“Tem gente que acha que ser comissário de voo é só glamour, viajar e passear. Mas, na verdade, somos agentes de segurança. Aprendemos desde primeiros socorros até a sobrevivência na água”, apresenta Manoela Haddad, 26, sobre a profissão que escolheu desde os 12 anos de idade.

De acordo com o Sindicato Nacional dos Aeroviários, comissário de voo é o trabalhador a bordo que exerce o “cumprimento das normas relativas à segurança e ao atendimento dos passageiros”. Embora essa não seja a imagem que as empresas apresentem sobre a profissão ou que o público perceba.

O profissional é o auxiliar direto do comandante do avião, responsável por identificar cada especificidade do voo e pelas normas de segurança. Além de realizar o atendimento dos passageiros, a acomodação e o desembarque.

“A gente tem mais de 17 itens de memória, que são, basicamente, onde ficam os equipamentos, onde ficam as portas de emergência do avião, quais são os itens que possuem em cada porta… Isso varia conforme a aeronave”, explica Manoela.

Atualmente, a bauruense é capacitada para trabalhar em todos os aviões da Azul Linhas Aéreas, companhia brasileira de aviação civil. De Embraer a Airbus.

Foto: arquivo pessoal

De “cabin boy” a comissário de voo

Segundo um levantamento feito pela Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), em 2017, cerca de 66,03% dos cargos de comissários de voo são ocupados por mulheres. Entretanto, apesar desse dado, a profissão nasceu como “masculina”, lá em 1922. É o que conta Maria Luisa Costa Nery, sobre a história da profissão, na dissertação de mestrado pela Universidade de São Paulo (USP).

Na época, os aviões eram de difícil manuseio, tanto para os tripulantes, quanto para os passageiros. Por conta disso, apenas homens se aventuravam na “atividade suja, audaciosa e às vezes perigosa”, escreve a autora.

Todavia, o transporte aéreo passou por transformações quando a empresa Britain’s Daimler Airways contratou os primeiros comissários de voo, os “cabin boys”, nos Estados Unidos.

Os “cabin boys” ou “meninos da cabine”, eram encarregados de pesar as bagagens e passageiros, realizar o check-in dos mesmos, acomodá-los para que a aeronave não perdesse o equilíbrio e auxiliar na manutenção do veículo.

A primeira de muitas

Isso se manteve até 1930, quando a vanguardista Ellen Church, enfermeira capacitada para ser pilota de avião, mas impedida pelo machismo, propôs à empresa Boeing Air Transport (atual United Airlines) que habilitasse enfermeiras para o trabalho a bordo.

A proposta ambiciosa apresentava o fato de que enfermeiras seriam capazes de cuidar dos passageiros em situações de emergências.

Ellen Church (Imagem: National Air and Space Museum)

A empresa acatou a sugestão. Ellen Church tornou-se a primeira comissária de voo de que se tem registro. A partir daí, estabeleceu-se um padrão entre a Boeing Air Transport e outras companhias aéreas que seguiram a empresa. Para trabalhar “voando”, era necessário ser enfermeira formada com no máximo 25 anos, 1.60 m de altura e até 52 kg. Além disso, as mulheres deveriam ser solteiras e sem filhos, já que passariam dias longe de casa.

Primeiras comissárias de voo da Boeing Air Transport, também conhecida como as “Oito originais”. Foram treinadas por Ellen Church (Imagem: National Air and Space Museum)

O fato de ser enfermeira era entendível, por conta da tranquilidade passada aos clientes, conta Maria Luisa Costa Nery. Já os padrões femininos impostos pelas companhias, como peso e altura, além de terem relação com o tamanho e peso da aeronave, provavelmente estavam atrelados à “publicidade subliminar”.

“Se uma mulher jovem era capaz de entrar em um avião e percorrer um trajeto dentro dele, por que os homens teriam medo de voar?”, cita Nery.

Onde está o glamour?

Durante a nossa conversa, pergunto a Manoela sobre o que os outros pensam da profissão. Ela me responde subitamente: “As pessoas definem como viajando o mundo e passeando”, conta.

E pensam assim com razão. Com a chegada dos jatos e aumento de viagens nacionais e internacionais, por volta dos anos 40, as companhias aéreas incentivaram o estereótipo de que comissárias tinham um estilo de vida “glamouroso” e “exótico”.

Em sua monografia, Maria Luisa Costa Nery explica que, naquela época, as moças procuravam a profissão como algo temporário para “ver o mundo”. O que era interessante para as companhias, dado que, por conta da alta rotatividade de funcionárias, pagavam salários mais baixos e não acatavam direitos trabalhistas.

O cenário começou a mudar nos anos 70, quando a profissão passou a ser encarada como plano de carreira. De lá para cá, mais homens adentraram no ramo e a ocupação foi reconhecida legalmente. No Brasil, isso ocorreu em 1984.

Bianca Marques, Ana Acosta e Manoela Haddad (Foto: arquivo pessoal)

Entretanto, apesar de ainda existir no imaginário popular a “vida glamourosa” que levam os comissários, Manoela informa que há muito trabalho por trás.

“Trabalhamos 12h e folgamos 12h. A hora passa a ser contada quando a porta do avião fecha”, informa. “A gente pode voar até seis dias seguidos. São esses os dias que posso ficar fora de casa e essa é a maior dificuldade para mim, principalmente aos fins de semana, que fazem muita diferença. Mas me adapto com o que tenho e amo o que eu faço!”, complementa com sorriso no rosto.

Comissário de voo exige estudo

No Brasil, para ser comissário é preciso fazer um curso em uma escola de formação regulamentada pela ANAC. O curso pode durar de 4 a 6 meses. Manoela fez o dela em 2014, aqui em Bauru, no Aeroclube de Bauru.

Ao longo das disciplinas teóricas e práticas, os alunos aprendem a como agir em situações de emergência, combate ao fogo, primeiros socorros, medicina aeroespacial, sobrevivência na selva e na água. Além disso, é ensinado noções de cuidado e conforto para com os passageiros.

Manoela conta que, apesar de ter terminado o curso e ter sido aprovada na prova final da ANAC, uma espécie de vestibular, não conseguiu adentrar no mercado de trabalho logo em seguida.

“Eu trabalhava na época, mas eu não tinha conhecimento de atendimento ao cliente e meu inglês era bem mais ou menos. Logo que fiz a prova da ANAC e passei, prestei várias companhias: Azul, Gol, Tam, Avianca… Não passei em nenhuma. Eu tinha preferência pela Azul e o inglês me barrou 100%”, afirma.

Isso não abalou a bauruense. Manoela começou a se profissionalizar com cursos de atendimento ao cliente, comunicação e linguagem. Agora, coleciona mais de quatro anos de experiência e aconselha:

“A dica número um é o inglês, ele é essencial para qualquer companhia, nacional e internacional. Caso não tenha desenvoltura para lidar com pessoas ou se é uma pessoa muito tímida, recomendo cursos especializados em atendimento ao cliente e etc. É muito estudo, é difícil de entrar, mas não é impossível o esforço sempre vale a pena!”, finaliza.

Foto: arquivo pessoal

 

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