O interfone tocou, súbito. Pelo horário da manhã era pouco provável que fosse minha irmã, e minha única visita costumaz estava deitada ao meu lado, dormindo.

– Sr. Eugênio? Entrega pro senhor.

Desde uns três porteiros novos após eu ter mudado para o condomínio desisti de pedirem para não me chamarem mais de Eugênio, muito menos de Senhor. Nada contra o Eugênio, mas era o tratamento que eu mais ouvia de pessoas que achavam me conhecer e não conheciam, ou de quando alguém estava irritado comigo. Já o ‘senhor’ eu passo, e não por uma falsa sensação de jovialidade à qual não me agarro mais desde 2015, e sim porque para mim ‘Senhor’ é pronome de tratamento para pessoas muito maduras e respeitáveis. Respeitável eu só sou mesmo academicamente e olhe lá. Então se for para usar um pronome de tratamento, que seja professor.

Tateei no escuro e saí pé contra pé para não acordar a Carol, torcendo para que o toque estridente do interfone já não o tivesse feito. Ela ronronava pesado, então achei que não. Vesti a bermuda limpa de ficar em casa, julgando que poucos metros da minha porta não era exposição suficiente para o inimigo invisível que pairava no ar há semanas. Peguei a cesta bonita e decorada esticando a mão para o motoqueiro, que me olhou desconfiado por não chegar muito perto. Assim como a senhora na farmácia me olhou na semana anterior, quando dei um passo para trás para não ficar muito próximo. Qualquer pessoa menos esclarecida ou preocupada deve ter uma sensação estranhíssima por alguém querer evitar um contato mais próximo, ainda mais no Brasil onde a proximidade é a regra e o espaço pessoal coisa de gringo maluco. Agradeci, entrei. Admirei a cesta e mais ainda a habilidade de Carolina em sempre me surpreender. Coloquei em cima de uma cadeira, mas não espirrei a água com cloro. Era cedo, tinha tempo ainda até começar as atividades em Home Office. Voltei para a cama.

Após os vinte anos, minhas festas de aniversário começaram a diminuir exponencialmente em investimento e em número de convidados, mas essa sem dúvida foi o ponto mais baixo da curva. Desde as festas grandiosas que promovia com amigos em casas com piscina, bandas ao vivo e DJ com open bar, passando pelas longas mesas de bar enfileiradas com porções e bebidas e as festinhas já no fundo de casa com os amigos e suas respectivas famílias fazendo churrasco e cantando parabéns ao redor de um bolo, o dia 31 de março desse ano foi absolutamente frugal. Tomei um café da manhã delicioso com os itens da cesta bonita no meu balcão com a Carol, ouvindo parabéns do Atchim e Espirro (quase ofensivo, diga-se de passagem) e da Pablo Vittar falando sobre o meu bumbum. Almocei com meus pais, frango com requeijão e suco de maçã de caixinha. Distância segura, pouco contato, e só um abraço com muito sabão e álcool em gel depois.

Voltamos para a casa e a tarde fomos a pé na minha irmã, comer pão e ver as notícias do mundo, os números subindo em uma curva quase vertical. “E o governo?” “E o comércio?” Meu sobrinho, alheio a tudo que acontecia no mundo que ia herdar zombava da nossa preocupação colocando mãos e pés babados na boca. Vontade de beijá-lo e abraçá-lo, mas o bom senso, a ciência e o amor ao próximo falam mais alto e dizem não. Ganhei uma almofada de Batman com um sorriso de canto de boca, linda. Minha irmã se desculpou por me dar um presente feito em casa. Foi uma das coisas mais legais que eu já ganhei, disse para ela. Não sei se ela acreditou, mas era verdade.

Início da noite, pedimos comida japonesa para assistir uma série e um episódio do Reality Show. Eliminação, paredão… O sinal da internet não colaborou, estava cansada acho. Parece que por esses dias andam todos cansados, um peso a mais nos ombros. Um silêncio incômodo e estranho. Na minha rua ouvíamos algumas crianças, às vezes alguém correndo e só. Um mundo quieto, preocupado e incerto sobre o futuro. E eu completando trinta e cinco voltas ao redor do sol embarcado nele, também preocupado e inquieto, mas confiante.

Fui até a sala e apaguei aquele que tinha sido meu segundo presente do dia: Um batsinal, de verdade, em escala reduzida, perfeito. Liguei na tomada pela manhã e ali ficou o dia todo, projetando o sinal do morcego na sala vazia. Quem sabe talvez ele não tivesse uma cura?

Esta foi a estreia de Eugênio Mira como colunista no Social Bauru, confira outras colunas aqui.

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