No livro Porto Calendário, o autor Osório Alves de Castro retrata um importante elemento da formação da sociedade brasileira. A obra, primeiro romance dele e vencedor do prêmio Jabuti, narra a migração de ribeirinhos do oeste nordestino em busca de oportunidades no estado de São Paulo.

Foi a partir de leituras das obras de Osório que o artista de Bauru Josiel Rusmont, conhecido como Baiano Tietê, pensou o atual projeto artístico dele, o Tamarindeiro. Começando pelo nome, que remonta aos tamarindeiros centenários que serviam “de teto” para a construção de barcas que faziam o trajeto, a proposta celebra o movimento migratório do Nordeste ao Sudeste.

Por meio de diferentes formatos, entre música, literatura e audiovisual, Josiel vai resgatar e valorizar a história dessa mistura brasileira.

Artista de Bauru

As obras prometem uma viagem pelo “desaguar do São Francisco no Tietê” – como o artista intitula a pesquisa que levou ao Tamarindeiro -, uma expressão que conecta simbolicamente os dois principais rios de cada região.

O projeto artístico é também uma forma de retratar a sua própria formação. Josiel nasceu em Santa Maria da Vitória (BA), cresceu na cidade vizinha Correntina, a oeste do São Franciscano, e veio para Bauru aos 13 anos. Por aqui, desenvolveu a carreira como compositor, músico, produtor musical, escritor, contador de histórias, técnico em áudio e pesquisador.

‘Diadorim’

A primeira produção foi o clipe da música ‘Diadorim’, disponibilizado no YouTube no dia 10 de maio. Feito com a visualidade do cordel, o vídeo abre o projeto Tamarindeiro já misturando as referências das duas regiões.

“[É para ter] conexão, e mostrar ao público, a dimensão e o valor dessa mistura, de um povo tão diferente, e tão igual ao mesmo tempo. Costumo chamar de Brasis dentro do Brasil”, comenta Josiel.

Além da arte popular no Nordeste do clipe, a letra da canção e o roteiro foram baseados no livro ‘Grande Sertão: Veredas’, de João Guimarães Rosa. 

“A música leva o nome do personagem do livro e há, no capítulo, o convite de Diadorim a Riobaldo de atravessar o rio em uma canoa. Nesse momento, há toda semântica, a metáfora do rio e a vida. ‘Nessa vida carece ter coragem’. Um convite a enfrentar os medos”, explica o artista, sem esquecer que até a sonoridade da obra é parte da mensagem.

“Há uma mistura proposital em todo o processo criativo. Usamos um ritmo de Ijexá, usando a viola caipira regional como instrumento principal na construção da música. Ritmo afro brasileiro, que veio, principalmente pelo nordeste brasileiro, e a viola, que é muito usada no interior paulista”, finaliza.

Show no Sesc Bauru

Outra atividade do projeto será o show ‘Baiano Tietê – Tamarindeiro’ no Sesc Bauru, no dia 28 de maio, a partir das 20h. Com ingressos à venda no site da instituição, a apresentação mostra a riqueza das migrações brasileiras nas composições, elementos rítmicos, execuções e estéticas.

“Haverá uma pré-entrega desse encontro de rios, tão intenso. Cheio de tantos personagens e informações telúricas, que certamente, fará o coração se encher do que somos, do que viemos. Afinal, todos nós, fazemos parte desse desaguar brasileiro”, observa Josiel.

O artista comenta também que será um show completo, incluindo bateria, percussão, instrumentos latinos, piano, acordeon e a viola caipira para interpretar as canções que conectam o sertão baiano com a música típica do interior paulista.

Artista de Bauru

Projeto do artista

Baseado em uma pesquisa sobre a migração, o Tamarindeiro nasceu durante uma viagem. “Pouco antes da pandemia, fui visitar as cidades depois de quase 10 anos sem ir ao estado. Tive a grande sorte de conhecer o escritor e jornalista Helverton Baiano, e tive acesso a sua obra, ‘A história de Correntina’, um livro que traz relatos sobre a formação de Santa Maria e Correntina”, explica.

Segundo Josiel, foi com o trabalho de Helverton que ele conheceu o romance Porto Calendário. “Me interessei pelo livro [do Osório] e fui garimpar, comenta, indicando também o porquê do projeto ser estendido para diversos formatos. É uma forma de abordar diferentes perspectivas da temática.

Depois do clipe e show no Sesc Bauru, o artista de Bauru deve lançar ainda um CD nas plataformas digitais no dia 30 de maio, também chamado Tamarindeiro e trazendo as músicas interpretadas na apresentação.

Além disso, o projeto terá o livro infanto-juvenil ‘As histórias fantásticas de um outro Zé Rufino’, produzido com a Lei de Estímulo à Cultura da Secretaria de Cultura de Bauru, um documentário sobre a ferrovia e gastronomia de bauru, que está nos planos e atividades de contação de causos.

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