Cuidava com exatidão e exaustão da casa com sete filhas. Na roça, um sol assassino assinalava-lhe na suada sina a enxada, a plantação. À noite, a cama de palha, de lençol amarelado, preguiçosamente mal esticado, recepcionada interjetivas trepadas com sua mulher. Dava pra ecoar o prazer poroso do gozo. Ela, na coreografia das coxas flácidas, queimadas de um calor agreste, acolhia sua pendente escassez de pentelhos. Ela pechinchava carinhos. Ele a invadia de vontades.

O bigode ralo, cujo crescimento vigiara há meses, imprimia-lhe um ar enfadonho da vida. O andar corcundo era manifesto de idas e vindas cansadas, de travessias sem margens. Aprendera com a terra, o tempo certo da semeadura e da colheita. Aprendera com a árvore noção de pertencimento. Aprendera com a água contornar seus obstáculos. Apendera com a chuva a lição da queda. Aprendera que a mesma pedra, a qual no chão limita-se a riscar, no mar forma círculos concêntricos. Por tudo disso, uma fé vertical visitava seus horizontes. E a vida estava condenada a ser assim: obediência canina, convivência pecuária.

Tudo até o dia em que uma das meninas desmaiou. Na benzedeira mais próxima, pinhão-roxo e arruda. Atônita, pela excessiva perda de sangue, ela, agora num hospital, confessa a todos o aborto provocado com a agulha de tricô. A situação é tensa. Como se não bastasse a infecção no útero, um rim cessa o funcionamento. Sensibilizado, ele doa seu rim e seu sangue. A situação é grave! Após exames, o médico alega incompatibilidade sanguínea e o pior, renal.
Angustiado, ele questiona o profissional.

Nesse instante, a mulher, com mãos côncavas e hospitaleiras, segurando os braços do marido, o intervém, em reconhecimento ao seu esforço, dizendo-lhe:

– Essa você não pode salvar, porque essa não é sua filha.

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