“Recebi uma encomenda de uma amiga que pediu meu quibe cru e minha coalhada. Depois que entreguei, ela falou que começou a chorar… porque na hora que abriu o pote do quibe veio o cheiro da cozinha da casa da vó dela”.

Essa frase que você acabou de ler foi dita pela Ana Carolina Antonio, mais conhecida como Carol, enquanto conversávamos por videochamada, um dos únicos modos de manter contato saudável em tempos pandêmicos.

Carol é uma mulher de 44 anos de idade e tem cabelos curtos, escuros e cacheados. Durante nosso encontro, ela usava um óculos de armação marcante e grossa, mas que não me impedia de ver seus olhos marejados ao compartilhar essa e outras “memórias impagáveis” sobre a sua relação ao ato de cozinhar e com Adma Gabriel Antonio, avó materna e inspiração de vida.

Comida afetiva é um dos legados de Adma

Conversando com ela e outras pessoas, e lembrando dos dias ao lado da minha avó materna (um beijo, vó! Te amo muito daqui até aí!), percebi que nossos avós são capazes de transformar receitas simples em pratos majestosos que transportam qualquer adulto de volta à infância. Esse “poder mágico”, também conhecido como “comida afetiva”, é resultado de uma relação de amor, cuidado e afeto construída ao longo de anos entre netos e avós dentro de uma cozinha.

Moldando um quibe imaginário com as mãos, Carol fecha os olhos de modo profundo, abre um sorriso singelo e compartilha o jeito que Dona Adma fazia o alimento durante as tardes em que passava na casa dela depois da escola.

“Ela punha a massa na mão, ela punha o dedo na massa e ela ia moldando… e então ela fechava e ele ficava oco por dentro. Hoje, muita gente faz quibe recheado. Ela não fazia. Me dá água na boca. Se eu fecho os olhos, Yasmin… eu lembro do cheiro e do sabor do quibe dela, sabe? É maravilhoso lembrar disso”, fala ao abrir um sorriso largo.

Carol Antonio (Foto: Arquivo Pessoal)

Adma teve uma história digna de novela. Nasceu em 1926, filha de um libanês com uma italiana que se conheceram em um navio de imigração para o Brasil, no começo do século XX. Mesmo mais velha, se recusava a deixar a cozinha e foi a chefe do ambiente até seus 90 anos, onde ainda sentava-se ao lado de uma das filhas para afundar os delicados dedos nas massas de esfirras.

As comidas de Adma não se limitaram apenas ao cardápio árabe por conta da tradição familiar, mas se estenderam ao que podemos chamar de “comida de vó”. Bolo de banana caramelizada, torta paulista e torta de banana com canela polvilhada são alguns dos pratos únicos que somente ela conseguia fazer.

Pelo jeito que Carol falava sobre a avó, conseguia desenhá-la na minha cabeça. Uma mulher branca, magra e baixa com cabelos sempre tingidos na cor castanho claro e unhas feitas periodicamente. O sorriso sempre no rosto, de forma sincera. Adma tinha uma pele um pouco enrugada por conta dos anos vividos, mas muito vigorosa pelo cuidado e vaidade que ela tinha consigo mesma.

Adma dançando no aniversário de 90 anos (Foto: Donato Fidelis/Arquivo Pessoal)

Hoje, 26 de julho, sempre foi uma data muito importante para ela, por ser o Dia dos Avós. A homenagem a Sant’Ana e São Joaquim, avós maternos de Jesus Cristo, levava Adma a carregar a pequena Ana Carolina às missas na data.

Com a voz trêmula e os olhos marejados, Carol compartilha comigo um pouquinho sobre o que a data simboliza para ela: “É super marcante para mim porque eu me lembro como se fosse hoje. Lembro que a minha mãe me colocava em um vestido de lã, porque sempre estava frio, meia calça e maria chiquinha para ir à missa com a minha avó. Eu perguntava: ‘Por que sou eu?’ [que vai à missa] E ela respondia: ‘Porque seu nome é Ana e a gente vai agradecer a sua vida e à vida da vovó’“.

Os 43 anos que passou ao lado da avó refletem no modo de vida que Carol leva. Desde o começo de 2020, a cozinheira de mão cheia faz pratos típicos da culinária árabe como forma de complementar a renda. As receitas de tradição familiar foram passadas pela avó e pela mãe, Elizabeth, ao longo dos anos. Aquele relato que deu início a esta reportagem é um dos resultados do afeto e amor que Carol entrega por meio da comida.

Bolinho de nó da vó Dirce

Após terminar o encontro com Carol, conversei com Viviane Mendes, odontopediatra de 38 anos que ama cozinhar. Apesar de não ter usado as influências da avó para fazer renda, ela comenta que gosta tanto da área que até criou um blog para compartilhar receitas.

De dentro do próprio consultório, a dentista de sorriso largo afirma rindo que embora seja uma ótima cozinheira, não consegue reproduzir algumas receitas iguais às da avó, Dirce Mendes.

Só a minha vó sabe fazer o bolinho de nó, nunca consegui reproduzir. Só ela sabe fazer”.

Dirce Mendes é a detentora do bolinho de nó precioso que faz Viviane voltar a infância e compromete a própria memória. Além disso, ela é a responsável por elaborar diversas outras receitas relativamente simples, mas que precisam de um toque especial que só ela sabe dar. Talvez esse ingrediente secreto não consiga ser encontrado em qualquer mercado ou quitanda, pois trata-se da personalidade geniosa da querida Dirce.

“Minha avó é uma pessoa brava, mas muito amorosa. É o tipo de coisa que a gente só percebe quando ficamos mais velhos, sabe?”, reconhece Viviane.

Dirce e Viviane (Foto: Arquivo Pessoal)

Pergunto sobre algum prato que lembra a data de hoje ou outras comemorações que fazem a família se reunir. O consagrado é um sanduíche, de origem europeia mas muito popular nas terras tupiniquins, que usa pão francês e leva carne moída bem temperada como recheio. Se você pensou no “buraco quente”, acertou. O sanduíche era responsável por trazer parentes de fora, colocá-los todos ao redor da cozinha enquanto Dirce estava com a mão na massa.

“Quando ela fazia buraco quente, a família inteira estava reunida. Eu lembro da gente em volta da mesa, todo mundo junto e aquela bagunça e ela fazia o buraco quente, que é o pão francês recheado com carne moída temperada. Era só alegria, lembro que era uma farra. Sempre gostei de estar perto de todo mundo e gosto até hoje, de receber gente em casa, de pensar e preparar um cardápio”, afirma Viviane.

Frango com ameixa, a receita da Elena que todos devem experimentar

De pratos que são especialidades de vó, Kaito Casagrandi me apresenta mais um para essa reportagem: frango com ameixa da Elena Casagrandi. Se você já se interessou só de olhar o nome, a receita completa está aqui.

“O frango com ameixa é minha receita favorita de família. A gente faz muito e quem comeu uma vez, vive repetindo também. Quando um amigo novo ou alguém diferente chega em casa, é esse o prato que eles têm que conhecer”, apresenta Kaito.

Kaito e sua avó Elena (Foto: arquivo pessoal)

O jovem moço de voz serena é cozinheiro por aptidão, produz receitas e compartilha com as pessoas por meio do Instagram e YouTube, onde tem um canal de gastronomia. O sucesso de hoje foi semeado lá atrás, quando o pequeno Kaito recebeu da mãe e da avó os primeiros incentivos para seguir na área.

“Quando comecei a gostar de cozinha lá pela casa dos oito anos, minha vó e minha mãe assinaram livros de gastronomia infantil. Então, todos os meses eu recebia esses livros e eram todos com receitas para crianças. Eu sempre executava esse livrinho inteiro todos os meses. Elas compravam os ingredientes, e eu me virava na cozinha. O gosto pela cozinha nasceu aí, se não fosse o incentivo da família não viria.”

Aventureira na cozinha, Elena só apresenta seus dotes culinários em situações específicas, como no próprio Dia dos Avós. Pensando que toda tradição tem que partir de algum lugar, ela foi a responsável por fazer do frango com ameixas, enrolado como medalhões, mais um prato responsável por carregar memórias e afetos na família Casagrandi.

Arrio e o poder de trazer vó Lóla para perto

Apesar de não falar, a comida é capaz de contar histórias, por trazer consigo a socialização e a transmissão de aspectos culturais entre as gerações. Natallia Sneideris me apresenta isso, mesmo que de forma inconsciente, ao compartilhar as histórias da avó.

A pedagoga bauruense é neta da vó Lóla, apelido de Maria Dolores. Era uma mulher doce, amorosa, muito forte e que “todos gostariam de ter com avó”, como a própria neta relembra.

Dolores tinha uma estatura baixa, um pouco corcunda e chamava atenção com os cabelos enrolados e brancos como algodão doce. Era filha de espanhóis que fugiram do país e encontraram na região de Bauru, do outro lado do Atlântico, um novo lar para construir família.

A avó de Natallia queria ser freira, mas foi impedida pelos pais por ter que se dedicar à tarefa árdua de cuidar e cozinhar para 15 irmãos. Teve uma trajetória de cuidados, como muitas mulheres. Cuidou dos irmãos desde cedo, onde aprendeu a fazer de tudo. Quando casou, passou a cuidar do marido, dos quatro filhos e, mais tarde, dos netos. Durante sua jornada de vida, trabalhou em casa de família árabe e chegou a ter o próprio bar ao lado do companheiro para manter o sustento. E de todas as formas, sempre aquecia os corações daqueles a sua volta com um bom prato de comida.


Maria Dolores (Foto: Arquivo Pessoal)

“Ela cozinhava muito bem, lembro muito das comidas dela”, compartilha Natallia com brilho nos olhos ao me apresentar um pouco sobre a vida da Maria Dolores. “Ela fazia pães, manteiga, fazia tudo o que dava para fazer e desde muito nova. Quando ela casou com meu avô, teve que aprender a cozinha italiana, porque meu avô comia muito macarrão, gostava muito de carne”, complementa.

Dona Dolores faleceu aos 94 anos. A relação com a avó e madrinha de batismo era forte. Natallia conta que cresceu com ela e, quando sente saudade da “segunda mãe”, junta batatas, pães e outros ingredientes para fazer um arrio. Prato que traz a vó Lóla para mais perto do peito e a recorda de tempos em que não havia preocupações.

O arrio era uma sopa de batatas que Dona Dolores aprendeu com a mãe dela. Ela cortava as batatas em cubos, fritava sobre um fio de óleo com bastante alho até ficarem macias. Depois, colocava miolo de pão na água com colorau e o jogava nessa batata amolecida, juntamente com um ovo que cozinhava dentro da sopa.

“Era maravilhosa, eu tento reproduzir e não consigo, mas me tira a vontade quando eu quero comer. Quando sinto saudade dela eu faço um arrio”, diz enquanto balança a cabeça e apresenta um singelo sorriso.

A casa da avó da Natallia ficava em cima do bar que a mesma inaugurou ao lado do marido, na quadra 5 da Antônio Alves, perto da linha do trem. Era lá que vó Lola colocava à venda o cardápio e experiências que aprendeu ao longo da vida. Doces, cocadas, quebraqueixo, coxinhas, pastéis e outras “comidas de bar”, como Natallia lembra.

Mesmo sem a presença da Dona Dolores aqui, a família ainda mantém viva a tradição que a mesma herdou dos avós espanhóis: tortilha de bacalhau e grão de bico com bacalhau durante as confraternizações de Natal e Páscoa. Durante nosso encontro, segui as medidas sanitárias, mas tive que ceder ao privilégio de experimentar a tortilha da vó Lóla feita pela filha dela e mãe de Natallia, Solange.

Solange e Natallia

O prato é parecido com um bolinho de bacalhau, mas servido como forma de “panqueca”. Solange explicou que quando soube que íamos fazer fotos para a reportagem, tratou de dessalgar o bacalhau para que pudéssemos experimentar um dos pratos mais tradicionais da família.

“Vi aqui no YouTube um jeito de dessalgar o bacalhau mais rápido. Eu acho que não ficou tão bom como quando eu dessalgo com água de 3 em 3 horas durante dois dias, mas está gostoso”, disse enquanto trazia as tortilhas para fazermos o registro.

Nunca comi algo igual, adorei e consegui sentir ali um pouquinho do que Natallia havia compartilhado comigo alguns dias atrás: afeto.

Massa e tortilha de bacalhau pronta

Comida para comemorar o Dia dos Avós

Arrio, tortilha de bacalhau, frango com ameixas, bolinho de nó, bolo de banana caramelizada e outras receitas citadas aqui são alguns pratos que comprovam que a comida afetiva, em especial a daqueles sábios que chamamos de avós, está no topo dos alimentos que acolhem e confortam.

Enquanto conversava com as pessoas e me enchia de histórias e relatos, achei um trabalho de mestrado sobre o tema. O autor Adriano Pereira Tavares traz diversas referências para estudar a relação entre alimento, hospitalidade e memória.

Lá eu li que a comida afetiva muda os padrões ao não se restringir somente ao trabalho de cozinhar. Ela é “uma experiência transcendental, na qual a atmosfera, a cozinha, os aromas, os vinhos, a decoração e a segurança são relacionados a quem prepara o alimento”.

No Dia dos Avós, qual é a “comida de vó” que te acolhe?

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