Quando marquei a entrevista para escrever esse texto, David Calleja tinha apenas uma exigência: não ser de manhã, porque estaria dormindo. Faz parte da vida noturna do criador do Voodoo Lounge Pub, bar de Bauru.
Se para a maioria pode ser uma rotina inusitada, para David é um hábito, já que ele atua na noite bauruense desde os 21 anos, quando virou garçom no Armazén. No tradicional bar de rock, Calleja trabalhou – entre idas e vindas e mudanças de cargo – por 12 anos.
“Assim que eu entrei, me apaixonei. Pelo Paulão, pela Valéria, pelo ambiente. Ver as bandas tocando… eu fiquei vislumbrado. O ‘Arma’ foi minha escola e até hoje me vem ecos daquela época”, relembra o bauruense, comentando que depois trabalhou em outros locais e organizou eventos.

Além de estar atrás dos balcões, a vida na noite aconteceu também em cima dos palcos. Calleja viveu a “história clássica” de trocar o grupo musical da igreja pelas bandas de rock e, até hoje, a música faz parte da trajetória.
“Comecei com uma banda chamada Baurets, referência a Tim Maia e Mutantes e que tocava o lado B de bandas famosas. A gente se apresentava no Áudio Galaxy e Armazén, e durou sete anos. Depois eu criei a The Licks, um cover de Rolling Stones e a Eclipse Oculto [que toca ainda hoje]”, conta.

Nessa mistura entre trabalho e shows, David nunca cansou da rotina depois das 20h. Ele chegou a fazer jornada dupla entre as atividades na noite bauruense e empregos formais em farmácia, na OAB e como professor. Com o tempo, entre os dois turnos, adivinhe qual o David escolheu?

Voodoo no Baixo Duque
Em 2017, David abriu o Voodoo Lounge Pub, na Av. Duque de Caxias, o passo definitivo para vivenciar exclusivamente o horário noturno. O nome do bar foi inspirado em um álbum dos Rolling Stones e a identidade visual foi criada por Gabriel Potter.

“[Quando abri o bar] Era uma fase difícil, porque foi logo depois da morte da minha mãe [em 2016]. E foi na cara e na coragem! Fui mestre de obra, servente, decorador, carreguei entulho, pintei… fiz de tudo”, conta o empresário.
A proposta do Voodoo era ser o ponto alternativo de Bauru e reforçar a região da “baixa Duque”, termo propagado pelo Davi para relembrar a época em que a avenida no Centro era o principal destino boêmio da cidade.
“A cena de bares na rua era muito forte nos anos 2000, como vemos na Getúlio hoje em dia. A galera saia de um bar para ir em outros a pé na mesma noite! Era uma cena legal, que eu fiz parte, tanto frequentando, quanto tocando com minha banda”, relembra David.
Mais artista do que empresário
Quem visita o Voodoo percebe como a proposta alternativa do bar é fruto da formação do David: Artes na Unesp. Ele entrou na faculdade aos 25 anos com objetivo de virar professor, chegando a fazer parte de um grupo de pesquisa e cogitar fazer mestrado.
Se a docência não foi o destino, com certeza a graduação foi uma parte essencial na trajetória. “Foi imprescindível para eu formatar minha cabeça de como construir algo nessa vertente”. Inclusive, ele confessa ser mais artista do que empresário, papel que está aprendendo com o tempo.

O bauruense enxerga como a formação artística em uma universidade pública influencia a identidade do bar, incluindo as escolhas musicais, a comunicação visual, a criatividade para pensar nas festas, a decoração (cheia de objetos coletados de família e conhecidos) e a estrutura de iluminação pensada por ele e executada pelo amigo Dalmo.

O ambiente descontraído, a autonomia dos funcionários de criar e o David estar na “linha de frente” interagindo com os clientes também fazem parte da personalidade do Voodoo. “Eu já tive proposta para ir a São Paulo, mas eu gosto de Bauru. Eu quero que Bauru seja legal! Não que eu ache que minha contribuição seja imprescindível, mas minha ideia é ficar aqui para desenvolver projetos interessantes na cidade”, esclarece.
Três endereços
Para o David, o Voodoo tem três fases representadas pelas mudanças de endereços. A primeira foi a saída da quadra 6 da Av. Duque de Caxias para o chalé quase na esquina das ruas Antônio Alves e Capitão João Antônio, a qual ele considera o Voodoo 2.0.

A segunda mudança, em julho de 2023, foi mais impactante para o público frequente do bar. Para explicar: a Av. Getúlio Vargas é conhecida por rolês famosos, diferente da vibe alternativa buscada pelo Voodoo.
“Minha ideia de vir para cá, de subir para zona sul, era misturar ‘as cidades’. Ela pertence a todo mundo, não precisa ter a divisão do alternativo no Centro e os bares ‘hypados’ [no Altos da cidade]. Eu gosto de contar histórias com o bar e a do Voodoo 3.0 é dizer que a cidade pertence a todo mundo”, enfatiza.
Assim como para os habituais do bar, o impacto foi significativo também para o Calleja, pelos desafios do novo espaço. O pequeno chalé de 70 m² virou uma área de 400 m², com capacidade para mais de 500 pessoas.

Ainda assim, David garante que permanece a essência do local. “Quem conhece de verdade o bar, sabe que a nossa cabeça não mudou. Fizemos igualzinho como era, só que com mais espaço. É um bar livre e criativo! Queremos ser um local acessível, democrático e respeitoso com o público”, esclarece.
Voodoo Lounge Pub 3.0
Agora em um novo espaço, a visão do Calleja, que completa 40 anos em setembro, é cultivar a tradição alternativa da baixa Duque, ainda que aplique algumas características de bares da região do Altos da cidade.

As famosas noites de karaokê de segunda, as grandes festas temáticas (como Carnaval e Halloween), os dias de jukebox, os eventos culturais e os estilos musicais que já são características do bar misturam-se com mudanças como a contratação de um chef para assinar o cardápio, um laboratório para criação de mais drinks autorais e uma nova receita da pizza – tradicional do local.

Além disso, outros passos foram instalar um palco para receber bandas e trazer atrações nacionais, como o Dandan (DJ do Criolo), o Erick Jay (campeão mundial de DJs), o Thaíde (um dos ‘fundadores’ do hip hop no Brasil) e a banda Cólera. O KL Jay, integrante dos Racionais, está na agenda para o segundo semestre.
São caminhos tomados por alguém cada vez mais experiente como empresário, completando sete anos de Voodoo e ainda apaixonado pela noite – tendo que, às vezes, dormir no sofá do bar. “Eu gosto de estar envolvido no processo, e acho que faz diferença. Vem dessa escola do Armazén, do João Cabreira, de outros. E eu amo estar aqui [no dia a dia]! Não é uma aposta de um empresário, e sim uma aposta de vida”, finaliza.

