Muito se fala neste início de século de transformações nas relações interpessoais, que aponta para relacionamentos frios, vazios, superficiais etc. Este fato advém, muitas vezes, incentivado pelas tecnologias avançadas, que nos impelem a nos relacionar muito mais digitalmente do que presencialmente. Embora possa ser maior a frequência, a qualidade desses relacionamentos, em grande parte dos casos, tende a ser precária, motivada por um modismo desprovido de calor humano, superficial e que pouco toca o coração das pessoas.

As mídias sociais incentivam diálogos com expressões monossilábicas e frívolas, que não conseguem tocar o âmago do ser humano, tão pouco proporcionam condições para se fazer aquele vazio para escutar, do outro, os seus problemas, as suas angústias, suas aspirações, suas necessidades, seus sonhos ou pesadelos.

Nos dias atuais quase não se vê, por mais de uma razão, vizinhos sentados em frente às suas casas, conversando sobre os mais diversos assuntos, se conhecendo, fortalecendo as amizades, construindo pontes de relacionamento, tais como nos tempos de nossos pais. É mais frequente as pessoas sentarem a uma mesa e ficarem imotos conversando através dos celulares. Assim, fica cada vez mais difícil construir e consolidar amizades verdadeiras, robustas, saudáveis e valiosas.

Neste sentido, eu e minha família temos que agradecer a Deus por diversas amizades que conseguimos edificar, que nos enchem de alegria e espírito de gratidão. Uma delas teve início nos anos 1970-80, quando tivemos a oportunidade de conhecer o médico pediatra Dr. Clóvis Celulare e sua esposa Gilsara. Anos depois chegariam Débora, Natália e Pedro Henrique, seus filhos.

São mais de 40 anos que consolidaram a fraterna e viripotente amizade de nossas famílias, como se fossem mesmo consanguíneas. Meus filhos os chamam de tios e o mesmo acontece com seus filhos em relação a mim e Lucia. Mais do que esta sincera manifestação, há uma relação de amor recíproco consolidado pelos diversos momentos, alegres e tristes, que esta vida nos propiciou ao longo dos anos.

Mas, a pandemia que assola o mundo todo, que nos coloca em cheque a cada momento, sentenciou-nos a suportar uma das maiores tristezas já vividas: ela carregou o nosso querido amigo Clóvis para os braços do Eterno Pai celeste. Claro que a formação cristã nos permite acreditar piamente na chegada do amigo à casa do Pai, para desfrutar a vida eterna.

Nem por isso diminui a nossa tristeza da separação, ainda mais por que ela ocorreu de uma forma tão rápida que não nos permitiu assimilar este fato doloroso.

Clóvis foi o médico pediatra dos meus filhos, dos meus sobrinhos e dos filhos dos meus sobrinhos. Parece que ainda é muito viva a imagem do Clóvis, com aquele sorriso característico, trazendo os bebês recém-nascidos, enrolados nos cueiros, para nos apresentar. Quantos momentos em que o amigo teve participação precisa e vital na manutenção da saúde e vida de meus filhos! Ah! Houve momentos de grande apreensão e angústia, de sofrimento e dor, mas Clóvis sempre nos aconselhou e agiu de forma precisa no caminho da plena superação. 

Assim como o amigo sempre nos atendeu com o maior amor e carinho possíveis, ele o fez com dezenas, centenas de crianças e famílias da nossa Bauru. Sua visão da medicina era muito transparente e sensível. Isto fez com que a alegria se manifestasse naquelas pessoas atendidas em seu consultório, bem como no Centrinho.

Tantos adjetivos já foram sobejamente expressados por uma infinidade de pessoas que conheceram Clóvis, seus colegas médicos, enfermeiros, pacientes, pais, funcionários do Centrinho, que seria redundante a sua nomeação. Ele teve como virtudes tudo o que foi falado e escrito, e ainda mais.

Clóvis foi um ser humano que tinha na família o seu maior tesouro. Creio que a recíproca também é lídima. Como foi belo vivenciar o relacionamento dele com os seus familiares. Mas também com todos aqueles que com ele convivia mais amiúde.

Só nos resta agradecer ao amigo pelos dons que Deus o agraciou e que Clóvis colocou à disposição da comunidade de Bauru. Ele fará muita falta a tanta gente. Mas tenho certeza de que no céu, junto com são Lucas, glorioso médico e apóstolo, estarão cuidando das crianças celestes.

Taylor Caldwell precisou de 46 anos para escrever o livro “Médico de Homens e de Almas”, que trata da vida de São Lucas. A biografia de Clóvis certamente tomaria alguns anos para colher toda a preciosidade dos fatos, fruto dos seus relacionamentos com a família, amigos e pacientes.

Fica para nós o seu grande legado. A medicina profundamente humanizada praticada por Clóvis, com amor particular, de maneira profissional, ética, foi voltada para ajudar as pessoas. Atendeu a tantos para preservar a saúde de todos, agindo sempre com o máximo de zelo e no melhor de sua capacidade profissional. Estes fatos, pude vivenciar e foram igualmente narrados por muitos. 

Obrigado, amigo Clóvis, a sua vida valeu a pena!

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