Você já sugeriu que alguém perdesse peso, ainda que com boas intenções, pensando em sua saúde? Ou já esteve do outro lado da história? Pior, já sentiu isso na pele ao visitar um médico, por qualquer que fosse o motivo da consulta?

Esse tipo de tratamento pode causar constrangimento. Isso, porque pessoas magras, que podem manter uma rotina não saudável, não são tão questionadas quanto pessoas gordas. A questão é que não existe aparência que traduza a saúde de ninguém. 

Por isso, orientações para que se perca peso devem ser feitas apenas mediante exames que comprovem o impacto do sobrepeso na saúde. De acordo com a nutricionista Erika Rino, antes de determinar a perda de peso, são necessárias algumas avaliações, como: check up completo, avaliação antropométrica e de bioimpedância, em que se determina o nível de gordura ideal fora de risco para o paciente, entender como é sua rotina, vida social, profissional e afetiva.

Saúde tem a ver com magreza? 

Assimilar o corpo magro como saudável pode levar a muitas suposições incorretas. Entre elas, considerar que estar acima do peso é significado de preguiça, falta de vontade e de hábitos saudáveis. 

Porém, uma pessoa magra não é necessariamente saudável ou não tem nenhuma doença.  Além disso, estar no seu peso ideal não significa estar livre de ter diabetes ou hipertensão, por exemplo. 

Ademais, o sedentarismo – ao qual pessoas magras também podem estar suscetíveis- mata duas vezes mais pessoas que a obesidade, de acordo com um estudo da University of Cambridge (EUA).

O psiquiatra e médico do curso de medicina na USP, Rafael Casali Ribeiro, explica: “Normalmente, entendíamos a obesidade como um fator de risco para outras doenças, assim como são outras variáveis como sexo, idade, etc. Prevenir, diminuindo fatores de risco de uma doença, faz com que também caia a chance dessa doença acontecer no futuro. Porém, fazer isso não é a mesma coisa que tratar uma doença já existente. A obesidade vem sendo cada vez mais compreendida como uma doença em si, em sua dimensão somente biológica. Essa visão desconsidera a construção social, os hábitos, as culturas, como as diferentes sociedade lidam com os padrões estéticos e com a alimentação”. 

O profissional ainda pontua que existe uma ideia bastante disseminada que não é possível que uma pessoa obesa possa ser tão saudável que um pessoa magra. Porém, esse conceito não é consenso entre os médicos. 

Assim, mesmo que comprovada a saúde de alguém com sobrepeso, as indicações para que se emagreça são constantes. Isso pode ser caracterizado como atitudes gordofóbicas. 

O termo “gordofobia” resume o preconceito em relação a pessoas gordas, baseado em um padrão, no qual o corpo ideal seria o magro. 

Além disso, atualmente, 50% da população brasileira possui um IMC compatível com sobrepeso ou obesidade. Esse fato, pontua o profissional, também significa a existência de um mercado para serviços de saúde e de medicamentos. 

Por isso, receitar remédios, consultas ou dietas pode ser algo rentável para os profissionais. “A medicalização, significa transformar problema sociais em um problema que tem que ser tratado com recursos das medicina”.

Gordofobia no ambiente clínico

Por isso, procurar um médico, por qualquer motivo que seja, pode ser um pesadelo para quem está acima do peso. 

A bauruense Paula Bastos conta que passou por inúmeras situações embaraçosas no ambiente médico. Ela conta que em um determinado momento precisou ir a um novo ortopedista, já que seu médico não poderia atendê-la, para acompanhar a bursite que tem nos dois ombros. 

Não deu tempo nem de sentar na cadeira do médico e ele disse ‘você sabe que seu ombro está assim porque você está gorda’. Depois, o meu ortopedista, que me acompanha mesmo, falou que isso era um absurdo, que meu peso não tinha nada a ver com a minha bursite”, relembra.

Essa situação reflete algo recorrente no ambiente clínico: a culpa que muitos médicos podem colocar, no caso da pessoa gorda, em cima de seu peso. Esse pré-conceito também pode resultar em diagnósticos errados, já que o médico, por pressupor que o peso é a causa de tudo, pode não solicitar todos os exames necessários para o caso analisado.

“Isso impacta numa dificuldade de acesso aos serviços, de pleno reconhecimento das necessidades de saúde, de investimento por parte dos profissionais na parte de diagnósticos. Tudo porque essas pessoas são consideradas, pela culpabilização, como mais preguiçosas e menos cuidadosas com a própria saúde”, completa Rafael.

Ademais, esse comportamento pode reduzir a procura por um profissional em casos mais graves. “O paciente está recorrendo ao médico, que é um profissional habilitado para ajudá-lo e é como virasse as costas para esse paciente, porque ele não está ali realmente examinando, se preocupando”, pontua Paula.

O que fazer?

Apesar de constrangedor, esse tipo de tratamento, tanto médico quanto pela sociedade, infelizmente, está arraigado na sociedade. Por isso, é importante buscar por profissionais de confiança e reforçar que é possível ser gordinho e estar com os exames em dia!

“O atendimento ideal eu acho que é aquele que o medico realmente se preocupa com o paciente, conversa, realmente deixa ele contar o que esta acontecendo, pede exames todos que tenham relação com aquilo. As pessoas e os médicos precisam ter empatia , precisam tentar entender de onde aquele paciente está vindo, qual a relação dele com a obesidade”, reforça Paula.

Erika Rino pontua que para nos mantermos atentos à nossa saúde é importante fazer um checkup pelo menos uma vez ao ano e o exame de bioimpedância no mínimo a cada seis meses com um bom profissional da saúde. Porque, no final, o ideal é encontrar o equilíbrio entre a saúde e sentir-se feliz com o próprio corpo, mesmo que isso não signifique necessariamente estar no peso considerado “ideal”. 

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