Nos tempos de minha infância e adolescência era comum que a garotada ficasse pelas calçadas e ruas envolvida em diversas brincadeiras: pega-pega, bets, queima, esconde-esconde e, não poderia deixar de ser, o futebol. Bastava demarcar as traves com quatro tijolos, uma bola, e a situação estava resolvida.

Tudo transcorria na maior tranquilidade, a não ser quando a bola caia no jardim de algum vizinho estressado ou acertasse a vidraça de alguma casa, aí chapa esquentava. Muitas vezes, tínhamos que correr e nos esconder da viatura do juizado de menores. Mas, não só desses acidentes triviais marcavam nossos jogos de rua.

Em um final de tarde ensolarada de uma quinta feira, no dia 5 de outubro de 1967, um grupo de garotos, do qual eu fazia parte, estava praticando o seu esporte preferido na quadra 17 da rua Eng. Saint Martin, onde eu morava. A peleja estava animada e, como sempre muito disputada. Ninguém se satisfazia com o resultado que não fosse a vitória.

O ronco de motores ocorria esporadicamente, pois o fluxo de automóveis era pequeno na via e naquele tempo. Por volta das 17 horas, no entanto, ouvimos um ronco de motor pouco comum e logo desviamos nossos olhares aos céus, era forte e muito próximo, vindo de cima. Embora o aeródromo ficasse localizado não muito distante dali, as aeronaves passavam sempre em maiores altitudes e os roncos não chegavam a chamar a atenção.

Num relance, uma aeronave passou voando muito baixo sobre nossas cabeças. Eu gritei: “esse avião vai cair!”. Dito isto, poucos segundos se passaram, ouvimos um forte estrondo e logo um charuto de fumaça preta ganhava os céus dos Altos da Cidade. Saímos correndo para verificar o ocorrido; procurando a origem da fumaça, subimos a rua Eng. Saint Martin até a altura da rua Aviador Gomes Ribeiro. Logo encontramos os destroços do pequeno avião, após ter-se chocado contra um poste de energia elétrica e duas residências na rua Casimiro Onofrilo, quadra 1. Esta via tem somente duas quadras e a sua largura é de cerca de seis metros.

A aeronave, um Cessna 172, possui o recorde de produção como aeronave mais fabricada no mundo, com mais de 44 mil exemplares e até hoje ainda é fabricada. Sua fabricação é americana e iniciou-se em 1956. O avião acidentado era de propriedade particular, com capacidade de transportar quatro pessoas. O voo tinha como origem a cidade de Araçatuba.

Nós, os “atletas” visivelmente assustados, nos deparamos com uma cena forte, inédita e chocante demais para aquela época. Dentre os diversos pedaços de fuselagem retorcidos e fumegantes, no meio dos destroços das casas, poder-se-ia constatar a presença de dois corpos que jaziam inertes na calçada. Outros dois passageiros morreram também. Uma tragédia para aqueles tempos. O Diário de Bauru, no dia seguinte, estampava a seguinte manchete, em letras garrafais: “Tragédia veio do céu: avião caiu matando 4”.

Mas, Bauru, uma das cidades mais proeminentes em relação às proezas aeronáuticas de seus filhos ilustres (Ozires Silva, Marcos Pontes, Benedicto Cesar, Kurt Hendrick, dentre outros), capital do voo à vela, também possui registro de vários acidentes aéreos. O da rua Casimiro Onofrilo foi um dos primeiros e mais marcantes.

Outros tantos aviões de pequeno porte e planadores já aqui se acidentaram. Não nos esqueçamos daquele que, provavelmente tenha tido repercussão nacional: a queda do Fokker MK 60, da TAM. A aeronave fazia a rota São Paulo – Cuiabá e realizou um pouso forçado em um terreno vazio, próximo à pista, depois de uma tentativa frustrada de pouso no aeródromo de Bauru. O avião atingiu casas e um automóvel que conduzia duas pessoas, as vítimas fatais do acidente.

Enfim, estes são aspectos associados a uma cidade pujante e com movimento expressivo de aeronaves comerciais, executivas, de treinamento, planadores, grande movimentação no Aeroclube, campeonatos de voo à vela etc. Vale ressaltar, no entanto, que o transporte aéreo é o modo mais seguro que existe, principalmente, o transporte regular, cerca de 200 vezes mais seguro do que o transporte rodoviário. Pode-se viajar de avião tranquilo nas próximas férias após a pandemia. Com a graça de Deus.

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