A terceira margem do Rio Bauru porque não é a primeira – de onde o barco parte – ou a segunda – por onde o barco chega. A terceira margem porque não é isso ou aquilo, ela simplesmente não é, e sim, ela está. Está por onde? A princípio, a terceira margem está no próprio rio. Submersa. Ninguém conhece uma pessoa que já viu, com os próprios olhos, uma vontade propriamente dita. A terceira margem é uma vontade. Nós não vemos ou capturamos, nós sentimos de supetão. A terceira margem é a vontade do rio. E a vontade do Rio Bauru é a vontade de correnteza, vontade de aumento, vontade de encaixe. É uma sede de liberdade: crescer, espairecer, criar, fundir, gerar, brilhar, cair e desmanchar.

Viram nas Nações as margens rápidas. As margens muito rápidas. Margens que não são de cá ou de lá. Margens que nunca são, mas estão. Estão com a liberdade do movimento. Estão para a fluidez. Estão por toda a parte, estão as margens do Rio Bauru para além do rio. Margens fluidas que se encaixam perfeitamente para dentro da avenida como um líquido assumindo a forma de um recipiente: tapando buracos, entupindo bueiros, elevando bocas de lobo e formando uma massa única. Como se do outro lado da cidade, no sambódromo, uma escola de samba reunisse toda a sua bateria que uníssona ressoaria, pelos quatro cantos, um belo samba para o Rio Bauru desfilar na Avenida Nações Unidas.

Um samba de amor para transbordar. De amor na cidade. Samba urbano, mas com um toque de natureza. A mistura de rio com asfalto que mexe com a gente. Sem lenga-lenga. Um flerte fatal. Um sentimento que não coube e procura diariamente por mais espaço. Quer correspondência. Um rio que se apaixonou por avenida. Um rio e uma avenida. Porque o rio quer ser cidade. O rio tem nome de cidade, são homônimos. Estão confusos e se confundem. O rio quer a cidade ilimitadamente. Como se derrepenguente todas as moléculas do rio vibrassem por um instante por uma mesma causa: abraçar a avenida. Tomá-la por completo, um sossego delirante de se aconchegar no asfalto, como quem deita no colo para descansar um pouco ou dormir.

Se esse texto tivesse asas para a imaginação, poderíamos dizer que o Rio Bauru quer ser a cidade debaixo d’água, a ponto de ter uma grande Vitória Régia boiando e girando em uma das suas principais avenidas. O Rio Bauru cansou de subir aos céus para descer devagarinho. A chuva não garante a transposição. O Rio Bauru canta a cidade submersa e transpõe a sua vontade: a cidade imersa pelas águas, a cidade imensa, cada casa banhada por um sonho bom, e cada cidadão mergulhado no suco de vidro com terra e outros objetos que jogaram no rio. O resto são histórias de pescadores.

Caso fôssemos transpor o Rio Bauru para esse texto, falharíamos na primeira palavra: assim o rio não respeita as margens da página não sabe onde a linha começa nem onde a linha termina ele simplesmente mente corre corre sem limites entre as palavras nem repara se chove letra consoante vogal sílaba ele esquece a margem ele quer correr pra ver se encontra de uma vez a avenida na outra ponta para repousar um repouso batuta elegante confortável como a ideia repousa na palavra e a palavra repousa no texto que guarda e fala do rio desse mesmo texto onde o rio não cabe e transborda o texto que é meio meio devagar e é interrompido rompido pelo rio que rápido passa pelo meio e quer ver a avenida unida vida e as nações unidas vidas todas pelas águas do rio que enche cada buraquinho com água e água e dorme.

Rio Bauru, me ensina essa vontade de correnteza: que eu te ensino a namorar.

Esta foi a estreia de Sinuhe LP como colunista no Social Bauru, confira outras colunas aqui.

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