A música a serviço da linguística, da exploração bem humorada da cultura, costumes e da riqueza da língua escrita e falada nos diferentes Brasis. A música a serviço da narrativa misturada com pitadas de literatura e folclore popular. Assim o jornalista e compositor, Nelson Itaberá, propõe em “Trocadilho Xoteado“.

A música dá boas-vindas ao calendário junino e integra o Documentário “Linguagens”, lançado em abril deste ano. Além de compor a sequência de produção literária (livro literatura cantada) e musical do autor (disco).

Nélson Itaberá achou um jeito de levar até as pessoas temas com conteúdo literários por meio da música. A proposta, desta forma, é fazer com que a sugestão de aprendizado seja leve. Além de aproveitar que as pessoas estão em casa para difundir a riqueza cultural.

Entretanto, para ampliar o alcance do trabalho musicado, o compositor trouxe mais um desafio pessoal. Falar de literatura e costumes regionais tipicamente brasileiros por meio de uma estória. E o melhor, embalado em um xote, uma dança tipicamente brasileira. O autor conta que aprendeu o xote marcado em sua infância em Itaberá. Na região, agrícola, bailes com dança de salão com xote e vanerão sempre foram tradicionais.

A narrativa de Trocadilho Xoteado

A música traz o conflito entre um homem que deseja ir para a boemia e a esposa beata. Entre a reza e o xote, eis o dilema. Pra embalar a estória, a música traz citações literárias, como da peça teatral “Auto da Compadecida, da obra de Ariano Suassuna.

O compositor aproveita o trocadilho linguístico e vai “costurando” na canção a discussão entre a fé e a diversão, aliás, com humor. Outro detalhe: rezar, dançar e fazer festejos nunca foi conflitante na cultura e folclore popular de diferentes regiões do país.

Confira a música:

Experimentos

A produção musical do jornalista Nelson Itaberá traz correlações e experimentos da prosódia, estudo sobre a relação entre sílabas e notas musicais. Além do uso de elementos da literatura em construções musicais como a narrativa. A produção explora fonemas, figuras de linguagem e muito humor.

O compositor, então, aproveitou o ironia sofisticada da obra de Suassuna para falar, ao mesmo tempo, de folclore, crendices e também da linguagem.

Por isso, a letra traz sutilezas. A citação de “Auto da Compadecida” favorece o trocadilho linguístico. Assim, a canção traz, logo no início, que “Auto que não levo é o da compadecida, andor escada acima é mais difícil carregar. Mas se chamar pro xote da comadre Cida, vou até carregado. Auto lá! Já chego já!..”

Na segunda parte, a letra também brinca com o espírito de contradições a partir de sutilezas de sentido (semântica) embutidas nas próprias frases. Um exemplo é o trecho “Ainda não sei de nada, mas fico esperto de quase tudo […] A vida passa todo dia, mas deixa peça amarrotada”.

Por fim, a música enfatiza, de forma bem humorada, a abrangência da música nacional. Uma das confirmações desse alcance para todos os públicos é o uso da rima: “Se é pra rir do rimar, maravilha… do mar vi a ilha. […] Se é pra te enciumar, adivinha… em si o mar, advir a vinha.”

Enfim, uma canção pra saborear as citações literárias, de estrutura linguística e, também, pra dançar.

Estudo de Nelson Itaberá

“Trocadilho xoteado” integra os experimentos do autor em pesquisa sobre o uso de fonemas e estruturas de texto a serviço da elaboração de canções, uma obra seminal sobre a música popular brasileira a partir de nossas riquezas culturais e traços de nossa identidade.

A canção está sendo lançada no Youtube e Facebook de Nelson Itaberá.

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