Mais de 16 milhões de casos de hanseníase foram diagnosticados nas últimas três décadas no mundo. Desse total, 202.256 foram registrados em 2019, dos quais 28 mil foram notificados no Brasil. As informações, que indicam a expressividade da doença, integram o mais recente Boletim Epidemiológico sobre Hanseníase publicado pelo Ministério da Saúde, de janeiro de 2021, e o documento “Rumo à Hanseníase Zero. Estratégia Global para a Doença de Hansen. 2021-2030”, recém-lançado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Apesar do alto número de casos, a literatura médica que trata de seu impacto sobre as células dos tecidos humanos ainda é reduzida. Muito se deve ao fato da hanseníase ser considerada uma doença altamente incapacitante, por comprometer nervos periféricos, olhos e pele, muitas vezes, de forma irreversível, gerando deformidades.

Para médicos clínicos, o parco referencial documental a respeito da ação da hanseníase nos tecidos humanos pode ser um elemento complicador na compreensão da natureza, gravidade, extensão, evolução e intensidade da doença, dificultando o diagnóstico e tratamento.

10 anos de pesquisa e registros inéditos

Reunindo essas informações, o livro “Histopathological Diagnosis of Leprosy” (em português, Diagnóstico Histopatológico da Hanseníase), foi lançado pela editora global Bentham Books, com sede nos Emirados Árabes Unidos. O objetivo é documentar, de forma inédita, mecanismos de ação do bacilo causador da hanseníase em tecidos e células do corpo humano. Além de contribuir para o diagnóstico da doença e seus mecanismos fisiopatológicos, evitando a atual subnotificação.

O responsável por essa contribuição mundial, e relevante do ponto de vista científico, é o médico patologista de Bauru, Cleverson Teixeira Soares. Ele é membro do Centro de Estudos do Hospital Unimed Bauru (CEHUB), integrante da equipe do Instituto Lauro de Souza Lima, centro referência mundial em hanseníase pela OMS, e do Laboratório Anatomed.

O livro é resultado de 10 anos de pesquisa, produção, catalogação e análise de imagens microscópicas de pacientes com hanseníase. São 270 páginas, compostas por mais de 1.000 fotografias, distribuídas em 200 painéis temáticos, que documentam, de forma didática e muito detalhada, o que é a doença, sua evolução, tipos e raros casos de regressão e reaparecimento.

Contribuição para a saúde mundial

Já a decisão por realizar a obra deve-se ao interesse em contribuir para o diagnóstico da doença, definida por Soares como altamente complexa.

“Do ponto de vista clínico, a hanseníase simula muitas doenças infeciosas, como a sífilis, e inflamatórias, como o lúpus. Há muitos casos tratados como neoplasias, quando, na verdade, são de hanseníase. Isso acontece no Brasil, na Índia, em grande parte da Ásia e África e em países desenvolvidos, como na Europa e nos Estados Unidos, que tem registrado cerca de 150 casos de hanseníase por ano. Apesar de o número de casos ser reduzido por lá, o prognóstico continua sendo difícil”, explica Soares.

Reunir o conhecimento histopatológico, que é o estudo microscópico dos tecidos doentes, pode auxiliar na reversão da subnotificação da doença no mundo. “O livro, ao agrupar de forma didática imagens de alta resolução e com técnicas de histopatologia que identificam com precisão os tecidos lesionados pelo bacilo e seus mecanismos de ação, pode contribuir para a melhor compreensão sobre a hanseníase”, afirma Soares.

Tal percepção motivou a decisão por redigir os conteúdos em linguagem simples e direta. Assim, favorece o acesso a patologistas, clínicos e pesquisadores, bem como estudantes de medicina e demais profissionais da área de saúde que atuam com hanseníase.

Outra escolha envolveu escrever o livro em inglês, de forma a atingir profissionais médicos do mundo todo. “O inglês é o idioma oficial da área de patologia e lido na grande maioria dos países. Ao optar por essa língua, acredito que a obra se torne acessível a mais profissionais. A hanseníase, dada a sua complexidade, talvez nunca seja erradicada, mas é possível atenuar seus efeitos se o diagnóstico for realizado de forma correta, permitindo o rápido início do tratamento do paciente”, conclui Soares.

O livro “Histopathological Diagnosis of Leprosy” pode ser adquirido no site da editora Bentham Books: benthambooks.com.

Doença é a mais antiga do mundo

A hanseníase é considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como a doença mais antiga do mundo. É conhecida há mais de 4.000 anos no Japão, China, Egito e Índia, com relatos registrados em papiros egípcios e chineses, bem como na Bíblia.

Causada pelo bacilo Mycobacterium leprae, que ataca células da pele e dos nervos periféricos, a hanseníase pode se estender a olhos, rins, glândulas suprarrenais, testículos, fígado e baço, provocando perda de sensibilidade, atrofias e paralisias musculares.

Dada sua gravidade e o fato de sua transmissão ocorrer pela respiração a partir do contato prolongado com pacientes ainda não tratados, de acordo com a Sociedade Brasileira de Dermatologia, a hanseníase integra a Lista de Notificação Compulsória de Doenças, Agravos e Eventos de Saúde Pública do Ministério da Saúde.

A doença também faz parte do Objetivo 3 da Agenda de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), que trata do bem-estar e da vida saudável, tendo como meta o combate às epidemias de doenças transmissíveis até 2030. A hanseníase é considerada endêmica nas regiões das Américas, África e Ásia. O Brasil é o segundo país em notificações, atrás apenas da Índia.

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