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Você já parou para pensar como funciona a ressocialização de um preso? Quais oportunidades e medidas devem ser tomadas para que essa pessoa possa ser reinserida na sociedade com conhecimentos e habilidades novas? O Programa Via Rápida Expresso é um passo a ser seguido nesse sentido.

Desde julho, algumas escolas de Bauru começaram a ganhar uma cara nova. A pintura, conserto e encanamento são feitos por reeducandos que cumprem hoje o regime semiaberto e foram selecionados para receber qualificação profissional pelo projeto.

Através do curso, formado por dois módulos – 30/horas de aulas teóricas e 70/horas de aulas práticas – os reeducandos recebem qualificação profissional. A ação é uma parceria entre Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado (SDECTI), a Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) e Secretaria de Estado da Educação (SEE).

Os municípios foram escolhidos de acordo com a demanda de reeducandos na região. As reeducandas da Penitenciária Feminina “Sandra Aparecida Lario Vianna” de Pirajuí estão pintando a escola “Maria Angélica Marcondes” da mesma cidade. Já os reeducandos do Centro de Progressão Penitenciária “Prof Noé Azevedo” III e do Centro de Progressão Penintenciária “Dr. Alberto Brocchieri” I estão pintando as escolas estaduais “João Maringoni” e “Antonio Ferreira de Menezes”, ambas em Bauru.

A Escola Estadual “João Maringoni” tem cerca de 1.200 alunos, do ensino infantil ao médio, e recebeu os reeducandos durante o período das férias letivas dos alunos. A diretora Roseli Alves Moreira, na companhia de Alex dos Santos, Diretor do Centro de Progressão, falaram sobre como a experiência trouxe inúmeros benefícios à escola e aos reeducandos.

Você confere o bate-papo que os dois tiveram com o Social Bauru e entende como o processo é benéfico para ambos logo abaixo!

Está sendo satisfatório o resultado do projeto?
Roseli: Foi uma experiência ímpar, não temos nem como mensurar o benefício que a escola teve. Nós vamos receber nossos alunos com um ambiente acolhedor, bonito e com salas impecáveis.

Quando começou?
Roseli: Os reeducandos chegaram dia 11 de julho e todo o processo durou menos de um mês. Primeiramente, nós recebemos instruções e eles receberam a parte teórica com os professores. Isso durou pouco tempo. Logo eles já estavam colocando a mão na massa. A pintura foi o foco principal, mas eles também consertaram cadeiras, mesas, chuveiros, encanamentos, podaram todas as árvores. Eles foram extremamente proativos e nós nunca tivemos a escola tão limpa.

É a primeira vez que esse projeto aconteceu na escola?
Roseli: Primeira vez que nós temos essa experiência com esse número de reeducandos e com um comprometimento sem comparação.

Há quanto tempo existe o projeto?
Alex: o projeto foi lançado em janeiro desse ano, inicialmente pelo CER (Centro de ressocializações). A repercussão foi muito positiva e isso fez com que ele fosse ampliado para as unidades de regime semiaberto, que é o CPP (Centro de Progressão Penitenciária).

Como funciona a escolha da escola?
Roseli: Ah, nós somos privilegiados! Eu estou aqui já há 14 anos e é uma escola muito grande, não tão bem localizada. Com o tempo, nós conquistamos recursos para instalar alarmes e câmeras, mas é um espaço muito difícil de manter. O projeto também ajudou a comunidade a ver os reeducandos de uma forma diferente.

São quantos reeducandos?
Alex: São 75 no projeto com o Centro de Progressão Penitenciária de Bauru “Prof Noé Azevedo” III. São três turmas de 25 alunos que foram redirecionados para essa escola.

E como foi a escolha desses reeducandos?
Alex: Nós fizemos uma triagem. A Diretoria de Trabalho e Educação fez uma entrevista. O filtro para essa entrevista excluía quem já estava trabalhando com nossos parceiros. A ideia é formar o reeducando, o curso profissionalizante engloba trabalho e educação, que são os grandes pilares de sustentação da recuperação do indivíduo preso. A essência é que ele retorne à sociedade melhor do que entrou e, assim, reduzir os índices de reincidência.

De cara você já sente o interesse deles?
Alex: Com certeza! A procura foi muito grande, então nós temos já uma lista de interesse para os próximos cursos. E o desempenho, como já disse nossa diretora, foi fantástico. Superou muito a expectativa, porque nós notamos, também, a realização de cada um deles no desempenho da atividade.

E a participação deles não é obrigatória?
Alex: Não foi obrigatória. Foi feita a triagem com análise de aptidão, responsabilidade, comportamento, mas a oportunidade tem que ser dada, porque nós não podemos subestimar a capacidade do ser humano de evoluir, crescer e melhorar. Então, dada a oportunidade, tenho certeza que muitos deles sairão daqui já bons profissionais. E nós temos um outro passo, temos um grande número de parceiros na cidade, privados e públicos, e muitos deles na área de construção civil. Os nossos cursos de encanador e pintor encaixam muito bem nas necessidades de algumas dessas empresas. Alguns desses reeducandos já serão prontamente designados a um trabalho remunerado.

Esse trabalho realizado na escola não é remunerado, certo? Mas ele ajuda na redução de pena?
Alex: Não, não é remunerado, mas ele se encaixa na redução de pena sim. A cada três dias trabalhados, diminui um dia da pena.

Existe a possibilidade de continuar com o projeto em outras escolas de Bauru?
Alex: Eu acredito que sim! O projeto, como eu disse anteriormente, está no caminho certo desde janeiro. A perspectiva é que, em dezembro, nós tenhamos novas turmas. Curiosamente, eu fui contactado recentemente por uma outra diretora que também queria que o projeto chegasse à escola dela e isso é muito satisfatório. Mostra que está dando certo e que a palavra vai se espalhar. Não somos nós da unidade prisional que escolhemos as escolas, isso é feito junto à diretoria de ensino, mas acredito que já temos uma fila de escolas aguardando sua vez (risos).

Eles trabalharam aqui todos os dias?
Roseli: Todos os dias, de segunda a sexta.
Alex: Isso, eles vêm no período da manhã, às 8h. Nós do Centro de Progressão trazemos a refeição deles e disponibilizamos na escola e ao final do dia eles retornam para a unidade.

Em um primeiro momento, vocês tiveram medo por eles serem reeducandos?
Roseli: Olha, da minha parte não. Eu ando no meio deles, converso e eu senti que são todos muito educados, com vontade de exercer o trabalho. Eu senti que, assim que a pena terminar, eles estão prontos para serem reinseridos na sociedade e no mercado de trabalho.

Eles ficaram felizes com a oportunidade, né?
Roseli: Era sim o que aparentava. Ninguém parecia estar ali por obrigação, mas sim porque queria trabalhar. Nós vimos a sensibilidade, a felicidade deles.

Antes de ver tudo isso concretizado, a senhora já acreditava na recuperação deles?
Roseli: Eu acreditava, porque eu sei de outros lugares, eu vi na internet escolas que isso já havia ocorrido. Nós estávamos torcendo para dar certo, claro que tomamos medidas de segurança, eu falei com todos os funcionários, mas a positividade sempre esteve presente.
Alex: Talvez seja até natural, em uma fase inicial, um certo receio, mas que isso se transforma a medida que eles desenvolvem as atividades, trabalham e produzem. A partir disso, aquele pré-conceito é superado.
Roseli: Eu acredito que isso não tenha ocorrido na nossa escola porque eu sou a diretora pedagógica da Fundação Casa, então nós já temos a convivência, o costume, os professores daqui já sabem como agir. Eu acredito que nós não podemos ser ingênuos, mas também não devemos deixar de desacreditar nessas pessoas.

Você sente que o comportamento deles muda depois do projeto?
Alex: Com certeza! A mudança é bem visível. Nós, que trabalhamos todos os dias com eles, notamos que o trabalho e o curso profissionalizante são capazes de mudar a pessoa sim!

O Social Bauru também teve acesso à uma entrevista da reeducanda Tamires Evelin da Silva.

A reeducanda tem 25 anos e está presa há quatro anos e um mês na Penitenciária Feminina de Pirajuí, que também faz parte curso Via Rápida de pintura e encanamento.

Você já sabia pintar antes desse curso?
Tamires: Não, nunca havia pintado. Já fiz outros cursos na unidade, como maquiagem, mas nunca pensei que um dia fosse aprender a pintar.

Quais os benefícios que o curso te trouxe?
Tamires: Além das técnicas de pintura nas aulas teóricas e práticas aprendemos os nomes dos produtos, texturas, mistura com água nas proporções corretas, como lixar e passar a massa corrida. Também vimos vídeos motivacionais, recebemos cartilhas explicativas e equipamento de proteção individual.

Você encararia pintar casas quando ganhar a liberdade?
Tamires: Com certeza! Já somos discriminadas por sermos presas e mulheres, é difícil arrumar um trabalho por isso, então, agora que aprendi essa profissão poderei trabalhar como pintora lá fora. Irei mostrar que nós, mulheres, também podemos trabalhar em serviços que só homem faz, e fazer até melhor que eles (risos).

Como você acha que a sociedade enxerga vocês (presas) pintando uma escola?
Tamires: Eu achei que eles não aceitariam, porque alguns sentem medo ou receio por estarmos presas, mas foi o contrário. Algumas pessoas idosas — que passavam próximo à escola — elogiaram nosso trabalho e podemos mostrar pra sociedade que nós queremos mudar nossa história.

O que mais pode falar dessa experiência?
Tamires: Eu aprendi muito com esse curso. Aprendi a trabalhar em equipe e como tratar melhor minhas colegas. Estarei capacitada para quando sair daqui (prisão) procurar um emprego e mudar minha história. Terminei meus estudos na escola vinculadora da penitenciária e também trabalho na unidade, nunca pensei que isso aconteceria. Este tipo de coisa nos transforma pessoas melhores e podemos repensar nossas escolhas.

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