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Em 1999, com o trabalho de ‘formiguinha’, um ex-morador da cidade começou o grupo Expressão Poética. Apesar de hoje ele estar no Japão, o seu legado continua firme e forte em Bauru. Ao todo, são mais de 20 membros que participam de atividades literárias e eventos voltados ao público em geral, desde palestras a crianças em escolas até sarais promovidos por aqui. “Recentemente, nós promovemos alguns eventos em escolas municipais e estaduais de Bauru para incentivar novos leitores e novos escritores. Este mês iremos fazer no Ernesto Monte e posteriormente em outras”, diz Reginaldo.

E para os integrantes, o objetivo do trabalho – não só o realizado em escolas, como em todos os eventos promovidos – é de aproximar a leitura das pessoas; longo caminho a ser percorrido. “O maior problema que os escritores enfrentam é que não há quem consuma literatura. Aqui em Bauru nós temos vários autores, mas não há consumidores. Normalmente, quem compra os livros destes escritores são os amigos e a família. Acredito que seja algo cultural, mas principalmente porque a cidade não incentiva e não valoriza este trabalho. Sem contar que o livro é caro, principalmente para os alunos da periferia. Infelizmente, não há políticas públicas que tratam o livro como um bem de consumo necessário”, afirma Reginaldo.

Infelizmente mesmo. A literatura faz parte do crescimento de cada um e isso é visto e sentido em cada membro que foi chegando para o bate-papo com nossa equipe, realizado no Bosque da Comunidade, na última semana. Em sua pluralidade, o grupo vem agregando talentos e sonhos de moradores daqui da cidade.

Confira o bate-papo:
Todos os membros são escritores?
Ana Maria Barbosa: A maioria sim, mas nem todos participam de todos os eventos. Uma de nossas participantes é muito ligada ao teatro e é sempre a mestre de cerimônias de nossos eventos. Funciona assim, todo mundo se ajudando.

É um grupo aberto?
Reginaldo: É sim. Quem quiser participar pode entrar no nosso grupo sim. Os encontros são periódicos, mas sempre acontecem no Bosque, no Sesc, agora em escolas e em outros pontos da cidade.
Regina Ramos: O nosso trabalho é para aflorar a leitura nas pessoas. Muitas crianças ficam surpresas quando nos conhecem e descobrem que nós somos os autores dos livros.
Ana Maria: Já me disseram que achavam que todos os escritores já estavam mortos! (risos).
Regina Ramos: Por isso que é tão importante esta aproximação.

O que vocês acham que poderia ser feito de diferente na cidade em promoção à literatura?
Regina Ramos: Eu acho que Bauru tinha que ser a cidade dos escritores. A cidade tem muitos escritores! Porém, não temos as políticas públicas que precisaríamos ter. A própria Secretaria de Cultura poderia auxiliar na edição do livro. Mesmo com as dificuldades, não desistimos.

E por que não desistem? O que os motivam?
Regina Ramos: Não desistimos porque acreditamos na importância da literatura.
Ana Maria: Além disso, muitos jovens nos procuram porque querem um incentivo para continuarem escrevendo e produzindo. Uma vez, uma pessoa me procurou porque não tinha coragem para publicar o livro dela. Sentamos, conversamos, ajudei com contato com editor e ela lançou o livro. Ela nunca deixa de dizer que fomos nós que iluminamos o caminho dela. Isso é gratificante. É claro que a gente cansa e às vezes pensa: ‘por que estou fazendo isso?’ Mas aí alguém nos procura, nos pede ajuda e a motivação volta. Como aconteceu quando conheci o Noah…
Noah: É, eu estava abordando algumas pessoas na rua, porque gosto dessa aproximação. Quando saí de casa, decidi que ia vender poema em folhas. Primeiro, pensei em ir aos semáforos, mas no caminho já fui abordando algumas pessoas e fui gostando disso, deste tête-à-tête. Nessas andanças, eu encontrei a Ana que me falou do Grupo Expressão Poética, que é um lugar para todos.

E como funciona o seu trabalho?
Noah: O meu ganha-pão é esse: abordo a pessoa e pergunto se já conhece o meu trabalho. Aí, conto a minha poesia introdutória: “ando por aí, vendendo as minhas poesias por uma só moeda, nem que seja aquela raridade de um centavo, você já pode levar embora para ler e refletir. Toda a poesia que vendo, fui eu mesmo que escrevi e vendo por qualquer moeda mesmo, sem discriminação nenhuma por tamanho, cor ou valor. E antes de você decidir se quer levar embora minha poesia ou não, você tem o direito de ouvir para ver se vale a pena ou não gastar a sua moeda.” As pessoas são muito receptivas, o que me surpreendeu; achei que ia sofrer mais preconceito. Faz dois anos que faço isso. O ano passado até lancei o meu livro de poemas.

Pelo que eu estou vendo em vocês, o grupo é muito plural, né? Cada um com a sua história e o seu estilo. Todos sempre gostaram de ler e de escrever?
Noah: Não, eu comecei a ler só no meio da faculdade, de Publicidade e Propaganda, na UNIP. Fiz a faculdade porque era o sonho do meu pai, mas nunca segui carreira, apesar de eu gostar muito de frequentar as aulas. Quando me formei, saí de mochila pelo mundo, mas foi nesta época que eu comecei a ler e a escrever. Na época tinha até o orgulho de dizer que escrevia poemas, mas nunca tinha lido nenhuma poeta. Mas isso não tem nada a ver, a gente tem que consumir muito.
Regina Ramos: O meu pai lia gramática em casa. Lia e caminhava pela casa. Era um estudioso. E eu também sempre ficava em casa lendo livros, minha filha sempre me via lendo. Quando eu era professora, gostava de chegar na sala de aula e colocar um pensamento na lousa, mas sem um final, para estimular a criatividade desses alunos. Acredito que o meu começo tenha sido assim.
Sandra Mara: Eu escrevo desde a adolescência, apesar de nunca ter lançado nenhum livro. Também, assim como a Ana Maria, eu sempre vou atrás de exaltar as obras de outros autores, com projetos na cidade.
Ana Maria: olha, acho que eu era a única na sala que lia Machado de Assis, José de Alencar e outros autores na época da escola. ninguém lia! (risos). Só que aí na prova, todo mundo queria colar de mim, né? (risos).

E qual o maior objetivo do grupo?
Ana Maria: É poder agrupar as pessoas que gostam de poesia aqui em Bauru.
Reginaldo: É poder sermos nós mesmo, fugindo um pouco daquilo que dá dinheiro. Claro que seria maravilhoso se a gente pudesse viver disso, mas estamos em um País onde não tem políticas públicas para isso.
Noah: Aqui podemos caminhar fazendo o que gostamos.

Quem quiser conhecer melhor o grupo, pode acessar: www.facebook.com/ExpressaoPoeticaBauru

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