ilustra02Dora
Ilustração: Dora Bonadio / Coletivo Boitatá

Nos anos 70, muito antes do tablet, do smartphone e do Playstation 4, eram comuns as diversões, digamos, analógicas. Vim de São Paulo para Bauru com quase 8 anos. E vivi uma espécie de arrebatamento quando descobri que, aqui, não havia perigo nenhum em jogar queima ou alerta bem no meio da rua, inclusive à noite (em São Paulo, nosso lazer não era assim tão irrestrito).

Naquela época, também era normal subir em árvore como parte da formação básica para graduação em infância no interior paulista. Na quadra 6 da rua Antônio Garcia, onde eu morava, meus amigos e eu elegemos um velho chapéu-de-sol para chamar de nosso. Cada um tinha seu assento cativo na árvore. Lá, a gente conversava sobre televisão, coleções, férias, fofocas, minhocas, Guerra nas Estrelas, discoteca, cachorros, bolo recheado, histórias de medo e, sobretudo, histórias inventadas com pinta de verdadeiras. Eu tinha meia dúzia de shorts, umas 10 camisetas e sandalinhas bem resistentes. Bastava essa indumentária para ocupar meu espaço cenográfico na árvore e experimentar os momentos que viriam a se tornar algumas das minhas melhores lembranças.

Era uma fase de descobertas, de novas sensações, de desafios, desejos, loucuras e sorrisos. E também de micos. Uma vez, minha irmã, uma amiga e eu fomos a uma festa de aniversário de uma vizinha na véspera da data marcada. Um ruído na comunicação? Pode ser. A tal vizinha, que era a aniversariante, nos recebeu na porta e estranhou nossas roupas boas. “Mas a festa é amanhã!”. E caiu na gargalhada. Fomos embora derrotadas, humilhadas e com a leve impressão de que ela havia passado a data errada de caso pensado só para se divertir com a nossa cara. Então, combinamos uma vingança: no dia seguinte, chegaríamos à casa dela, no horário da festa, vestidas com trapos, sujas, desbocadas, ensandecidas, descabeladas. Seria um escândalo! Mas faltou coragem e, no dia em questão, tomamos banho, prendemos nossos cabelinhos e recolocamos nossas roupas boas bravamente. Já na festa, nos primeiros cinco minutos, ficamos encostadas num canto com expressão de despeito, desconfiança e mágoa. No sexto minuto, esquecemos aquela bobagem e caímos na farra.

A festa aconteceu uns meses antes da nossa aventura no futuro Parque Vitória Régia. Sim, naquele tempo, ainda não havia o parque. No local, só se via muito mato e também uma surpreendente fonte natural. Para conhecê-la, era preciso descer um barranco, o que exigia uma certa destreza da nossa parte. Foi assim que acreditei ter entrado num livro de Maria José Dupré – e o Vitória Régia, num minuto, virou minha “Ilha perdida” da coleção Vaga-Lume da editora Ática. Sim, era uma façanha morar no interior nos anos 70.

Aos 8 anos, eu já sonhava muito. Sonhava em ser jornalista, em desbravar o Pantanal, em fazer uma tatuagem, em pintar o cabelo de roxo, em ser mãe de quatro filhos. E também tinha medos bem definidos: fantasma, piolho de cobra e prova de matemática, nessa ordem. Era uma boa vida: os jingles políticos já eram engraçados, as tristezas não duravam mais do que dois minutos e todo sábado de manhã carregava uma promessa de uma existência brilhante, notável, magnífica. Os 9 anos eram uma realidade inatingível, porque nada é tão eterno quanto ter 8 anos no interior paulista.

Claro que nem tudo saiu como eu imaginava: embora eu seja jornalista, parei na primeira (querida) filha, meu cabelo é um tédio, nunca fiz tatuagem, nem desbravei o Pantanal. Está certo que já engoli muitos sapos, alguns tão grandes como os jacarés pantaneiros, mas essa é uma outra história. Falar da Bauru que conheci quando cheguei aqui é evocar esses momentos intensos, cheios de doçura e picância, que formam a infância da gente. Não sei se idealizo ou se retrato com honestidade a década de 70. O que me parece é que aquela época é a cara de um trecho de um poema de Mario Quintana que diz assim: “E quando tudo parecia a esmo/E nesses descaminhos me perdia/Encontrei muitas vezes a mim mesmo”. É isso: nos descaminhos de Bauru, eu me encontrei.

Compartilhe!
Carregar mais artigos relacionados
Carregar mais por Fernanda Villas Bôas
Carregar mais em Cultura

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também

Projeto de estudantes de Bauru mostra as transformações na moda durante a pandemia

A pandemia mudou a moda. Devido às atuais circunstâncias, o consumidor se viu obrigado a r…