A estrada de ferro Noroeste existe pela Falcão ou a Falcão existe pela estrada de ferro Noroeste? O primeiro bairro da cidade guarda na história destaques. Nascedouro da primeira instituição de ensino superior do município, o bairro também é feudo de sambistas – “Ai que vida boa olerê. Ai que vida olará” – e amantes do futebol. Um bairro de onomatopeias pressentidas. Mais que isso, um bairro de sujeitos com predicados, por motivos de boa escolha à escola Luís Castanho de Almeida. O açougue da família Bastos cortava a rua Campos Sales com a Bernardino de Campos. Cortava, inclusive, carnes de primeira em plena segunda. Na serraria Brasil, machados e serras rasgavam, sem taras, toras e tábuas virgens. De pau a pão, cadarços irrequietos, da estrada de ferro Noroeste, bebiam leite café, leite café, leite café na padaria União, da Alfredo Maia.

A sétima arte ficava em cartaz no primeiro bairro. Cine São Rafael. Era o máximo ver na telona Grande Otelo, Zelone, Oscarito, Renata Fronze, Zé Trindade. Os namoros ganhavam bilheteria. Filmes nacionais assistiam aos beijos bauruenses. A alegria pueril ziguezagueava na Albuquerque Lins e Campos Sales. Brincava-se na breve felicidade que a luz quente do dia nos dava. Queimadas, pé na lata, peteca, alegrias suadas, sem qualquer protesto, com guaraná e suspiro cor de rosa.

Da vida geométrica entre trilhos e terra, pinga vontade. Cachaças anoiteciam causos e trucos no bar do Benigno. Alguns, por demais zelosos, emprestavam cuidado lento em fazer cigarros de palha. No balcão do bar da Dolores, Rita Baiana descansava sua anatomia. Dava para ver. Dava tudo. Bêbados devassavam-na pelos olhos o que teria de acesso interditado às mãos. Os outros encostavam suas conversas no riso concreto de cimento e cal virgem do bar Torrecilha. Boêmios em constante estado de rascunho, prontos a passar a noite a limpo. Notívagos, resignados como pão branco sabor alvorada.

A vida inventa inventário. As memórias são preces. Permanecem nos mesmos lugares como olhares mudos dos porta-retratos. Esquinas, ruas, avenidas, travessa entreolham-se em memoriáveis nomes. No DNA da Falcão famílias Benedito Amaral, Luziano Teixeira de Carvalho, Lambertini, Scriptore, Fabiano, Bastos e Polido. No coração do bairro, a vida católica apostólica da igreja São Benedito. Do frei Elias ao rigorismo do padre Araújo, musculatura amorosa com sorriso alvar de gratidão do padre Almir.

Por cuidado, confiando nas mãos cruzadas ou enfiadas no bolso o dinheiro amarfanhado, vestidos e botinas compravam o arroz para feijão nas casa Belmont, Dragão e Quarto Centenário. Confiança não faltou, em 1981, para Jad Zogheib investir no bairro. Coçava de fome na pele ir ao empório, a uma casa de secos e molhados e resistir ao queijo crioulo com marmelada, doces com melaço de cana, goiabada cascão, farinha de mandioca, carne seca e fumo de corda.

Na barbearia do Mariano, puídos emprestavam à poltrona abusos amarelados. O barbeiro cobria os pescoços com toalhas que adquiriam, sem pudor, cor do tempo. Um espelho obedientemente ovalado garantia nossa vaidade afoita. Um jornal do dia deitava fatos e fotos num banco plástico gelo esquecido no canto. No chão liso, um vermelho criminal, testemunha de cortes incessantes, acolhia barbas abandonadas, cabelos desgrenhados e bigodes empalidecidos.

Por tudo isso, o bairro. Por tudo isso, a cidade veste o corpo com roupas de seus bairros. Por tudo isso, Bauru tem a alma vestida da Falcão.

Confira mais textos do colunista aqui: www.socialbauru.com.br/author/alexandrebenegas.

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