Você sabia que, de acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem no Brasil mais de 6,5 milhões de pessoas com deficiência visual? Entre elas, 582 mil são cegas e 6 milhões têm baixa visão.

Apesar do número expressivo, iniciativas inclusivas, como ensino de Braille – um sistema de escrita e leitura tátil é usado por pessoas cegas ou com baixa visão -, por exemplo, ainda são raras. 

Ciente disso, a moradora de Duartina, Daniela Reis Frontera, idealizou o projeto “Enxergando o futuro na ponta dos dedos”. A empresária é uma entusiasta do Braille como ferramenta para transformar a vida de deficientes visuais, e fundou a iniciativa gratuita para lecionar o sistema de escrita e leitura para pessoas com deficiência da região. 

Pontapé em Bauru 

Daniela foi diagnosticada, aos 23 anos, com retinose pigmentar, uma doença degenerativa nos olhos. Assim, sem cura ou tratamento, sua condição visual se agravou ao longo dos anos ao ponto de a impedir de dirigir e ler sem ampliação. 

Neste período, buscar um espaço que pudesse capacitá-la não foi nada fácil. Foi só em novembro de 2018 que encontrou a professora bauruense Grasiele de Moraes, que atua há dez anos em prol da pessoa com deficiência visual. 

Grasiele conta que, logo no primeiro contato, Daniela se mostrou muito interessada e perseverante em aprender o Braille. Seus principais objetivos eram voltar a ler, escrever e ajudar outras pessoas que necessitavam na sua cidade. 

“Lembro como se fosse hoje ela me perguntando se quando aprendesse poderia ensinar outras pessoas. Minha resposta foi que se ela se dedicasse e seguisse tudo que aprendeu com certeza seria capaz de ajudar outras pessoas”, conta a profissional. 

Dessa forma, com uma evolução rápida na aprendizagem, em outubro do ano passado, a aluna já estava pronta para começar seu projeto pessoal. Além do orgulho de ver a iniciativa sair do papel, a professora ainda encarou a emoção de ser convidada para ser madrinha técnica do “Enxergando o futuro na ponta dos dedos”.

“Eu me senti honrada, pois participei de todos os seus anseios e suas conquistas junto de seus amigos e familiares. Pude presenciar seu primeiro dia na apresentação do projeto e sentir a alegria das pessoas em ter a oportunidade de aprender o sistema de escrita e leitura como a Daniela e isso não tem preço. Além disso, Dani se tornou uma amiga e ver sua atuação com aquelas pessoas foi e sempre será uma marco na minha vida profissional e pessoal”, celebra Grasiele. 


Foto: Grasiele realizando uma atividade de bingo com Daniela/Arquivo pessoal

Democratizando o acesso 

A iniciativa, que antes da pandemia ocorria de forma presencial em Duartina (SP), sofreu alterações devido à necessidade do distanciamento social. Em busca de uma solução que fosse capaz de dar continuidade ao ensino, Daniela se uniu ao amigo Ricardo Barreiros e à sua professora, especialista em deficiência visual e madrinha técnica do projeto, Grasiele de Moraes.

Juntos, eles lançaram uma plataforma digital que possibilita ao interessado acessar o treinamento e material educativo, assim como receber orientação. “A aceitação dos alunos foi imediata e os resultados começaram a aparecer rapidamente. Tenho alunos de todo canto do Brasil”, conta Daniela. 

Dessa forma, o curso passou a acontecer de forma on-line e saltou de dez alunos para cerca de cem espalhados por várias localidades do país. 


Foto: Divulgação

Live solidária 

Com essa mudança para o ambiente virtual, surgiu uma série de despesas imprevistas. Entre elas, aquisição de material, assinatura de site para fazer videoconferência, Correios para envio de materiais, entre outros.

Sendo assim, para ajudar na manutenção do curso e ampliar seu acesso, no dia 22 de agosto, às 20h30, irá ocorrer a live solidária “Projeto anos 80”, com músicas da época. 

A apresentação virtual será pelo Youtube da banda, e as doações serão aceitas por meio da tecnologia QR Code, que funciona ao apontar a câmera do celular para a tela do televisor ou computador. 

A ajuda contribuirá para que pessoas como Elandio Julio dos Santos, 44 anos, de Itabaiana (SE), sejam alfabetizadas. Cego de nascença, desde criança sonhava em aprender a ler. Soube do curso on-line promovido por Daniela por um amigo de Paulínia (SP) e se inscreveu. 

“Estou no módulo três e já conheci todas as letras do alfabeto. Hoje, consigo fazer a leitura de algumas frases. Tudo está sendo uma grande novidade”, conta. Elandio mora a 57 km da capital de seu estado, o lugar mais perto onde poderia aprender Braille. 

“Nunca havia tido a oportunidade de aprender. Minha maior frustração é quando preciso assinar algum documento no banco”, conta. À frente do coral da igreja formado por 150 homens, Elandio segue sonhando. 

“Quero ser vereador. Vejo gente que é deficiente visual e que é atleta, fotógrafo. O projeto está me possibilitando o sonho de representar os deficientes visuais da minha cidade”, fala emocionado.

Serviço 

Live solidária “Projeto anos 80”

Data: 22 de agosto, às 20h30
Link: www.youtube.com

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