Você já reparou aquele espaço plano logo acima das escadas do Parque Vitória Régia? E se tivesse uma construção ali para receber eventos e exposições? Um projeto apresentado na Unesp caminha nessa direção e planeja a ocupação da área, com um memorial para a história e cultura da comunidade LGBT+.

A ideia segue o projeto pensado pelo arquiteto do parque, Jurandyr Bueno Filho, que imaginava um teatro naquela área. Segundo o idealizador do memorial, Renan Araújo, o trabalho se conecta com o pensamento de Jurandyr, que foi o responsável por modernizar alguns espaços de Bauru

[O espaço plano] é tão inserido no parque que parece que faz parte, de que era para ser vazio mesmo. Mas não era. Então, nós decidimos fazer no Parque Vitória Régia com essa ideia de ‘bom, seria legal ter um prédio ali, que pudesse se comunicar com esse projeto antigo do Jurandyr Bueno Filho, e que pudesse praticamente “terminar” o projeto do Vitória”, comenta Renan.

Renan Araújo (Foto: arquivo pessoal) 

Mas além de planejar a ocupação do espaço, para o orientador do trabalho, Alex Suárez, o mais interessante do projeto é pensar positivamente a comunidade LGBT+. 

É dar uma visão positiva dessa comunidade, como esperança. Ninguém é bobo aqui. Nós sabemos que tem violência, intolerância, preconceito. Mas o que queremos destacar é o lado positivo. Um espaço que conte a história”, comenta.

Como seria o memorial

O prédio ficaria elevado (como o Masp na Avenida Paulista) a 7,5 metros de altura, e se configura como uma caixa. Entre 11 mil metros quadrados de área construída, a divisão seria em cinco zonas: cultural, gastronômica, serviços, circulação e área de lazer.

Nesse sentido, o complexo teria museu, biblioteca, midiateca, salas de estudo, salas multiuso, centro de pesquisa, área gastronômica, anfiteatro, varanda, jardim, uma área de convívio e uma boate, com possibilidades para usos além do tema principal. 

Portanto, seria um local para celebrar a comunidade LGBT+, mas aberto a qualquer público e evento de Bauru.

A integração é completada pelas cores neutras da caixa externa, mas com o colorido representando a cultura LGBT+ nas escadarias de acesso aos pavimentos, como um “manifesto permanente”, diz Renan.

Projeto premiado

Com essa mensagem e pensando na ocupação de espaço público, Renan já colhe frutos da ideia. O projeto foi premiado pelo Arch Daily, maior site de arquitetura do Brasil, como um dos 40 melhores trabalhos de graduação de 2020, entre 430 inscritos de países de língua portuguesa.

Por isso, apesar de acharem difícil a implementação, considerando o valor do prédio e o orçamento da Prefeitura de Bauru, eles acreditam ser importante a ideia de pensar um espaço positivo, que conte a história e cultura da comunidade LGBT+ e sirva de acolhimento para quem, muitas vezes, é rejeitado pela família. 

Para saber mais detalhes sobre o memorial, confira a entrevista com Renan Araújo e o orientador Alex Suárez.

Como surgiu a ideia de criar o memorial LGBT+ no Parque Vitória Régia?

Renan Araújo: Eu tinha três ideias para poder fazer meu TFG, o Trabalho Final de Graduação, que é o nosso (Trabalho de Conclusão de Curso). Eu tive três ideias, um abrigo de animais, um museu da cultura nordestina, ou um abrigo para pessoas LGBT+ expulsas de casa. Além disso, eu queria trabalhar com revitalização de patrimônio, que é uma coisa que gosto bastante, então a ideia era fazer o abrigo em um dos hotéis no Centro. Conversando com o Alex, ele gostou bastante da ideia da temática LGBT+, mas ele achava que seria mais interessante trabalhar com a questão museológica, preservação da cultura. Com o andamento do trabalho, chegamos a conclusão de que mexer com o patrimônio fosse limitado, porque teria que seguir muitas regras de tombamento patrimonial. Então, decidimos fazer um terreno do zero e fazer algo voltado para as pessoas LGBT+, mas algo voltado para cultura LGBT+, como um centro cultural. Aí o tema do trabalho nasceu dessas conversas. 

Alex, você como orientador do projeto, o que te chamou a atenção nesse trabalho?

Alex Suárez: Fora a seriedade do Renan na realização do trabalho, era a ideia de não fazer um lugar que tivesse mensagens negativas associadas a essa minoria. Por exemplo, você tem doenças associadas a essa minoria, e por isso existem vários centros que distribuem medicamentos, ou com orientação psicológica. Então, uma coisa que nós conversamos, era assim: vamos criar um lugar que seja positivo, que seja uma memória positiva. Todo mundo está sujeito a doenças, não só essa comunidade. Então, esse espaço que o Renan criou, não tem nada disso. É uma cultura e vamos mostrar o que tem de bom nessa cultura, e o Renan topou fazer isso. 

Nós temos muita memória negativa de assassinatos, de violências. É uma coisa absurda, por exemplo, se você for homossexual, for xingado na rua, e às vezes você não tem proteção em casa contra isso. É muito difícil que o preconceito acontece, e às vezes dentro da família. Por isso, esse espaço não tem referências negativas, e sim positivas. É um espaço positivo, alegre e feliz. Além disso, o que o Renan projetou também, é um centro de pesquisa. Então tem várias salas de pesquisa, para entender a cultura. 

Quais foram as inspirações diretas e indiretas para o projeto?

Renan: Depois que eu e o Alex combinamos que não mexer com patrimônio, ele sugeriu fazer no Parque Vitória Régia. E eu não tinha me atentado até então, morando em Bauru há tanto tempo e frequentando o Vitória Régia, não tinha me atentado que tem um platô [terreno plano] no meio do Parque que não é usado. Ele é tão inserido no parque que parece que faz parte, de que era para ser vazio mesmo. Mas não era. Tem uma pesquisa que fala sobre pontos turísticos e fala sobre o Vitória Régia, que é um projeto do Jurandyr Bueno Filho, um dos principais arquitetos responsáveis por modernizar Bauru. Ele, em cima daquele platô, tinha previsto a construção de um teatro fechado que ia ter uma comunicação subterrânea com a arquibancada de concreto. Então, nós decidimos fazer no Parque Vitória Régia com essa ideia de ‘bom, seria legal ter um prédio ali, que pudesse se comunicar com esse projeto antigo do Jurandyr Bueno Filho, que pudesse praticamente “terminar” o projeto do Vitória. 

E considerei também a questão da cultura LGBT+ de Bauru. Durante a parte teórica, eu fiz as pesquisas, e me atentei em ir atrás das lideranças de minorias de Bauru. Eu fui atrás da Associação Bauru pela Diversidade [ABD], da Comissão da Diversidade Sexual da OAB em Bauru, conversei com o Marquinho da Diversidade e também com o Rafael Botta, diretor do documentário Como Somos, em Bauru. Perguntei sobre as necessidades deles, do que gostariam de ter nos espaços, caso houvesse um totalmente voltado para a cultura LGBT+. Conversando com eles, eu vi que o Parque Vitória Régia tem uma importância para o movimento da cidade. A Parada da Diversidade em Bauru encerra lá. E como a parada termina no parque, e tem a montagem de palcos para shows, reforça o uso do espaço. Decidimos então fazer um centro LGBT+, sobre a cultura, e como centro de pesquisa das minorias sexuais no Parque Vitória Régia, como uma espécie de um espaço para coroar, não só a parada que ocorre anualmente, mas reforçando como parte da cultura LGBT+ local. Então, essas foram as influências indiretas. 

Sobre as influências diretas, arquitetonicamente dizendo, nós fomos ver se existiam outros espaços assim. Encontramos um centro da diversidade sexual do Canadá, mas que não existe fisicamente. Fui elencando os pontos que o centro canadense colocou no projeto, e aí eu fui colocando no papel, e pensei ‘bom, eu vou partir desses pontos’ para começar a construir o meu espaço. Uma coisa que eu e o Alex conversamos, é que mesmo que não tenha nada no platô, lá acontecem diversas atividades. Portanto, colocamos como diretriz que teria que ser elevado. O prédio não poderia ocupar o platô. 

E é até engraçado. No meu projeto, em nenhum momento eu cito Lina Bo Bardi, mas um professor na banca de avaliação disse que encontrou várias referências a ela. O meu projeto é elevado como o Masp, porque segue o mesmo problema de manter o térreo livre. Ele também viu que as rampas lembram as passarelas do Sesc Pompeia. É interessante ver como estava no meu subconsciente de soluções. 

Alex: Só para complementar, portanto, o trabalho do Renan era o desejo do idealizador do Parque Vitória Régia. Ele pensava um teatro lá em cima, que ocuparia aquele espaço. Mas nós atualizamos a ideia. Como esse espaço hoje em dia é usado em festas cotidianas, nós pensamos que precisava elevar o prédio para que as atividades continuassem acontecendo. Uma das coisas, por exemplo, é que a Parada da Diversidade termina com um trio elétrico passando por lá. Então assim, com o prédio elevado, o trio elétrico vem, entra na praça e dentro do prédio. Nós trabalhamos junto ao projeto do Jurandyr, mas atualizando e adaptando para a atual realidade de Bauru. 

Qual é a importância de existir um espaço com esse objetivo? 

Alex: Esse trabalho do Renan é inédito! Eu oriento trabalhos finais há 30 anos, então já orientei mais de 120 projetos. E assim, é a primeira vez que apareceu esse tema. E é tão óbvio que é um tema interessante. E assim, é um projeto positivo. O projeto tem um museu permanente, que conta a historia desde a Grécia, do tempo da inquisição, e de como surgiram os movimentos do orgulho LGBT. Então assim, o estudo é inédito e foi surpreendente saber que não tem um prédio desse no mundo. Pode ter algum dedicado a questões sexuais, mas não de gênero. Não tem no mundo inteiro. E eu acho que o Renan conseguiu fazer uma abordagem apropriada. Uniu a questão local para uma questão que é mundial. Então, o projeto dele atende Bauru, mas também atende o país, até fora do Brasil.

E sobre o espaço, como ele é estruturado, dividido? Quais são as especificações dele?

Renan: Eu fiz um prédio que pudesse abranger as áreas de arte, cultura, lazer, pesquisa, e que também pudesse fornecer para a cidade um setor gastronômico e um ambiente de estudos. Portanto, eu peguei todas essas temáticas e dividi em cinco zonas. Então teria uma cultural, uma gastronômica, uma de serviços, a circulação do prédio, e a área de lazer e de convívio. É um prédio bem grande. O prédio fica elevado há uns 7,5 metros de altura e se configura como uma caixa, de 70×40 metros. Se você for contar a área construída, todos os pavimentos, inclusive com o subterrâneo, ele daria um projeto de mais de 11 mil metros quadrados de área construída. 

E ele seria basicamente assim. No primeiro pavimento: museu e biblioteca. Eu coloquei assim para que as coisas mesclarem. O segundo andar seria todo um complexo onde você teria uma biblioteca, uma midiateca, salas fechadas de estudo, salas multiuso, porque eu também imaginei que esse complexo poderia ter salas para diversas atividades, mesmo que não seja ligada ao tema LGBT+. Por exemplo, um professor pode marcar aulas, palestras lá. Então, é um espaço voltado para comunidade LGBT+, mas eu não queria que fosse um espaço só de uso da nossa comunidade. É um espaço que serve à cidade. 

Enfim, o terceiro pavimento é onde vai se concentrar o centro de pesquisa LGBT+, com espaço para associações locais. E em relação à cultura, além do museu e da biblioteca, como eu disse antes, a parte subterrânea seria todo um complexo do anfiteatro. E no último pavimento, eu coloco uma varanda, com um jardim, para que fosse de convívio. E eu coroo esse prédio todo com uma boate, com uma balada LGBT+, pois está relacionado com a história, com o movimento, com a cultura, com o lazer. E esse fecharia assim o complexo do prédio. 

A linguagem visual do prédio é muito neutra, porque ficamos nessa discussão de que se fosse um prédio totalmente colorido, poderia cair em um estereótipo. Demoramos bastante para pensar nisso. O que decidimos: o projeto  seria neutro, mas o acesso principal, que é a rampa, seria colorida, como um manifesto permanente.

Acredito que a resposta anterior contempla essa pergunta, mas eu queria saber do Alex, como foi essa decisão de ser também um espaço para o público em geral usufruir do complexo?

Alex: Olha, a conversa que tive com o Renan, era o seguinte: esse espaço vai servir a essa comunidade, mas também vai servir à cidade. Então, como o Renan falou, vai ter salas que podem ser alugadas, exposições, museu fixo, mas tem também áreas de exposição abertas que podem atender qualquer solicitação da cidade. O espaço que tem lá embaixo, dá para fazer uma festa do orgulho LGBT+, mas também é possível fazer festa junina, chegada do Papai Noel, festa das nações, aniversário da cidade. Tem muita gente que gosta de ir ao Sesc Bauru, mas é uma coisa da indústria paulista. Você vai lá é diz ‘Nossa, a indústria fez isso, deu isso para a gente’. Então, o que o Renan projetou seria a mesma coisa. É doar um espaço cultural para a cidade, um espaço positivo, diversificado. 

Vocês foram premiados no ArchDaily Brasil (o site de arquitetura mais visitado do mundo). Como foi receber essa notícia?

Renan: Nossa, não que eu estivesse menosprezando a qualidade do meu trabalho, eu me dediquei muito. Mas a Arch Daily, desde 2016 faz essa chamada para TCCs. Eu acompanhando os projetos que eram postados, eu via que eles premiavam sempre soluções urbanísticas, revitalização de vias e de espaços que estão inutilizados na cidade. Fiquei muito contente e fui pego de surpresa porque saiu uma semana antes, e eu não estava esperando. Acordei com essa notícia e com mensagens de parabéns das minhas amigas. Eles recebem trabalhos de países lusófonos, então recebem de Portugal e Moçambique, por exemplo. Então, saber que eu fui um dos 40 escolhidos, 430 inscritos, eu fiquei muito contente mesmo. Se fosse no dia certo, eu acordaria já entrando no site, atualizando para ver. Mas como eles fizeram uma semana antes, é muito mais emocionante receber essa notícia assim inesperada. 

Vocês já pensaram em implementação? É viável, já conversaram com alguém do poder público?

Alex: O TFG é muito cativante. Sempre que você termina, você pensa em pôr em prática. Eu estou incentivando o Renan a procurar todo mundo. Agora, quando estávamos fazendo o projeto, eu falei para o Renan não se podar pela realidade econômica do Brasil. A Prefeitura de Bauru, por exemplo, não tem grana para construir esse complexo, por mais que seja interessante em termo de cultura para a cidade. O que eu falava para o Renan era ‘Oh, pensa em um magnata dos Estados Unidos, da Europa que estava afim de fazer um lugar positivo’ (risos). Então, nós inventamos um grupo que investiria nisso para o projeto não ficar acanhado. Mas assim, eu acho que, talvez, se aproveite alguma coisa desse projeto, por exemplo o museu de história dessa comunidade. Ou o centro de pesquisa. Ou um lugar de festas no platô do parque. Pela realidade de Bauru, é pouco provável a construção Mas se tivesse verba nacional ou internacional, alguém que tivesse afim de investir em um projeto positivo, seria um bom projeto. 

Renan: Como o Alex disse, nós idealizamos como ‘vamos supor que realmente a cúpula internacional LGBT+ vai juntar todo mundo e fazer um projeto’. Tem uma frase que eu gosto muito, que é do Centro LGBT+ do Canadá, que diz assim: ‘Nada é mais importante que a nossa história, então agora é o momento de reconstruir uma casa’. Eu acho realmente importante ter uma casa para a história LGBT+, e por isso pensamos em construir um espaço que seja digno de abraçar toda essa história. 

Para encerrar, querem fazer alguma consideração final sobre o trabalho?

Alex: Uma das coisas que eu acho muito legal nesse projeto é dar uma visão positiva dessa comunidade, dar uma esperança. E aí dá para fazer o museu, um centro de cultura, dentro de uma discussão positiva. Queremos colocar para a comunidade bauruense um pouco do que foi discutido nesse projeto, que é esse lado positivo da comunidade. Combinei com o Renan que não teria nada de tristeza, de ser perseguido. É algo alto astral. Assim, no trabalho do Renan ele comenta sobre o caso da Mirela da Silva.

Renan: Em 2017, Bauru teve esse caso. A Mirella da Silva era uma travesti, e foi um caso de agressão, assassinato, muito brutal. Ela foi parar na UTI praticamente desconfigurada, e não sobreviveu. Essa história me comoveu, então eu dediquei o meu trabalho inteiramente a ela. Tanto que o nome do prédio seria ‘Complexo Cultural Mirela da Silva’. Quem sabe as pessoas apelidariam de Mirellão, tipo ‘Ah, vamos ao Mirelão’. (risos). 

Alex: Então, ninguém é bobo aqui. Nós sabemos que pode trás disso tudo, tem violência, intolerância, preconceito. O depoimento no trabalho do Renan é para situar. Mas o que queremos destacar é a coisa positiva, de esperança. Um espaço que conte a história. Para que um rapaz de 14, 15 anos, que pode ser massacrado pela família, não pense em suicidio, que é muito comum. E que ele tenha um lugar que ele fale ‘Olha, tem heróis, pessoas da nossa sociedade, que são LGBT+’. Essa trabalho que o Renan desenvolveu com a minha orientação pode gerar boas ideias. Quem sabe sai um frutinho.

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