Os imigrantes fizeram parte da construção do Brasil, tanto pelo lado sociocultural quanto econômico. No século XIX, teve início a imigração europeia para o país, sendo seguida pela asiática, no século XX. Portanto, a história da nossa terra é formada por imigrantes vindos de forma espontânea ou forçada.

Para enaltecer essa história de idas e vindas do país, o bauruense Guilherme Bacciotti desenvolveu o jogo de tabuleiro “Imigrantes”. O game, que se passa no final do século XIX, conta com 12 rodadas, divididas em três fases. Em cada rodada os jogadores escolhem cartas e revelam eventos baseados em fatos reais. São 36 cartas diferentes e vence quem desenvolver mais o país.

O jogo foi apresentado durante o 3º Encontro de Jogos de Tabuleiro, no Museu Ferroviário Regional de Bauru. Hoje, “Imigrantes” está na final de uma competição nacional!

Conversamos com Guilherme, que contou um pouco sobre a criação do jogo, sua paixão pelos tabuleiros e a repercussão do game. Confira:

– Como surgiu a ideia de fazer um jogo de tabuleiros?

Desde criança eu sempre gostei de desenvolver minhas “próprias histórias”. Criava jogos na infância (que provavelmente não faziam sentido algum), na faculdade – de Rádio e TV – tive meus programas de rádio e coisas desse tipo. Embora não tenha ido pra área de roteiros, acredito que a edição de vídeo também te permite criar bastante coisa.

Mas o despertar da vontade de criar um jogo de tabuleiro se deu mesmo quando tive meu primeiro contato com o que costuma-se chamar de Jogos de Tabuleiro Modernos. O termo é meio difuso, mas costuma-se utilizá-lo para uma leva de jogos que surgiram após o jogo alemão Catan, de 1995, que espalhou para o mundo a escola europeia de jogos – menos sorte, menos conflito, mais estratégia. De lá pra cá, milhares de jogos vêm sendo lançados, o que criou um nicho bastante rico em possibilidades. Isso chegou ao Brasil há menos de uma década e eu só fui ter contato com tais jogos em 2016. Ali me despertou interesse em explorar as possibilidades mecânicas e temáticas para criar meus próprios jogos.

– E o tema, como ele foi escolhido?

Eu, particularmente, gosto muito de história. Vez ou outra pesquiso temas específicos por pura curiosidade. O tema dos imigrantes me chama atenção, primeiro porque sou descendente de portugueses e italianos, que vieram ao Brasil no período retratado no jogo. Não me recordo bem quando tive a ideia de utilizar este tema para um jogo, mas é provável que o despertar dela tenha vindo nas buscas por árvores genealógicas da minha família e estudos descompromissados da história da época.

Mas há também um componente importante atual que me motivou a dar sequência nesta ideia, que é o fato de termos um crescimento de ideias ultra-nacionalistas no mundo – inclusive no Brasil – esquecendo que todos nós, em algum momento descendemos de imigrantes. A pluralidade de povos é uma das belezas do mundo contemporâneo.

Povos do mundo todo ajudaram a construir o país (e o mundo) e acho triste quando as pessoas se esquecem disso. Talvez demonstrando um lado mais pessoal do tipo “seu bisavô foi imigrante e ajudou na formação do país”, essa mesma pessoa passe a enxergar com mais carinho e humanidade o boliviano, haitiano, congolês, sírio ou venezuelano, que imigra hoje para cá.

– Antes de Imigrantes, você já gostava de jogos de tabuleiro? Lembra qual foi o primeiro que jogou?

Meu contato com os jogos de tabuleiro modernos é bastante recente – 2016. O primeiro jogo que joguei desta “fase” dos boardgames foi o Pandemic. Mas, o que me chamou mais a atenção, o primeiro que comprei, foi Puerto Rico. Antes disso, na infância joguei muitos outros jogos “não-modernos” e gostava bastante deles. Não sei qual foi o primeiro, mas lembro bem de diversos jogos de estilos bem diferentes: Perfil, Hero Quest, Academia e o clássico Xadrez.

– Na sua opinião, porque os jogos de tabuleiro são tão legais?

São diversos os motivos. O primeiro deles é que os jogos de tabuleiro, em geral, fazem parte de uma contracultura que nos tira do mundo conectado-solitário que nos é tão comum nos dias atuais. Os jogos de tabuleiro são essencialmente uma experiência desconectada e social, e só por isso já é muito interessante. Além disso, gosto bastante da ideia de desacelerar o nosso ritmo através de uma atividade lúdica e estratégica, que pode atender todas idades. É um dos raros tipos de entretenimento em que crianças, adultos e idosos podem interagir sem que haja um grande “abrir mão de algo”. A linguagem é universal e há possibilidades para todos.

– Você uniu um jogo com a história. Você acredita que os jogos podem ser formas de educar e ainda divertir?

Com certeza. Não que isso deva ser uma regra. É possível fazer um bom jogo com um tema que pouco acrescente e, sinceramente, não vejo problema algum – desde que o jogo me divirta, é óbvio. Mas as possibilidades que os jogos propiciam em termos educacionais são imensas.

O historiador holandês Johan Huizinga já dizia que o jogo é elemento importantíssimo da cultura, com enorme potencial de interação social e desenvolvimento criativo do ser humano. Se pegarmos o jogo de tabuleiro, ele está presente na história da humanidade há milhares de anos, portanto é parte desses tais processos de interação social e desenvolvimento criativo.

Se analisarmos o momento atual dos jogos de tabuleiro, já existem várias linhas pedagógicas que os utilizam no ensino de história, matemática, física, etc. Isso sem contar a parte de desenvolvimento cognitivo e sociabilidade. Claro que é uma ferramenta e não um meio, assim como qualquer outro produto cultural, como um filme ou um livro, por exemplo.

– O jogo está na final da 1.ª Competição de Protótipos, com surgiu a oportunidade participar?

O jogo Imigrantes já está desenvolvido faz um bom tempo. No último ano, só o que fiz foram uns ajustes aqui e ali. Fiquei sabendo do concurso desta editora através do pessoal que organiza o evento Boardgames São Paulo.

Resolvi então mandar o material do meu jogo para o concurso e, felizmente, ele está indo bem. Passou por duas etapas e agora está na final, junto a outros dois jogos. Concursos são uma boa oportunidade para game designers que ainda não lançaram nenhum jogo e, portanto, ainda não têm “popularidade” junto aos editores. Como é normal em qualquer produto da indústria cultural.

– Você tem recebido críticas positivas sobre o jogo?

Felizmente, sim. Todos eventos em que apresentei o jogo recebo críticas, em geral, positivas. Nos eventos mais antigos recebi críticas construtivas que ajudaram a ajustar o jogo ao formato atual, mais balanceado e aprimorado.

As críticas são bastante positivas em relação ao tema. Nos eventos mais recentes, as mecânicas também têm sido elogiadas, o que me deixa bastante satisfeito.

– Se vencedor, o jogo será publicado, correto? Qual sua expectativa?

Bom, entre os três melhores eu já estou! E isso é bastante gratificante já. São jogos muito bons, mas bastante diferentes em estilo, o que dificulta criar um “juízo de valor” entre os três.

Minha torcida é para que as pessoas que puderem jogar Imigrantes se divirtam. E, quem sabe o jogo possa ser vencer e ser lançado no mercado. Para o futuro, espero poder produzir ainda outros jogos.

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