O bauruense Raul Vital, bartender de 30 anos, recebeu o prêmio de “clássico da coquetelaria brasileira” pelo Desafio Arapuru 2021 com o drink Tropicália. O concurso, realizado pela marca Arapuru Gin, divulgou o resultado final nas redes sociais no último dia 19.

O desafio tem objetivo de democratizar o acesso aos coquetéis e reconhecer a coquetelaria como uma forma de expressão cultural e artística.

Bartenders de todo o país se inscreveram e criaram receitas novas com ingredientes típicos brasileiros. Além disso, produziram vídeos em que mostram o processo criativo, ideias por trás do coquetel e a apresentação final.

Durante quatro semanas, as produções foram avaliadas por profissionais da arte, música, gastronomia e coquetelaria, como Fafá de Belém, Mike Simko, Renata Felinto, Catha Castro e Marco De La Roche. Além do bauruense, outros quatro participantes foram premiados.

Em conversa com o Social Bauru, o bartender Raul Vital fala mais sobre como foi participar do concurso, explica a escolha dos ingredientes, nome e apresentação do drink Tropicália e ainda compartilha experiências e gostos pessoais sobre o mundo da coquetelaria.

– Como você virou bartender?

Entrei na coquetelaria por conta da faculdade. Eu precisava de um extra para conseguir pagar a mensalidade e surgiu a oportunidade de trabalhar como bartender aos finais de semana e eventos. A partir daí, despertou paixão. Me identifiquei com a profissão e fui correndo cada vez mais atrás de aprendizados.

Comecei a ver vídeos na internet, a seguir bartenders famosos, consumir blogs de bebidas… foi um processo. Aos poucos eu fui comprando uma garrafa e alguns materiais para fazer drinks em casa até que tomei coragem um dia e fui com uma amiga pedir oportunidade nos bares. Fui deixando meu currículo enquanto pedia por oportunidades. Eu avisava que só tinha trabalhado com eventos e só sabia fazer caipirinha, mas que eu queria aprender a fazer drinks e coquetéis.

Fotografia em ambiente interno. No centro da imagem há as mãos do bartender Raul colocando Gin dentro de copo de metal. Ao fundo da fotografia, há 15 garrafas de bebidas alcoólicas, seis copos limpos e algumas colheres.

A partir daí, alguns bares foram me chamando para fazer freelance. Eu ficava observando sempre o chefe de bar e as pessoas que entendiam dos drinks e ia aprendendo e tirando minhas dúvidas. Acabei saindo da área da comunicação e no momento que eu fiquei parado, eu pensei: “O que eu sei fazer além de trabalhar com publicidade e propaganda é trabalhar como bartender. Como as portas da comunicação estão fechadas, eu vou procurar oportunidade nesses ramos”. Foi aí que eu me joguei nos bares e cafeterias e fui aprendendo cada vez mais.

– Há quanto tempo você é bartender e o que te fez escolher essa área?

Sou bartender há 8 anos e o que me fez escolher a área foi a falta de oportunidade na área de publicidade e propaganda. Então, eu me encontrei na coquetelaria e isso me ajudou bastante. Tenho paixão pelo o que eu faço.

– Como foi participar do desafio?

Foi um prazer, uma honra porque essa marca de Gin [que realizou o desafio] é muito conhecida. Os jurados e as pessoas que estavam avaliando o coquetel e criando os desafios são pessoas muito famosas, são pessoas que eu admiro. Então, para mim foi tudo.

Desde o ano passado eu tento [o desafio] e esse ano eu consegui vencer. Foi uma honra. Para mim foi um marco profissionalmente porque é o primeiro título que eu recebo e é um campeonato nacional onde participaram pessoas muito talentosas, bartenders muito conhecidos, bartenders de São Paulo, do Rio de Janeiro e de outras cidades grandes.

Ao mesmo tempo em que eu estava pensando positivo, eu estava criando muitas expectativas porque tinha muita gente boa. Para mim foi uma superação ter vencido, ser aqui do interior e ter sido notado entre tantas pessoas talentosas.

Fotografia em ambiente interno. No centro da imagem, Raul espreme uma laranja dentro de um copo.

– Como ficou sabendo do desafio?

Fiquei sabendo por meio do Instagram. Eu sigo a página do Arapuru e sempre fico ligado nas postagens deles. No ano passado eles postaram o desafio, eu participei e esse ano também. Eu vi a publicação dizendo que era uma temática nova sobre criar o futuro da coquetelaria brasileira. Vi todas as inscrições e como funcionava o desafio neste ano e me candidatei.

– Como foi o processo criativo de elaborar o drink Tropicália?

O processo criativo foi bem complicado porque esse ano eu não estava com ânimo para participar, já que faz um tempo que estou parado porque os bares estão nesse abre e fecha. Eu tinha acabado de começar em um bar e duas semanas depois ele fechou.

Eu estava muito para baixo, muito desanimado e toda hora em que eu entrava no Instagram aparecia algo do desafio. Eu pensei:Pode ser um sinal e eu vou participar. Eu li todas as regras e vi que descendo estava mais difícil ainda, porque era para criar o futuro coquetel clássico brasileiro.

Coquetel, para virar um clássico, tem que ser uma ideia muito criativa, um processo criativo muito bom mesmo. Eu pensei comigo: “Vou ter que me dedicar, esquecer um pouco tudo isso que está acontecendo e buscar referências”.

Comecei pela receita. Peguei o Gin deles, vi os botânicos. Eles tem 12 botânicos. Aí voltei algumas matérias no meu curso de mixologia e pensei comigo sobre o que eu poderia fazer para fortalecer esses botânicos, ficar um sabor gostoso e virar um clássico.

Fui atrás de frutas, xaropes e fiz vários testes até que fiquei satisfeito com o sabor. Criei o xarope de laranja com zimbro e hibisco, gostei. Depois consegui um licor de anis, que tem no Gin, e potencializou o sabor. Fui atrás de frutas desidratadas que soltam um aroma. Então, achei o sabor de uma harmonia muito legal.

Depois disso tive que explicar a ideia por trás desse drink. Primeiramente, eu pensei algo em homenagem aos índios. Mas como a gente está vivendo uma fase muito tensa na política, eu pensei em não homenagear nenhuma data brasileira por conta do cenário atual. Acho que é muito pesado o clima. Então, eu busquei uma referência mais leve.

Eu estava ouvindo a minha playlist no Spotify e começou a tocar Caetano Veloso e era a música Tropicália. Então, eu pensei que um clássico brasileiro com o nome Tropicália combinaria muito.

Voltei aos tempos de estudante e fui estudar sobre o movimento Tropicalista. Estudei sobre a beatlemania, como surgiu o movimento e deixei o drink com a cara do festival. Resolvi batizar o drink de Tropicália por conta do movimento, por conta desse tempo que surgiu e revolucionou a música. Eu achei a cara de um clássico, muito brasileiro e também com a minha cara e essência, porque é o tipo de música que eu ouço, que eu gosto.

– Você ficou surpreendido com o resultado ou já esperava?

Eu fiquei muito surpreendido porque participaram pessoas muito boas, bartenders que eu sigo e que têm milhões de seguidores. Eu pensei: “Esses caras são bons e eu só vou tentar porque penso que só somos fracassados se não tentarmos”.

Só de tentar já somos campeões e eu fui com essa mentalidade de não criar muita expectativa e dar o meu melhor. Quando o resultado veio eu fiquei muito chocado. Fazia tempo que eu não chorava de alegria.

Foram dias de glória por eu não ter criado expectativas e por ser um concurso internacional, brasileiro e que envolve uma marca grande e jurados conhecidos. Eu fui notado e fiquei totalmente surpreso. Foi um dia muito lindo para mim e eu desejo isso para todas as pessoas que se dedicam com amor ao seu trabalho, que elas sintam essa sensação que eu senti porque foi surreal.

– Quais ingredientes foram utilizados na bebida? Qual foi o motivo das escolhas?

Os ingredientes que usei foram: zimbro, laranja, hibisco, licor de anis e limão siciliano. Esses ingredientes foram escolhidos por conta dos botânicos que já contém no gin. Resolvi usar insumos que potencializam o sabor do gin e eu usei ingredientes que eu gosto, pensei em mim como cliente. Eu tomaria um gin com laranja, limão, hibisco, zimbro e anis? Foi assim que foi a escolha. Tentei deixar harmonizado de uma forma que agradasse a vários paladares.

– Quais são seus planos a partir de agora?

Pretendo me dedicar cada vez mais, faço isso com amor, só que não posso colocar na cabeça que eu ganhei o título e me acomodar. Não posso cair na minha zona de conforto, eu tenho que evoluir cada vez mais.

Um dos prêmios foi o curso de mixologia com o Marco De La Roche, um bartender muito conhecido. Ele tem canal no YouTube muitas visualizações. Vou me dedicar muito nesse curso, as aulas começam mês que vem.

Vou compartilhar o conhecimento na minha página no Instagram, investir em vídeos e na minha comunicação para divulgar ainda mais meu trabalho. Além disso, pretendo criar mais drinks, criar coisas mais autorais, buscar referências, sair um pouco da caixinha, ousar um pouco mais e trazer novidades para os lugares onde eu trabalho e que me darem oportunidades.

– Você tem algum drink inesquecível?

Um drink inesquecível foi um que eu reproduzi e chama Passion. Ele é feito com maracujá e vodka, licor. Esse drink é maravilhoso, fiz pela primeira vez no ano passado e gostei muito.

– Qual é o seu coquetel favorito para beber?

Meu coquetel favorito é a caipirinha, eu adoro esse clássico. O negroni, que eu aprendi a gostar e o gim, eu amo.

– E qual é o seu favorito de preparar?

Não tenho favorito, eu gosto de elaborar todos.

– Na sua opinião, qual é o ingrediente que fica perfeito em qualquer drink?

Limão. Acho que ele harmoniza muito bem. Ele traz citricidade e acho que isso equilibra qualquer coquetel. Eu também gosto muito de coquetel com maracujá.

– Aqui em Bauru, qual drink você recomendaria para um visitante na cidade?

Eu indico Tropicália. É um drink premiado, é daqui do interior e agrada a todos os paladares.

– Onde você atende hoje em dia? A Tropicália já está no cardápio desse lugar?

No Bendito Santo. Por enquanto o Tropicália ainda não está, mas provavelmente até mês que vem ele já esteja disponível ao público.

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