Os funcionários não são preparados para atender mulheres e homens trans, começando por ser chamado pelo nome na identidade, e não pelo nome social. O atendimento médico muitas vezes é feito por um médico, e mulheres trans e travestis se sentem mal em ficar nuas perto de um homem. É um constrangimento muito grande”.

O relato acima é de Luana Leon Precidone, 56, mulher trans nascida em Bauru, mas poderia ser feito por qualquer pessoa transexual e travesti no país. Segundo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), no Brasil, 90,3% destas pessoas já foram discriminadas e metade já sofreu agressão física.

Essa realidade está refletida no atendimento médico. Pensando nisso, a Prefeitura de Bauru inaugurou no fim do ano passado um ambulatório específico para atender trans e travestis da região, um dos poucos no estado. 

Como disse o secretário de saúde na época, Dr. Sérgio Antônio, é uma forma de garantir acolhimento. “Não é só para tratamento hormonal, mas de assistência à saúde. Um atendimento clínico com dignidade, humanizado e acima de tudo acolhedor. Hoje estão tendo um lugar que deveriam ter a muito tempo”.

Luana comemora a chegada do ambulatório. “Vem ao encontro de uma luta de anos, e fará com que diminuam medicações feitas clandestinamente. Com certeza, vai diminuir o índice de homens e mulheres trans que contraem outras enfermidades por tomar remédios sem receitas e de maneiras ilícitas.”

Por que um ambulatório especializado para trans e travestis?

Segundo a diretora das unidades ambulatoriais da Secretaria de Saúde, Lucila Bacci, o ambulatório responde a pedidos do público. “As pessoas trans e travestis têm dificuldades de acessar direitos sociais, e ficam receosas em procurar cuidado na área da saúde. Por isso reivindicaram por muitos anos um local mais humanizado, acolhedor”.

Por isso, o órgão ouviu o público-alvo. A implantação do ambulatório contou com a participação de pessoas trans e travestis que utilizavam o Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), reuniões com gestores de saúde e uma visita técnica a São José do Rio Preto, cidade que possui o serviço há 12 anos.

Antes do ambulatório, estas pessoas tinham dificuldade em acessar até mesmo a atenção primária de saúde. Muitos também realizavam a hormonização por conta própria e de forma não apropriada, correndo risco de desenvolverem doenças como trombose, câncer do fígado, ou mesmo um AVC”, completa Bacci.

Uma pesquisa americana de 2020 mostra como metade das pessoas trans e travestis possuem problemas como depressão e ansiedade. Mesmo assim, são menos propensos a buscar atendimento de saúde, devido aos maus-tratos.

A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) alerta para o exame de próstata em mulheres trans, que muitos esquecem. Ou seja, acolher e passar conhecimento também é uma questão pública.

Nesse sentido, o espaço serve para promover a saúde em geral de um público discriminado pela sociedade e, em alguns casos, até pela família.

Como funciona

O Ambulatório funciona no Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), no Centro de Bauru, apenas às segundas-feiras, das 17h às 21h. Além da avaliação e acompanhamento, o local disponibiliza atendimento ginecológico, urológico, psiquiátrico e endocrinológico.

Além disso, também dá suporte para quem precisa fazer a hormonioterapia (tratamento com hormônios), inclusive com a distribuição de remédios em alguns casos. O serviço garante mais segurança a trans e travestis, considerando que muitos fazem a abordagem sem acompanhamento médico adequado.

A equipe é multiprofissional, composta por assistente social, psicólogo, médicos e enfermeiros. “Os profissionais, mesmo possuindo vivência com a população alvo, passaram por cursos e treinamentos para aprimoramento do serviço oferecido”, garante Lucila.

Os pacientes podem ser encaminhados por meio de outras unidades de saúde ou podem agendar um atendimento direto no CTA.

Serviço
Ambulatório de Assistência a Saúde de Pacientes Travestis e Transexuais de Bauru
Endereço: No CTA, Rua Quinze de Novembro, nº 3-36, Centro.
Horário de funcionamento: Às segundas-feiras, das 17h às 21h.

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