. Eu casei e fiquei uns dois anos sem filhos, aí eu frequentei a sociedade, depois vieram os filhos e eu me dedique a eles.

– E o que tinha no Automóvel Clube?

Bons bailes, só alta sociedade. Tinha o baile de Sábado de Aleluia e o Carnaval, era um espetáculo de gostoso. Era uma sociedade bem seleta, eu gostava e meu marido também gostava muito. Meu marido era pianista, tocava muito bem, estudou piano durante nove anos. Ele foi o primeiro locutor de Bauru, na PRG8.

Entre as fotografias da família, está o retrato de seu marido, Leônidas Simonetti

– Como seu marido chamava?

Leônidas Simonetti, o sobrenome é dele, não é meu não. Faz quase 20 anos que ele faleceu. Eu perdi um filho também, o mais velho. Quando ele faleceu, eu pensei que não fosse suportar, porque a maior dor do mundo, dizem que é essa, perder um filho. Isso falado pelo padre, porque eu fui assistir a missa do sétimo dia e chorei a missa toda, fazia sete dias que eu tinha perdido meu filho, estava entrando em desespero.

Só tive três filhos homens, não tive filha mulher. Chorando, eu falei “porque o Senhor me levou esse filho tão depressa?” Eu sempre reclamava com Deus e um dia caí em mim, “porque tô reclamando? Meu filho morreu com 70 anos”. Eu achei que Deus tinha levado ele muito cedo, é porque eu esqueci que eu tô vivendo muito. Vou fazer cem anos! Pedi até perdão pra Deus e nunca mais chorei.

– Como bauruense, você andou muito nos trens?

Eu ia daqui a São Paulo de trem e depois para Santos. Era um trem que descia a serra, faz tanto tempo que nem existe mais. Eu era uma menina que não gostava muito de andar de trem, porque eu tinha medo da serra. Cansava e eu achava longe.

– Não parece que a senhora tem cem anos, você sempre gostou de se arrumar?

Eu levanto, tomo banho, me arrumo e fico arrumada o dia inteirinho. Sou muito vaidosa, desde menina. Até hoje sou vaidosa, cheguei aos cem anos já! E ainda hoje, eu já fui ao mercado e comprei pizza para o almoço!

Eu nunca fiz uma plástica, nunca tive vontade e não tenho coragem. Não tenho a vaidade de querer parecer mais nova, porque a idade vem para todo mundo. Você só não envelhece se você morrer, mas se você continuar vivo vai ter que envelhecer, não é verdade? Então vamos envelhecendo devagarinho, sem ninguém perceber, sem muita onda (risos).

A Andreia [Simonetti] é minha neta, ela aprendeu a se vestir e ser elegante comigo, eu ensinei. No meu tempo também tinha essa besteira de eleger as mais elegantes todo anos.

– E você ganhou o concurso?

Tinha a lista das dez mais, eu nunca saí da lista. Entrava umas e saía outras, mas eu nunca saí. Então eu ganhei o cetro da elegância. Eu dei de presente para a Andreia, ela é muito vaidosa. Mas ela não é igual eu, eu gosto de casa, de cuidar de casa, eu adoro mudar.

Aqui, eu estou faz uns meses. Eu já morei aqui dois anos, em outro apartamento, depois passei para um apartamento maior e morei mais um ano, então morei três anos nesse edifício. A Andreia me fez sair daqui para morar perto dela, durante um ano.

– A senhora não gostou?

De jeito nenhum. O lugar que eu mais gostei de morar foi nesse prédio. Porque aqui eu me sinto em casa, nos outros parecia que eu estava em um hotel. Olha que sensação interessante, eu não acostumei. Tinha a impressão que eu estava ali de provisório, mas aqui eu me sinto em casa.

– Sente saudade de antigamente? O que mais gostava de Bauru?

Eu gostava de frequentar a sociedade com meu marido, era um tempo muito bom. Aliás, eu tive uma meninice maravilhosa e a adolescência foi uma delícia também.

Assim a gente vai vivendo. A vida é muito boa, porque acho que a vida é o maior presente que Deus nos deu. Desde que você aprenda a viver para poder valorizar a vida, porque ela serve para dar lições. Se você aprender a tirar o que é bom e o que não é das lições, você tem uma boa vida.

Então eu tive uma bela meninice, uma bela adolescência, depois tive meus filhos e criar os filhos foi o maior prazer que a vida poderia ter me dado. A vida é muito bonita e muito boa para quem aprende a viver. Eu aprendi a viver a vida, é muito difícil algo me tirar do meu bem-estar, sou muito feliz.

Medalha de honra!

Diante de toda a vivência, Maria Odília recebeu, no último dia 17, a medalha “Sebastião Paiva” da Câmara Municipal, por iniciativa de seu presidente José Roberto Segalla e por meio do Decreto Legislativo. A honraria é atribuída a pessoas com 90 anos ou mais, que residem em Bauru há pelo menos três décadas.

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