PRESENTES CRONICAmenor
Ilustração: Dora Bonadio / Coletivo Boitatá

A gente tinha entre dez e treze anos, talvez. E o grande barato era ter alguma coisa da Side Play, uma dessas lojinhas de shopping repleta de coisas agringalhadas. Na época, nenhum desejo era maior do que o de ganhar um fichário do Piu-Piu ou uma agenda do Mickey. Talvez até fosse, já que minha memória está ‘gritando’ coisas como ‘tênis Nike’ e ‘mochila Sansonite’, must heavy na metrópole mineira à época. Mas sigamos… A caixinha era linda, as cores eram lindas e era lindo fazer parte da turma iniciada nos bibelôs by Looney Tunes. Impossível recuperar o ano, tanto quanto descrever a maravilhosa sensação de ganhar o presente tão sonhado. Papai tinha conseguido boas obras e o Noel foi generoso, trazendo também jogos bacanas como Banco Imobiliário. Depois da meia-noite, os primos se reuniram para comemorar e exibir o que tinham ganhado, e todos quisemos jogar o presente da minha irmã, o mais divertido. O problema era que a pretinha, caçula e pirracenta, batia no tabuleiro e desmanchava a brincadeira a cada derrota sofrida. “Parei concê”, ela dizia.


Roupinha nova: ok. Penteado feito: ok. Maquiagem pronta: ok. Voz aquecida: ok. Tudo pronto para a cantata de natal na igreja e eu já estava pronta para ‘brilhar’- acredite ou não, era uma daquelas vozes primorosas (risos). Até ali a noite foi perfeita, o coro fez bonito e não havia um grande erro a reclamar. Faltavam umas duas horas para a meia-noite, mas mamãe foi apressada ao meu encontro, dizendo que eu tinha que voltar rápido para casa. Lá, papai babava de raiva, com frases desconexas e cheiro de quem estava fora de si. Nenhuma razão lógica justificava aquele comportamento, que acabara com nossa ceia antes mesmo de começar. “Quero que você se sinta tão infeliz quanto eu”. O que leva um pai a dizer uma coisa dessas? Até hoje, sei lá… Mas com um misto de ódio e compaixão, alguma coisa me fez enfrentar aquela brutalidade com sobrenaturais palavras de rendição: “Não tem problema, pai, mesmo assim eu amo você, eu amo você, eu amo você, eu amo você…”.


Desde que me entendo por gente sei que na ansiedade mora uma Marcella. Bastava ouvir “Amanhã vamos comprar material escolar” que a pessoa perdia o sono. Era muita emoção! Então, como explicar para esse ser descontrolado que os presentes só deveriam ser abertos à meia-noite do dia 24 para 25? É, não dava. Mamãe foi à luta, atender suas clientes em domicílio, enquanto Bá e eu ficamos brincando e cuidando dos afazeres domésticos. O problema é que na sala de casa tinha uma árvore de natal repleta de pequenos mimos. Já tinha ouvido “Ai de vocês se mexerem aqui”, mas, como boa irmã mais velha, expliquei e convenci: “A gente tira o durex rapidinho, com cuidado, só pra ver o que tem”. Claro que o remendo não deu certo, a fita perdeu a cola e os embrulhos ficaram horrorosos. Quando mamãe chegou, a “lei da palmada” não teve vez, mas consegui, enfim, por bem e por mal, adiantar o Natal.


Hoje, cada um dessas histórias me fazem rir e deixam feliz por diferentes motivos, independentemente do quanto custaram naquele momento. Elas carregam um quê de ironia e contradição muito típicas do Natal, pois, seria mais fácil infantilizar e romantizar a festa. O problema é que depois de certa idade, os argumentos já não colam. Daí, encaro ideias como “Natal só faz sentido quando se tem criança em casa” e “Prefiro Ano Novo do que Natal, pois o primeiro não depende de dinheiro e todo mundo pode ter” tentando entender porque as luzes de dezembro ainda são diferentes e exercem um fascínio enorme sobre mim. Analisando os números, isto é, mesmo sabendo que muita gente não vai celebrar a data porque não o pode fazer em qualquer época que seja; que muitos parentes podem se desentender, já que não se entendem nunca; e que um velhinho barbudo de roupa de veludo vermelho é ridiculamente incoerente com a nossa cultura e realidade, o Natal faz sentido. À medida que a noite se aproxima, meu coração fica cheio de gratidão por todos os Piu-Pius e Mickeys que já ganhei, me sinto generosamente disponível ao perdão e às declarações de amor e sou tomada pela ansiedade de estar com os meus e desfrutar cada minuto com eles. Assim, com toda incoerência, humanidade, fé e desconfiança, aposto que esta noite é mais uma oportunidade de cultivar memórias felizes. E as suas, quais são? Lembre-se, a gente nunca sabe quando e se terá uma nova chance. Não faz mal ser criança outra vez. Um natal memoravelmente feliz pra você!

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