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Com doze anos, tudo o que Michele Mantovani queria era viajar e foi assim que ela conheceu o coral Unicanto de Bauru. Por meio de uma amiga, ela ficou sabendo que o coral ia para vários lugares com o objetivo de se apresentar e decidiu entrar no grupo para poder passear.

Se na infância pretendia fazer veterinária quando crescesse, hoje, com 29 anos, Michele é formada Música/Instrumento – Piano e está prestes a fazer um intercâmbio para Portugal no estágio do doutorado. “Se não fosse o coral, talvez o mundo da música ainda estivesse escondido para mim, ou limitado ao que eu ouvia e via nos meios de comunicação”, conta.

Nós fomos conversar com a Michele para saber mais sobre a sua história. Confira:

– Quantos anos você tem e onde mora atualmente?
Tenho 29 anos e atualmente moro em Porto Alegre – RS. Mudei-me para Porto Alegre em 2012 para cursar o Mestrado em Música na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e acabei ficando para o curso de Doutorado, também na mesma área e instituição. Atualmente estou cursando o quarto ano do doutorado e estou prestes a fazer um estágio de doutorado sanduíche na Universidade de Aveiro – Portugal, nos próximos quatro meses (abril a julho), com financiamento do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

– Quando você entrou no coral Unicanto? Quantos anos tinha? Por que decidiu participar?
Eu entrei no coral, aos 12 anos de idade. Pra falar verdade, eu comecei a participar porque uma amiga minha participava e me convidou. Fui uma vez assistir ao ensaio com ela e achei tudo muito diferente: lembro-me que o coral estava cantando uma música em inglês e a três vozes (Shake the papaya down). Para mim, eram muitas novidades ao mesmo tempo, por que eu nunca tinha visto um coral pessoalmente e também não sabia nada de inglês, eu fiquei um tanto acanhada e não fui mais. Depois de um tempo (acho que uns dois meses depois), essa mesma amiga voltou a me convidar dizendo que o coral iria fazer uma viagem para se apresentar e que eu deveria ir e conhecer melhor e para passear com ela também. Voltei por insistência dela e por incentivo da minha mãe que, na época, também queria que eu participasse do coral. Acabei gostando bastante e entrei para espera de vaga. Participava dos ensaios todos os sábados, mas não podia me apresentar com o coral, esperei uns cinco ou seis meses para entrar, até que um dia alguém saiu e eu entrei. Lembro que a minha primeira apresentação foi na época de Natal, na Praça da Paz, em Bauru.

– Tinha alguma experiência com música?
Na época, não tive nenhuma experiência formal, de estudar algum instrumento ou coisa assim, mas em casa, lembro que meu pai gostava de tocar viola caipira e minha mãe gostava de ouvir uns CDs de orquestras com os “top hits” de música clássica. Eu não gostava das músicas que ela ouvia e falava pra ela que “era coisa de velho”, mal sabia eu que esse tipo de música (dita clássica) seria a minha profissão um dia! Fora isso, eu gostava muito de música, de dançar e de inventar: lembro-me que, antes mesmo de entrar no coral, eu e essa minha amiga de infância, Patrícia brincávamos que tínhamos uma banda e inventávamos músicas, mas só cantando, sem tocar nenhum instrumento, fingíamos ter uma banda, com direito às coreografias e shows pra família (risos). Essas lembranças são muito fortes para mim e acredito que meu gosto pela música já existia desde a infância, mas foi se desenvolvendo à medida que conheci coisas novas. Nesse sentido, o coral teve um papel fundamental, pois foi lá que tive a oportunidade de conhecer músicas de diferentes estilos, culturas, idiomas, e isso ampliou a minha visão e gosto pela música.

– Já gostou logo no início ou foi com o tempo que o ‘gosto’ pela música acabou vindo?
Como eu disse, a primeira vez que eu fui eu me assustei um pouco, mas depois comecei a gostar. As aulas da Regina Damiati eram e são bastante atrativas. Tinha até bingo musical para aprender teoria. Ela ensinava de um jeito que ficava interessante aprender uma música até em latim, sem contar que ela é muito legal e cativante com todos os alunos. Acho que tudo isso colaborou pra que eu gostasse, pois afinal, eu já gostava muito de música. No coral eu tive a oportunidade de conhecer músicas de diferentes estilos, culturas, idiomas, e isso também colaborou pra que eu criasse gosto à medida que ia conhecendo novidades. Sem dúvida, a música mais marcante que aprendi foi o Festival Sanctus, do John Leavitt, em latim e à quatro vozes: as partes do coro e do piano são maravilhosas, e eu lembro que, quando eu ouvi, fiquei encantada.
Quando eu vi a pianista do coral tocando a parte do piano, fiquei vislumbrada com a forma com que ela tocava e pensei “quero tocar assim também!”, daí veio o gosto pelo piano. Depois dessa experiência marcante, pedi pra minha mãe me colocar na aula de teclado. Desde então, não parei mais. Eu participava dos dois grupos: no juvenil, como cantora do naipe dos contraltos e no infantil, como pianista, e ambas as experiências foram muito enriquecedoras para mim, pois aprendia muito, tanto cantando quanto tocando, e isso me motivava a querer aprender mais, a estudar música a fundo, a querer tocar melhor.

– E você até chegou a dar aulas de música aqui em Bauru, certo? Como foi isso?
Sim! Depois de algum tempo estudando piano, fui convidada por meu professor a dar aulas desse instrumento para crianças no conservatório que estudava e eu aceitei. Logo na mesma época me tornei pianista do coral infantil e também comecei a dar aulas particulares de piano e aulas em outros conservatórios e escolas de música da cidade. Nesse meio tempo, também trabalhei com a Regina Damiati em outros corais que ela regia na época e outras oportunidades foram surgindo. Comecei a trabalhar com aulas de musicalização infantil em escolas de educação infantil e, posteriormente, em colégios. Comecei a trabalhar com música uns dois anos antes de ingressar na universidade e durante a faculdade, trabalhei como professora de piano e teclado, pianista de coral e professora de musicalização infantil. Sem dúvidas, tive o apoio e ajuda de muitas pessoas, dentre eles, meus professores de piano e da Regina Damiati, que me proporcionou muitas oportunidades para crescer profissionalmente, tanto no coral Unicanto quanto fora dele, me ajudando com a preparação das aulas, com materiais, com as dúvidas, enfim, com muitas coisas das quais eu não tinha experiência ainda e isso me permitiu crescer na área.

– Você também fez faculdade de música? Onde e por que decidiu por este curso?
Sim. Antes do coral e de tocar piano, queria ser veterinária, mas não podia ver sangue que desmaiava, então tenho certeza de que isso não era mesmo pra mim! (risos). Quando me vi envolvida com a música, decidi que era isso que eu queria estudar e fazer pra vida toda, pois é algo muito prazeroso, algo que você não para nunca de estudar e aprender! Eu sempre gostei de estudar e não queria parar de estudar música, eu já estava trabalhando na área na época, e eu gostava muito do que fazia, então, foi unir o útil ao agradável! Em 2006 eu ingressei no curso de bacharelado em Música/Instrumento – Piano na Universidade Sagrado Coração e me formei em 2010. Foi um período de amadurecimento e de especialização profissional: nesse tempo, além de continuar trabalhando como pianista de corais, professora de piano, teclado e musicalização infantil, também me apresentei em recitais solos e de música de câmara, participei de festivais e concursos e solei um concerto com uma orquestra sinfônica da região; isso colaborou pra que meu horizonte de música se expandisse ainda mais, além da profissionalização que uma universidade te proporciona.

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– Foi difícil conseguir pagar as mensalidades? Você pagou a faculdade com as suas aulas de música, certo?
Sim, foi difícil. Embora eu já trabalhasse com música, o que eu ganhava inicialmente não cobria todos os custos com mensalidade, transporte e materiais, visto que eu estudava numa universidade particular. Então eu comecei o curso com o mínimo de créditos possível. Fiz isso no primeiro ano; no segundo ano em diante, eu já estava ganhando um pouco mais e aumentei a quantidade de créditos; também comecei a fazer iniciação científica e tive uma bolsa mensal por um ano, o que também me ajudou. E durante todo o curso as oportunidades de trabalho foram surgindo, o número de alunos que eu tinha aumentou e então eu consegui cursar todos os créditos e terminar a tempo. O curso tinha a duração de quatro anos e eu acabei concluindo quatro anos e meio.

– Já imaginou como seria a sua vida se não tivesse entrado no coral?
Sim. Acho que seria bem diferente! Já não pensava mais em fazer veterinária, mas é provável que eu fosse para alguma área relacionada ao ensino, pois gosto muito de estudar e ensinar. Se não fosse o coral, talvez o mundo da música ainda estivesse escondido para mim, ou limitado ao que eu ouvia e via nos meios de comunicação. Nesse sentido, acho que a bagagem cultural que o coral me proporcionou foi indispensável para que eu me decidisse pela música como profissão!

– Além de ter aprendido sobre música, quais as outras lições que o coral trouxe na sua vida?
Aprendi muito sobre o respeito humano e sobre cidadania. Creio que isso permeia todo tipo de relação interpessoal e social. Hoje eu percebo que a Regina era muito cuidadosa na escolha do repertório: existe uma preocupação musical por trás de cada música, em desenvolver as habilidades técnicas e interpretativas para que o resultado musical soasse cada vez melhor, mas também existia um cuidado em transmitir uma mensagem, a mensagem que cada música tinha pra oferecer, então os temas das músicas eram muitos, que abrangiam o amor e respeito à família e aos amigos, o respeito e cuidado de si mesmo, à natureza, enfim, todas tinham uma mensagem muito significativa e educativa. Havia esse zelo em não oferecer “qualquer coisa” para os alunos, e sim o melhor, de forma que os alunos também pudessem conhecer músicas diferentes daquelas que ouviam em casa e desenvolver outras habilidades sociais. Outra coisa importante que aprendi foi sobre responsabilidade: ser pontual nos ensaios e apresentações, ter um bom aproveitamento no coral e também na escola (uma das exigências para estar no coral). Lembrar que estava sempre vestindo a camisa de uma empresa respeitadíssima e que nós fazíamos parte dela. Isso tudo reforçava aquilo que os pais nos ensinavam em casa e eu via sentido nisso, pois quando o coral cantava bem, a recepção do público era boa também, eu via os frutos desse esforço nas apresentações e também nos dois CDs que o coral pôde gravar. Por trás de um “cantar bem”, havia muito esforço, dedicação e trabalho, essa lição de que pra conseguir algo bom você tem que lutar e se empenhar ao máximo me acompanha ainda hoje, e sempre vou levá-la comigo!

-Você saiu do coral? Por quê?
O coral tem um estatuto para viabilizar a participação de mais alunos no projeto, quando eu completei 18, tive que sair do grupo jovem. Então eu continuei apenas como pianista do coral infantil, tempos depois também me tornei a pianista do coral jovem. Então eu permaneci como pianista dos dois grupos até 2012, quando eu decidi cursar o Mestrado em Música para continuar me profissionalizando. Para isso, tinha que me mudar de cidade, prestei provas em três universidades e fui aprovada nas três, acabei optando pela UFRGS, por ser bastante conceituada e pela oportunidade de bolsa de estudo, que me permitiria manter-me em outra cidade.

– Valeu a pena participar do projeto?
Sem dúvidas! Foi uma experiência riquíssima em que eu descobri a minha profissão! Foram muitas oportunidades e experiências que vivi no coral. Sou profundamente grata à Unimed, à Regina Damiati e a todas as pessoas envolvidas nesse projeto que transforma a vida de muitas pessoas, assim como transformou a minha vida! Expresso minha profunda gratidão e admiração por esse projeto belíssimo: em épocas de cortes na área da arte e cultura de modo geral, ter empresas que investem e acreditam na música como um benefício para a sociedade é um grande presente para todos, visto que todos acabaram por se beneficiar da arte, da cultura, da cidadania, e com isso, vidas são transformadas! O alcance que esse tipo de projeto é muito maior do que de fato vemos, e sem dúvida oferece conhecimentos e oportunidades riquíssimas para quem dele participa! Desejo que a música seja sempre vista com bons olhos, como a potência que de fato é em extrair o melhor que o ser humano tem a ser e oferecer! Parabenizo e agradeço a Unimed por reconhecer a importância da música na vida de tantas pessoas e desejo vida longa ao Coral Unicanto!

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