Apesar de ter sido criada em 2004, pelo australiano Juan Mann, a campanha “Free Hugs” – abraços gratuitos – se popularizou apenas em 2007. Diversos países começaram a adotar a iniciativa após uma ação em Portugal, inspirada na ideia de Juan. Aqui no Brasil não foi diferente e o Dia do Abraço é comemorado em 22 de maio.

Mais do que um gesto de carinho, o abraço pode gerar outros benefícios que, inclusive, já foram provados cientificamente. A pesquisa feita em 2014 pelo professor de Psicologia da Carnegie Mellon University (EUA), Sheldon Cohen, mostra que um abraço pode proteger dos efeitos de ansiedade, estresse e depressão.

De acordo com a psicóloga Letícia Lozan, para a nossa cultura, os abraços também podem significar comunicação, uma vez que somos seres relacionais. “Como uma forma de expressar sentimentos e emoções, o abraço pode ter diversos significados, trazendo diferentes sensações para quem oferece e quem recebe. Pode demonstrar intimidade, proximidade, uma relação querida, uma saudade, um cuidado. Pode também significar afeto, carinho, cuidado, amor, perpassando por vezes a necessidade da palavra e se fazendo suficiente ao sentir o abraço naquele momento”, aponta.

Dia do Abraço sem abraço

Embora hoje seja o Dia do Abraço, há algum tempo os carinhos transmitidos pelo contato tiveram que ser deixados de lado. Para muitos, principalmente quem mora sozinho, esse gesto tem feito muita falta. Mesmo acostumada a não ter contato frequente com as pessoas, Tainá Vétere sentiu as consequências do distanciamento social.

“Nesses últimos dois meses tenho sentido muita falta de ver gente, principalmente minhas amigas. Tem sido uma quarentena muito solitária, porque estou sozinha. Tenho sentido muita falta desse tipo de afeto, desse tipo de sentimento, de não poder estar com outras pessoas e não poder abraçar e ver também. Estou trancada no apartamento todo esse tempo, só eu e meu cachorro. Então estou sentindo muita falta do contato físico com outras pessoas. É uma solidão muito doída às vezes”, relata.

Moradora de Bauru, ela também conta que o mais difícil foi o começo da quarentena, em que chegou a ter muitas crises de ansiedade. Agora, Tainá revela que já consegue lidar melhor com a situação. Por isso, além dos novos cenários que se formam diante da pandemia, outras questões também merecem uma reflexão. Segundo Letícia, é importante pensar em como ressignificar as formas de transmitir afeto.

“Estar em isolamento e distanciamento social não deve ser sinônimo de distanciamento afetivo e emocional. É importante a manutenção dos vínculos e cuidado com as relações, podendo e devendo usar as redes sociais e meios tecnológicos como formas de contato e proximidade, por meio de conversas, chamadas de vídeo, ligações e áudios. O resgate de momentos, memórias e até mesmo de fotografias podem trazer a sensação de proximidade, como uma possibilidade de deslocamento do tempo presente para aquela data que nos faz se sentir abraçando e abraçado”, aponta a psicóloga.

Inclusive, esta foi uma das alternativas que Tainá encontrou para estar mais perto de sua mãe. “A única maneira que encontrei de amenizar tudo isso foi fazendo ligações por vídeo, por telefone e mensagens”, diz.

Outras formas de abraçar

Você já parou para pensar o que o abraço significa para você? Como você se sente ao receber e oferecer esse gesto? Diante de tais questionamentos, podemos buscar diferentes formas que também nos fazem sentir abraçados.

“Um abraço, em tempos de pandemia, pode vir como um resgate de formas singulares que nos fazem sentir perto de alguém. Pode ser aquela mensagem recebida ‘lembrei de você’, pode ser uma indicação de música, o recebimento de um presente pelo correio, um trecho de uma poesia. Sendo, nesse sentido, algo que simbolize o gesto do abraço, que demonstre o que o abraço significa e representa”, aponta a psicóloga.

Entretanto, o abraço também pode ser de nós para nós mesmos. O autocuidado, por exemplo, é um termo que tem ganhado espaço, além de mostrar a importância do olhar atento ao próprio corpo. Separar um tempo para estar sozinho, prestar atenção ao que está sentindo e apreciar fazer algo que você gosta muito podem ser gestos de autocuidado.

Como você vai se abraçar hoje?

Apesar das dicas citadas acima, a psicóloga, Letícia Lozan, ainda ressalta que não existe receita pronta para cuidar de si. Pelo contrário, é fundamental saber dar espaço para colocar em prática atividades prazerosas e que trarão bem-estar.

“Nesse momento difícil e desafiador, um mundo de experiências novas surge dentro de nós, trazendo o desconhecido que nos despertam uma série de emoções. Assim, é essencial entender que não há regras e receitas prontas a serem seguidas, e sim descobertas e redescobertas a serem feitas, quantas vezes forem necessárias. Dentro de cada singularidade há uma maneira de existir e, consequentemente, de lidar com esse período, de se autocuidar, de oferecer abraços diferentes dos que antes eram comuns e de nos sentirmos abraçados de maneiras que antes eram inimagináveis”, finaliza.

Consultoria
Letícia Lozan – Psicóloga (CRP 06/132377)

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