O avanço da tecnologia, cada vez mais rápido, maravilha desde idosos até os mais jovens. A possibilidade do acesso às informações, conteúdos e entretenimento on demand, ou seja, no momento em que desejamos, é algo que impressiona e acentua nosso consumo. 

Tech em tudo 

Justamente por conta dessa comodidade, a modernização insere-se gradativamente em nossa rotina. Seja ao cozinhar uma receita encontrada em um site, ao nos locomovermos com o suporte de aplicativos de trânsito ou no respaldo que temos com tutoriais no Youtube. 

Dessa forma, consequentemente, demandas sociais também passam a ser mediadas pela tecnologia. Uma mensagem ou chamada de vídeo pelo WhatsApp, um parabéns no Facebook e a possibilidade de distrair crianças com vídeos no Youtube.  

Quem nunca? 

Quem nunca agradeceu pela existência de canais infantis, como a Galinha Pintadinha, que foi o único a fazer as crianças pararem de chorar? Assim, principalmente como ferramenta de distração, plataformas como o Youtube, Netflix e aplicativos de jogos estão cada vez mais fazendo parte do cotidiano dos pequenos. 

Contudo, apesar da boa intenção dos adultos, agradar com as novas mídias digitais pode ser nocivo à saúde. A doutoranda em psicologia do desenvolvimento e aprendizagem, Carine Ramos de Oliveira-Franco, explica os principais riscos do acesso às redes: 

“Isso pode afetar o desenvolvimento cognitivo limitando o aprendizado e memória. Além disso, também prejudica a socialização, desenvolvimento motor, autocuidado e até linguagem dependendo do tipo vídeo a que ela tem acesso por meio desta plataforma”, pontua a especialista. 

E a preocupação deve ser ainda maior, levando em consideração um levantamento realizado pelo AppGuardian, aplicativo de controle parental. A pesquisa revelou que as crianças estão passando 25 horas por mês em frente ao YouTube.

Os números são ainda mais alarmantes quando levados em consideração o YouTube Kids e YouTube Go: são 47 horas por mês gastas nos canais. Isso sem contar outros aplicativos de jogos e de streaming disponíveis. 

Limites? 

Atualmente, é muito complicado proibir completamente o acesso dos jovens às tecnologias. Inclusive, Carine explica que a preocupação não deve pautar-se exclusivamente pelo contato com os dispositivos em si . 

“Acredito que o maior problema esteja no excesso e na limitação desse tipo de estimulação. E os prejuízos do excesso não ficam restrito ao desenvolvimento do indivíduo, mas podem envolver questões amplas de comportamento e saúde, como o sedentarismo, consumismo, imediatismo, distúrbios de sono, entre outros”, comenta a psicóloga

Uma pesquisa revelou que as crianças gastam 25 horas por mês no YouTube e psicólogos alertam que essa exposição já está interferindo em seu desenvolvimento.
Foto: Reprodução

Assim, limites tornaram-se mais que desejáveis e, neste momento, são necessários para evitar problemas no desenvolvimento das crianças. Janaína Corrêa, mãe do Lucas, de seis anos, comenta que sentiu na pele as consequências da exposição a conteúdos impróprios.

“Quando ele tinha cerca de três anos teve episódios de bater nas pessoas à sua volta. Mas,  quando o coloquei de castigo, ele falou que a personagem tinha de ficar de castigo também, porque batia no amigo (Mônica e Cebolinha), mostrando a origem do comportamento. Cortei o desenho e o comportamento cessou”, conta Janaína.

Apesar do ocorrido, ela ainda permite que Lucas tenha acesso ao Netflix, porém apenas monitorado por um adulto. No entanto, muitas mães optam por estabelecer a proibição completa a dispositivos e plataformas, visando principalmente evitar situações que possam prejudicar seus filhos. 

Fernanda Casavechia Franco, mãe da Luísa, de sete anos e do Henrique, de apenas quatro anos, dispensa qualquer tipo de apetrecho eletrônico. “Eu e meu marido acreditamos que há uma influência muito negativa, das imagens, vídeos e mensagens que são transmitidas para as crianças, principalmente nessa primeira infância. A gente não gosta e limita muito”, explica Fernanda. 

De olho no conteúdo

Ainda que haja ferramentas voltadas exclusivamente para as crianças, a exemplo do Youtube Kids, o conteúdo ainda deve ser acompanhado de perto. Janaína, por exemplo, comenta que fica extremamente atenta a esse aspecto.

“O Youtube Kids é proibido em casa. Quando foi lançado achei super legal, mas quando começamos a usar percebemos o livre acesso a conteúdos inadequados à idade dele, então optamos por cortar totalmente”, explica Janaína. 

Além do conteúdo, que pode fugir de sua proposta inicial, há também a questão da reprodução automática. O detalhe, que muitas vezes passa despercebido, já surpreendeu  Isadora, de seis anos, filha de Helida Santos.

“Ela já me contou que viu um vídeo em que apareceu aquele famoso caso da boneca Momo. Após esse episódio, ela mesma ficou com medo de acessar os vídeos e depois de um tempo me pedia para checar se aquele vídeo ela poderia assistir sem medo”, conta sobre Helida sobre a situação. 

No entanto, uma navegação nas redes com o devido acompanhamento pode auxiliar a encontrar conteúdos construtivos. Carine comenta que alguns canais são considerados benéficos por ensinar coisas novas e conteúdos importantes. 

Porém, nesse caso, sem deixar de lado a moderação no tempo de exposição e a mediação do adulto. Além disso, também é necessário atentar-se para o entretenimento ser uma das vias de estimulação, e não a única.

Melhor prevenir que remediar 

De acordo com a OMS, bebês de até 12 meses não devem ter nenhum contato com aparelhos eletrônicos. Enquanto a recomendação para crianças com idades entre um e cinco anos é de acessos curtos e divididos ao longo do dia, não excedendo a 60 minutos ao todo.

Isso, ressalta Carine, sempre contando com a supervisão e participação ativa dos responsáveis durante estes acessos. A psicóloga ainda dá uma dica para quem se preocupa em encontrar outras formas de entreter os pequenos:

“Existem muitas atividades lúdicas e educativas que podem prender a atenção da criança enquanto os pais fazem outras atividades por perto. As sugestões variam de acordo com a idade e campo de interesse de cada criança”, explica Carine. 

Dessa forma, a recomendação é clara: não é estritamente necessário proibir, apenas filtrar e monitorar o acesso é suficiente para uma rotina saudável. Ainda assim, o mais benéfico para a formação das crianças é a participação dos pais, seja dando atenção ou participando e estimulando algumas atividades lúdicas.

Nada substitui os benefícios do ‘brincar junto’. A mediação do adulto em qualquer atividade da criança, sendo de qualidade, promove desenvolvimento e aprendizagem”, ressalta Carine.  

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