São pouco mais de 17h de uma sexta-feira quando chegamos à Praça Gastão Vidigal em Bauru. Provavelmente você não a conhece por esse nome, mas sim por “Praça da Hípica”.

Acho que chegamos cedo. A movimentação nos carrinhos só começa depois de uma meia hora, quando o sol se põe. As mesas vão sendo montadas e os primeiros clientes começam a chegar.

Essa é a rotina da praça há aproximadamente oito anos. Por volta de 2014, o local se transformou em um ponto gastronômico da cidade, com cinco trailers instalados.

Renata Rocha é cliente assídua da Praça da Hípica desde então. Ela conta que começou a frequentar com o marido, Richard Moreira Lugão. “Sempre gostamos muito dos lanches de lá, dos crepes, dos churros, da comida japonesa… É tudo muito bom”, comenta.

Crescimento da Praça da Hípica

Em 2016, já eram 32 unidades, segundo informações das secretarias municipais de Planejamento e Meio Ambiente. Foi nessa época também que os moradores do bairro passaram a reclamar do movimento, barulho e sujeira no local.

Para amenizar os conflitos, a Prefeitura de Bauru e o Ministério Público fizeram um acordo que dizia que os trailers permaneceriam ali enquanto não fosse aprovada uma lei municipal que disciplinasse o funcionamento de trailers e food trucks.

Praça da Hípica no início do seu funcionamento como ponto gastronômico (Foto: Rosângela Machado/arquivo pessoal)

Ao mesmo tempo, a Secretaria de Saúde, por meio da Divisão de Vigilância Sanitária, passou a intensificar o trabalho de orientação aos donos de trailers com relação ao destino correto do lixo, higiene na preparação dos alimentos e limpeza da praça.

Atualmente, estão instalados 39 trailers na Praça da Hípica, sendo 21 no lado da rua José Henrique Ferraz, 11 na rua Nicola Constantino e sete na rua José Moraes Pacheco.

Renata comenta que sente falta dos banheiros químicos à disposição. “A praça está sempre lotada, e faz falta”, observa.

Dez anos de história

O maior deles é um trailer vermelho. O Tio Sam Lanches já está na praça há 10 anos. Começou como um pequeno trailer, e hoje já conta com três unidades na cidade e mais um carrinho para eventos.

Rosângela Machado, proprietária, conta que eles compraram o primeiro trailer de um rapaz conhecido como “Alemão”, que foi uma das primeiras pessoas a instalar food trucks na praça. “Ele fazia os trailers e vendia para o pessoal que ia chegando”, comenta.

Ela ainda lembra que, no início, a praça era muito movimentada. “Teve uma época que eu olhava pra fora do trailer e tinha tanta gente que eu falava ‘meu deus, de onde vem todo esse povo?’”.

Tio Sam Lanches, hoje o maior trailer da Praça da Hípica (Foto: Rosângela Machado/arquivo pessoal)

As crianças da Praça da Hípica

Em meio a todo esse movimento, Rosângela e o marido, Sandro, tinham um companheiro inseparável: o filho Enzo, que hoje tem 13 anos, mas tinha apenas quatro quando os pais começaram a fazer lanches. 

Como eles não tinham com quem deixar o filho, o levavam para a praça também, de terça a domingo. Enzo passava a tarde e a noite brincando com as crianças do bairro e até mesmo com os filhos dos donos dos outros trailers, o que era muito comum. 

“Ele brincava tanto que, quando a exaustão batia, ele dormia. E eu precisava por ele pra dormir dentro do carro”, lembra a mãe. O menino ia para a praça mesmo quando estava doente, porque os pais precisavam trabalhar. Essa história não é específica deles, mas também a realidade de muitas famílias que fazem da praça o seu sustento.

Apesar de tudo, Rosângela é muito grata a tudo o que viveu e vive na Praça da Hípica. “É uma relação de amor e gratidão. É onde nós sustentamos a nossa casa durante esses dez anos”, completa.

Do Líbano para Bauru

Como já comentei, muitas pessoas fazem da praça o seu sustento. Em uma das “esquinas”, está um trailer branco e simples com um nome difícil de pronunciar: é o Mr. Shawarma (lê-se “chauarma”). 

Shawarma é um prato da culinária libanesa, feito de pão árabe com legumes, homus (pasta de grão de bico), labneh (coalhada) e outros acompanhamentos.

Quem comanda o carrinho é Ahmad Ghazi, natural do Líbano que está em Bauru há apenas dez meses. Seu português ainda não é dos melhores, mas aos poucos vamos nos entendendo. 

Ele conta que os países vizinhos ao Líbano estavam em guerra, e isso fez com que muitos refugiados entrassem no país. Com isso, a crise econômica se agravou e ele viu no Brasil uma oportunidade de montar seu próprio negócio.

“Eu tenho um primo aqui em Bauru, e todos os dias conversávamos por WhatsApp e redes sociais. Ele me disse que eu sabia cozinhar e era um bom chef, e a cidade aqui era bonita, com 400 mil habitantes”, comenta Ahmad. 

Outra coisa que chamou a atenção do libanês foi a sociabilidade do brasileiro. “Aqui no Brasil as pessoas são muito sociais, sempre há motivos para celebrar e comer com a família e os amigos”, ressalta. Ahmad oferece quatro opções de lanches típicos do oriente médio.

Ele é pai de três filhos e também tem sua esposa, que estará aqui no Brasil até o final deste ano. 

Buscando encantar

Ao contrário do Mr. Shawarma, um dos trailers ao lado se destaca pelas cores e criatividade estética – o Reis da Chapa, que tem o formato de um castelo. Ao lado dele, a Torre Eiffel do Mr. Crepe também chama a atenção.

Ambos são do empresário Jay Coorner. Ele explica que busca inspirações em grandes marcas do mercado, principalmente a Disney. Os próprios lanches, inclusive, têm nomes que remetem a reis e rainhas, como o Rei Arthur, a Rainha Elizabeth e o Rei Alexandre, o Grande (que quase ninguém consegue comer sozinho). 

“Nós usamos recursos nas redes sociais, como filtros e coroas, para criar o encantamento nos clientes”, comenta. Esse trabalho virtual faz com que muitas pessoas procurem a praça por conhecerem o trabalho da equipe online.

No trailer, os sócios também convidam DJs da cidade para fazer um som ao vivo para quem estiver por lá. “Fortalece não só o meu negócio como também a praça. Todo mundo acaba vendendo mais, porque é algo diferente que chama as pessoas”, completa.

Um convite

A pandemia afetou a Praça da Hípica de diversas formas. Por isso, muitos trailers fecharam, e muitos proprietários de carrinhos tiveram que procurar outros empregos devido ao baixo movimento. 

Renata, cliente da praça há anos, perdeu o marido, que a acompanhava, para a Covid-19. Nos amigos que fez na praça, ela encontrou afeto e apoio em meio a esse momento tão difícil. 

Ela continua frequentando o local e faz um convite para quem não conhece. “Quem nunca foi na praça, vá. É um lugar muito gostoso para estar com a família e com os amigos. Quem vai uma vez, começa a ir sempre, completa. 

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